ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sábado, 7 de setembro de 2013

DE VELUDO COMO O JAMBO



Restauração
Nívea Moraes Marques

“(...) a polpa desse coração de veludo que é o jambo;”
Milton Hatoum

Já não preciso ser bela mais para o público. Gente demais que observa e opina, mede, tece, impede, propõe...

Eu já não preciso ser bela mais... Não como uma prima-dona das óperas que invento. Sou simples como camponesa, mãos grossas de cultivar palavras, avental sujo de lágrimas e terra e os cabelos encrespados pelo vento, ora nos olhos, ora na testa, cabelos ao vento.
Dentro dos teus olhos, me olhas como sou e como serei em nossa casa, sentados à mesa da cozinha numa noite de inverno.

Dentro dos teus olhos os meus olhos se entendem de um profundo castanho (igualzinho aos teus), desvelados e abertos para tudo que é belo e há de ser o nosso Deus.
Ele permite que ninguém mais seja perfeito, nem eu, nem você...
Eu era bela e pequena. Eu era bela e desperdiçada, eu estava perdida, errante sobre os campos do nada.

Hoje meus pés caminham sobre meu corpo grande e delicado, nuvem doce para abraços de acolhimento e de ternura, vigiando o que se pode fazer para ser alguém que ama, que recebe a alegria do encontro em mínimos gestos como os acenos, como os apertos de mão, como quem vê uma pequena semente dentro do irmão, a que pode regar, a que observa crescer e a que pode tocar e admirar o milagre que faz, o milagre que tece, o milagre da paz.

Eu já não preciso ser bela mais como uma orquídea cultivada, meu coração é de veludo. De veludo como jambo. E ele é seu.

Nenhum comentário: