ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Uma carta para o poeta Rilke e seus comparsas de todos os tempos



Não é de migalhas que se faz um poeta – 01/07/2016
Uma carta para o poeta Rilke e aos nossos irmãos que querem uma via, um rosário do Espírito Santo para trilhar o dia a dia do artista.

Não começaria um romance dizendo que a xícara estava sobre a mesa e a moça lia um livro de linhas sublinhadas. Não começaria um romance dizendo que a paisagem é cinza como em Londres e que canta em seu coração a voz de um anjo. Não começaria um romance. Pois mais que um romance em papeis e letras, vivi um romance em meu corpo de criança até moça de moça até velha de velha até o que ainda não aconteceu. Elas são mulheres, foram mães, têm as chaves de suas casas, podem ir para o Rio de Janeiro deitarem suas vidas num chão sujo de hotel e depois tomar um banho de mar, sem sal.
Fernando, Marcelo, acho que nunca os amei, mas amo, mais amo.
Alisson criança boba que chora bonito e não é homem suficiente pra mim.
André é o inferno tudo que eu não gostaria de ter vivido mas foi preciso.
João Carlos a promessa de termos sido o que podíamos e não fizemos, nos perdemos, poderíamos ter corrido nus três voltas na praça da Liberdade!
O resto é prostituição sem sentido e sem amor, a proporção da necessidade se agigantando mais do que o pensamento, eu desisto de encontrar porquês, somente o para quê indizível, insubstituível, a saída que tinha para ontem.
Concordo que não é de migalhas que se faz um poeta, é de pão.
O pão da luta sem saber lutar o pão do sonho de quem ainda não penhorou todas as suas joias, a vontade inegável de você.
Um poeta não é possível, veja cazuza, Renato Russo e Paulo Ricardo, tríade santa que explorou milhares de viagens sem álcool, sem droga, sem sexo obscuro. Um poeta não é possível sem amor. Um amor que mergulhe após, todas as superficialidades sendo diluídas na violência dos sentidos.
E para os outros autores, olhar, observar, sentir com cada poro de pele, cabelos, braços, cotovelos ralados (meus e de meu amado), pés seguros pra dançar uma dança que ninguém  mais conhece, só o poeta sabe. que é dele. Não é preciso mostrar pra quem pede, só é preciso  mostrar pra quem merece, como você merecerá um dia, meu amor. Ora em solo, ora a dois, a poesia é um balé de muitos que não sabem dançar embora querendo muito, daí mostramos pra eles com mãos, pés, cabeça, coração, joelho, corpos deitados feito padres fazendo votos tão perpétuos como o dia de hoje, somente hoje, por hoje não vou mais pecar, o amanhã não existe  e o ontem já passou, pertence à Deus, sua misericórdia travestida de Maria a quem confiamos a suprema intercessão.
Ademais tudo o que fizeram foi para mim sim! Exclusivamente para mim, contextualmente para todos.
A poesia não aceita nada que é inadequado. (“Você me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar”! rsrsrs) Para ela se acalmar dentro de si mesma cada coisa deve ocupar o seu devido lugar. Ainda que a imaginação para salvar a vida invente caminhos, transformando água em vinho, uma riqueza que é preciso caminhada mais interior do que exterior para entender. Entender que basta querer para ser poeta ou qualquer tipo outro de artesão ou artista e se comunicar consigo mesmo, com Deus, com os outros artistas que idolatramos adequada ou inadequadamente e com todas as outras pessoas (somos 8 bilhões de humanos no mundo) tudo tem de ter o seu lugar. Quando a vontade é maior que o desejo as coisas podem acontecer como elas são: você o pão o chão e a cruz.
Deus existe até para aqueles que são ateus, como eu fui.
O que é a cruz: é uma forma de passar por Jerusalém. Vindo por caminhos de rejeição, caminhos de solidão, caminhos de amizade, de pranto, de dor, de alegria e nunca de êxito, êxito é a ressurreição, a anistia até quem sabe às Diretas. Democracia é o céu, prometido por Deus e que nos dá a força para recomeçar, recomeçar, recomeçar de um dia ruim.
Mas eu asseguro a vocês: como é bom escrever o que a palavra quer que eu escreva, dizer o que ela pede pra mim, bem como dizer à palavra que diga o que a gente quer, o que a gente quiser,  o que tiver de ser dito, o que já disseram antes de nós e só nós agora podemos dizer. Superar os mestres de antes e servindo-lhes de ponte sobre a qual deslizando seus pés podemos dizer sirvo somente ao vencedor, Vencedor é aquele que engendrou um vocabulário plural e único, vizinho e habitante. Homem e Mulher. Podendo se confundir exaustivamente num terceiro sexo Mulher-homem, homem-mulher, mulher –mulher, homem-homem e tudo isso ao infinito entre as variações Santas.
Todavia preciso dizer o que é a cruz para mim: é ceifa prematura, é camisola sem sangue, é viola muda é amigo que foge de amigo, é violência a que podemos suportar, é violência a que não podemos suportar, mas sempre é vida. A morte foi a cruz somente de Jesus, Ele que era um Deus menino suportou por nós a força do pecado em ação, as xibatadas do aleijão, as cusparadas do que não conseguia dizer Te amo simplesmente, mas que já sentia amor por Ele. Jesus era Deus, os apóstolos homens e a loucura que se apossava deles era querer amar como Ele, mas não: amavam somente a Ele.
Litros de água benta ajudam a acalmar, mesmo violento, eu gosto mais do que acalma, do que põe em voz baixa, há momentos para o grito também, mas é menos, ao menos para mim que tenho a cruz de uma voz com pouca amplitude, uma caixa toráxica delgada, um corpo cego de bailarina-menina. Cada qual observe sua sina e descubra de onde sai esse fio de água, esse olho d`água que caudaloso apenas desata mais violência, mais violência e o sono é tão bom: ele tem teu nome Adriana Calcanhoto.
O equilíbrio e a centralidade de Bethania, musa deusa rainha objetivo são de qualquer artista que não compactua com a mediocridade.
Deve-se fugir mais do fétido, do podre, da pobreza subjugada do que da má poesia. Sempre a poesia é o melhor remédio, contudo te quero amigo, como um evangelista Saramago e não como um manco diabo. O máximo de significado no mínimo de significante. O máximo de imagens dentro do seu próprio corpo transcendendo para o poema.
A metáfora nasce no coração de cada artista como um dialeto pessoal que é universal, eu posso te dar algo de meu e você pode me devolver, usar, gastar, borrar, atrapalhar, recuperar, desdobrar, reduzir, explorar. Mas o que é teu ninguém te tira, ainda que pareça não haver saída, o filme é conduzido por nós até certo momento. Como é prodigiosa a consciência;  inconsciente também trabalha e trabalham juntos. “nunca as minhas mãos estão vazias” disse-nos Sophia de Mello Breyner.
Consciência é o que somos, inconsciente é o que temos e as mãos cheias de dons são as palavras que vieram antes de nós e nos representaram e nos representam (podemos falar por sua boca ou dar voz à sua boca), por pessoas as quais queremos ser (iguais e diferentes), queremos continuar suas vidas, queremos atualizar o evangelho, porque é preciso dar voz ao atual em nós, sem isso  a civilização não poderia prosseguir.
Se um artista fica rico é por trabalho duro, um trabalho que a poucos querem dar-se à entrega e à preparação. e encarar de frente ou lateralmente a tarefa. E trabalho duro é ferramenta e gozo, tristeza e insanidade, inocência e paixão. Tem que ter talento para viver tanta dor e tanta delícia na dor e na alegria, na saúde e na doença, é saber que não somos melhores do que ninguém, mas ninguém também pode existir como nós existimos, numa degradação que é santa e só nos permitimos realmente quando não damos conta, ou quando damos a conta a cada um que nos fez assim, principalmente a Deus.
Mas se o artista é pobre ou a ele nada chegou de matéria, tudo justifica seu verso. Tudo justifica seu verso.
Contar a cada qual o que e como foi sua história perceberá que a tudo superou em razão desse trabalho que é uma urgência ao mesmo tempo pode ser estancado por coisas mais importantes e que são a própria matéria do trabalho.
Inspiração existe sim, é um estímulo exterior interior, mas que só reverbera se tiveres do que viver conforme o que já citamos acima. Faça para a inspiração uma cama como um tatame de Samurai, das coisas que desejamos e precisamos, fique com as duas: esse é o caminho!
Duelo de Titãs, com ou sem nomeada é a senha do teu sucesso.
Só escreve quem lê, só lê quem escreve nem que sejam cartas de amor.
Se há iluminados, há sim e são quase todos, eu não deixaria nenhum escapar de mim.
Quem como Gonzaguinha? Quem como Chico  & Caetano? Quem como Gal e Bethania? Quem como Gilberto Gil? Quem como Fernando Pessoa e o mar de Portugal? Quem como Arnaldo Antunes e Amadeu Thiago de Mello? Quem como eu ou como tu? Ou como tu e Eu?
