ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ONDE SEGREGAS TANTO SENTIMENTO



“Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.”
Adélia Prado

Eu sei que ainda há jornada a percorrer. E para isso preciso de meus pés. Preciso dos teus.

Cada vez que te ouço, feito quebra-cabeça arrumo uma peça nessa jornada. Que não volta atrás na fidelidade ao Senhor.

Tua presença é necessidade e alegria. E quando prevista me enche de coragem. E quando imprevista me causa uma avalanche. Em que nunca sei a correta adequação.  O menos é mais e o menos é muito é tão grande.  Que não dou conta do que sou do que és do que somos . E poderemos ser.

Onde segregar tanto sentimento? Talvez nos meus olhos baixos, talvez em tua convicção do céu, talvez nos escassos olhares em que nos vemos em verdade, talvez em nada, talvez.
Que eu sempre te olhe através dos olhos de Jesus.
Que você sempre me olhe através dos olhos de Jesus.
E gozemos a paz de tudo de lindo que nos é dado: a fraternidade e a palavra.

Nívea...

sábado, 7 de setembro de 2013

DE VELUDO COMO O JAMBO



Restauração
Nívea Moraes Marques

“(...) a polpa desse coração de veludo que é o jambo;”
Milton Hatoum

Já não preciso ser bela mais para o público. Gente demais que observa e opina, mede, tece, impede, propõe...

Eu já não preciso ser bela mais... Não como uma prima-dona das óperas que invento. Sou simples como camponesa, mãos grossas de cultivar palavras, avental sujo de lágrimas e terra e os cabelos encrespados pelo vento, ora nos olhos, ora na testa, cabelos ao vento.
Dentro dos teus olhos, me olhas como sou e como serei em nossa casa, sentados à mesa da cozinha numa noite de inverno.

Dentro dos teus olhos os meus olhos se entendem de um profundo castanho (igualzinho aos teus), desvelados e abertos para tudo que é belo e há de ser o nosso Deus.
Ele permite que ninguém mais seja perfeito, nem eu, nem você...
Eu era bela e pequena. Eu era bela e desperdiçada, eu estava perdida, errante sobre os campos do nada.

Hoje meus pés caminham sobre meu corpo grande e delicado, nuvem doce para abraços de acolhimento e de ternura, vigiando o que se pode fazer para ser alguém que ama, que recebe a alegria do encontro em mínimos gestos como os acenos, como os apertos de mão, como quem vê uma pequena semente dentro do irmão, a que pode regar, a que observa crescer e a que pode tocar e admirar o milagre que faz, o milagre que tece, o milagre da paz.

Eu já não preciso ser bela mais como uma orquídea cultivada, meu coração é de veludo. De veludo como jambo. E ele é seu.