ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

MUDANÇA DE VENTOS




MUDANÇA DOS VENTOS
Nívea Moraes Marques

Quando você abre mão de uma quimera, um pequeno relicário de areia desmorona, a gente chora, se despedindo com a mão presa àquele sonho e não resta mais que um gosto do que não existe e poderia ser maravilhoso, ao menos no campo das ideias, mas a gente teima que seria muito melhor caso se materializasse no atual.
Às vezes penso que amo o amor e descuro das pessoas. Pesquisando mais fundo, penso que isso não é verdade. Tudo que é humano é muito caro para mim, olho timidamente para as pessoas, mas me interesso por seus olhos, seus cabelos, suas mãos, seu jeito de caminhar, uma voz cadente que redime montanhas de egoísmos.
Mas meu amor é tão infrutífero quanto eu sou, penso que sou uma árvore de galhos longos, embora secos, de quando em quando um beija flor cola uma flor nos meus galhos e então floresço de aluguel.
Minha primavera colorida depende das asas, do bico, do voo do colibri e já então sou natureza dependendo da beleza da natureza.
Meu amor se derrama no mel da flor emprestada e coagula minhas lágrimas e meu sangue através das palavras.
Palavra pra mim é todo o meu presente. O que vivo e o que posso ofertar.
Como se a palavra nua, fosse o meu próprio corpo, o meu próprio nome.
Amar e despedir palavras, amar e despedir pessoas. Como se fosse uma lousa branca, e uma caneta sem tinta tingisse em mim palavras, números e desenhos e de repente continuasse branca. Partisse em branco.
Pretendo fazer uma viagem longa, onde eu possa observar as pessoas sem absorvê-las, caminhar solitária entre as gentes e não querer a entrada e a senha de ninguém. Seguir meu passo peregrina como convém: um coração mudo a recitar amarelinhas, para que fique um rastro, um registro, apenas mais palavras para uma nesga de vida e dentro dessa mesma nesga minha vida inteira.

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