ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sábado, 13 de julho de 2013

EU COSTUMAVA SER POETA







 "O HOMEM QUE VINHA AO ENTARDECER
Falava com devagar, ajeitando as palavras. Falava com cuidado, houvesse lume entre as palavras. Chegava ao entardecer, os sapatos cheios de terra vermelha e do perfume das matas. Cumpria rigorosamente os rituais. Batia primeiro as palmas (junto ao peito) Depois falava. Dos bois, das lavras, das coisas simples do seu dia-a-dia. E todavia era tal o mistério das tardes quando assim falava
que doía."
José Eduardo Agualusa


Eu costumava ser poeta. Eu envenenava palavras com riso e choro e morria por elas depois.
É que eu precisava criar um espaço de berço pra elas no duro piso do que é pra você a vida.
É que eu preciso de sonhar teu sorriso para poder vê-lo, vivo!
Eu costumava ser poeta e a tracejar uma linha pontilhada entre o que é e o que não é, e talvez borrasse o pecado em tintas de aquarela, sem saber distinguir o sim do não...
Eu costumava ser poeta para criar a beleza (sem costurar suas margens), eu costumava ser poeta! (e talvez tivesse muitas almas, te dando mais trabalho para salvá-las todas!)
Eu costumava ser poeta para querer a felicidade das crianças, para gozar folgas, para olhar dentro do que está dentro dos teus olhos, para suspeitar, apenas suspeitar o que ainda não é matéria.
Eu costumava ser poeta e irresponsável. Era infinitamente mais bela com pés e asas de borboleta, talhada apenas para dançar as danças de roda.
Eu costumava ser poeta e tinha um coração delicado a que agora pedes, como o devedor cruel, contas de cada coisa porque o bem supremo não pisca, não é sutil, não permite um soluço nem um hiato.
É verdade que ao me demitir poeta aprendi a ser mais justa nos propósitos de Deus, a enfim aceitar meu estado de vida, a cola que me gruda ao meu passado e que ainda não se resolveu, ainda não se resolveu...
Não posso me esquecer, pertenço à legião estrangeira (sempre errante, sem moradia, apenas observadora do som das casas, do quente das lenhas nas lareiras, da oração precedente dos sonos e eu vou recolhendo os dados como bagageira errante e calada).
Não há nada de mal em não ser poeta, sou um poeta em desuso...
Devo entregar minha alma ao silêncio, pois se a deixo falar ela se anima e diz o que não deve dizer, sou um poeta louco...
Abandono até o cinismo eu quero aprender a piedade de mim mesma e encontrar quem tenha amor por me ensinar, não aperte meu pescoço até a última moedinha... entenda que um dia eu fui poeta e via com óculos em cores um mundo cujo único limite era a felicidade (e não era a felicidade de abraçar a própria cruz e ir, ir, ir pra onde o Senhor me estancar).
Nívea...

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