Todos têm direito de serem poetas, todos têm direito de serem pintores, todos têm direito de ser fotógrafos, todos têm direitos de ser paisagistas, todos têm direito de ser cantores e atores. Todos esses são bailarinos por excelência (a excelência das artes). Mas eu repito e não advirto: há que se conquistar através da lua de remanso num rio calado que é teu próprio coração.
A música é um bordado a várias mãos, com uma única agulha e um retrós infinito de linha de uma única cor: branca.
Não concordo com poesia de fantasma e de exaltar mal e terror, mas respeito a quem a isso se dedique porque é preciso conhecer ainda os caminhos que não queremos pisar. E agradecer todo dia a bênção de poder fazer uma casa de que gostamos de viver e convidar os amigos (conhecidos e por conhecer) a entrar (a chave é minha, a porta é Deus e o interior é tudo de bom e são e puro que posso erguer dentro da ferida cicatrizada, dos tempos combinados, do sangue arrebatado e da queimadura que percorre todo o tempo da bolha à reconstituição, mas te digo um pouco mais (pedindo desculpas pela intromissão) a tua criatividade pode a tudo transfigurar, apoiada nos poemas de nomeada, nos bicos de cegonha, naqueles inocentes que povoam de nada a nossa existência, mas como os amamos no silêncio ou na correria, mas sempre o trabalho, porque essa profissão não tem garantia, nem fundo de pensão, mas pode ter segurança na casa dos artistas, eu louvo o Stepan por isso. Amém. Mas pode ter o pagamento mês a mês como uma árvore benta sobre o que ainda não tem forma (mas existe dentro de você) e como um manancial gigante garante o ontem, o hoje e o amanhã.
Não gostaria de falar sobre recomeços, mas sei agora se eles não forem religiosamente postos em prática não poderemos por o resultado à prova, quando pudermos ver a grandeza do que somos, nos achando mais, é nesse momento em que precisaremos reconhecer a nossa pequenez para podermos prosseguir sem comprometer tudo o que somos e ainda poderemos ser para si mesmo primeiro, depois pra Deus e depois para o irmão, ou não necessariamente nessa ordem ou necessariamente nessa ordem. Você só faz aquilo que te é próprio, propriamente.
E ainda se for preciso ter uma profissão mais concreta para se armar de amor e de dignidade nesses começos que são tão difíceis em todos os sentidos, ainda mais para quem ama sem amor. Tenha essa profissão e se orgulhe disso e a isso se entregue com igual paixão, vai te ajudar mais do que imaginas. Um dia Deus se cansa dessa pretensa fuga, dessa ciranda, desse necessário amparo e te joga purpurina, confete, água benta e pur pura mágica te entrega aquilo que você merece, porque há vida e merecê-la é o que mais vai te jogar pra frente, pro alto, pros lados, pra tráz.
At list never giv up, mesmo quando sua vida estiver por um triz, no começo ou no fim,  você tem sempre que ser melhor, ser melhor, se superar esbelto como um atleta, que dança (novamente dança) um alegro apesar de seus 120 kg.
Maturidade existe sim e é arrancada a fórceps. Não desista da maturidade e não se deixe abater pela imaturidade, há pérolas em todos os estados de nossa missão. Basta crer e trabalhar, ousar e ter um fio de esperança que seja, alguém em algum lugar (que seja apenas você mesmo) uma hora irá dizer amém.
Os concursos literários e os concursos em geral são uma praga, eu não desejo isso pra ninguém. A coragem pode nos libertar deles quando sem querer cairmos em seus abraços.
Mil beijos dessa poeta por excelência do serviço público, com amor: Nívea Moraes Marques de Mello.
No colofão colocaria a minha necessidade do Sagrado. De Deus nas missas, nos grupos de oração, no serviço na catequese, a vivência em família, no trabalho, com os amigos, com o amado a amada. As viagens interiores ou de malas distantes, o tocar de leve como a suspeitar o fogo na vida dos consagrados. Amém.
Obs: Nada, nem ninguém te tira a satisfação de um texto bem construído e trabalhado, limpo e aguado e que deixe na pessoa que  o ler (primeiro em vc) os sinais do amor. Isso junto com Ironi, pra mim é CURA. E o melhor, não precisa de “muito”: basta papel, lápis/caneta e disposição ou o preço das “tecnologias”.

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