ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

ESTADO DE VIDA



Estado de Vida
Nívea Moraes Marques

A vida tem um estado, um país, uma moradia.

Há onze anos mudei de estado, de país, de moradia.

Há onze anos minha casa é sozinha. Antes desses onze anos eu morava numa casa habitada de sonhos e aliança e ainda assim era sozinha.

Estar sozinha percorrendo os espaços não é um problema em si. O problema em si é tentar burlar esse estado para ganhar nova moradia.

Abri mão da minha primeira aliança para conservar os dedos e meu país atual me pede silenciar, recolhimento, eu não devo sequer viver em estado de paixão platônica para não violar a minha pequena prisão, sob pena de viver numa casa erguida sobre uma fé de aparências.

As pessoas me olham desconfiadas, e a desconfiança é minha fiel companheira, devo estar em prova a todo o instante e sou uma ameaça até para mim mesma.

No entanto procuro a honestidade no tom da voz, no fundo do olhar, no que minhas mãos podem tocar ou rejeitar.

Como me manter fiel ao meu estado se posso me apaixonar? Se meu olhar cria um interesse quando te vê e sorri pra dentro com imensa felicidade e alegria e digo pra mim mesma será que vamos encontrar enfim um estado, um país, uma moradia?

No rigor das talhas esse próprio pensamento já tinge a brancura da decisão para habitar esse estado em que estou e para a qual em tudo concorri, em tudo. Portanto não reclamo, apenas sinto e às vezes dói demais, mesmo essa dor ainda a prefiro a ter continuado no meu estado anterior. A verdade agora cola mais em mim e me veste de roupas novas e vaporosas, experimento a felicidade de estar em vida (antes estava morta).

Por isso devo evitar te olhar fora dos espaços protocolares de distância e respeito mútuos (porque além de tudo meu coração se ressente demais dessa distância mesma) E pretendo continuar assim ante a visão de qualquer olhar. (meu coração tá tão esgarçado, até aonde acha que posso suportar?...)

Fato é que talvez exista um retorno. E quem sabe a Igreja me conceda um estado de retorno, mas há a possibilidade do indeferimento, e então?

Apenas um caminho me arrasaria os teoremas (sem me levar a verdade), o daquele que me tirasse pra dançar apesar desse meu estado atual (e sinceramente eu o espero sem esperar), e comigo fosse apátrida, marginal, estrangeiro, samaritano acolhido no cantinho do coração de Deus e juntos clamássemos sempre por misericórdia na esperança partilhada de que Deus se comove profundamente com a casa que o homem constrói para viver (viver, viver!)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

MUDANÇA DE VENTOS




MUDANÇA DOS VENTOS
Nívea Moraes Marques

Quando você abre mão de uma quimera, um pequeno relicário de areia desmorona, a gente chora, se despedindo com a mão presa àquele sonho e não resta mais que um gosto do que não existe e poderia ser maravilhoso, ao menos no campo das ideias, mas a gente teima que seria muito melhor caso se materializasse no atual.
Às vezes penso que amo o amor e descuro das pessoas. Pesquisando mais fundo, penso que isso não é verdade. Tudo que é humano é muito caro para mim, olho timidamente para as pessoas, mas me interesso por seus olhos, seus cabelos, suas mãos, seu jeito de caminhar, uma voz cadente que redime montanhas de egoísmos.
Mas meu amor é tão infrutífero quanto eu sou, penso que sou uma árvore de galhos longos, embora secos, de quando em quando um beija flor cola uma flor nos meus galhos e então floresço de aluguel.
Minha primavera colorida depende das asas, do bico, do voo do colibri e já então sou natureza dependendo da beleza da natureza.
Meu amor se derrama no mel da flor emprestada e coagula minhas lágrimas e meu sangue através das palavras.
Palavra pra mim é todo o meu presente. O que vivo e o que posso ofertar.
Como se a palavra nua, fosse o meu próprio corpo, o meu próprio nome.
Amar e despedir palavras, amar e despedir pessoas. Como se fosse uma lousa branca, e uma caneta sem tinta tingisse em mim palavras, números e desenhos e de repente continuasse branca. Partisse em branco.
Pretendo fazer uma viagem longa, onde eu possa observar as pessoas sem absorvê-las, caminhar solitária entre as gentes e não querer a entrada e a senha de ninguém. Seguir meu passo peregrina como convém: um coração mudo a recitar amarelinhas, para que fique um rastro, um registro, apenas mais palavras para uma nesga de vida e dentro dessa mesma nesga minha vida inteira.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

PRA SONHAR



"Indo sem data pra voltar..."
Eu quero agora a minha vida totalmente despida de lutas e contrastes, pecados a evitar e jóias a roubar ou conquistar.
Eu quero uma vida de brisa, uma vida de poesia, eu quero bordar palavras doces na sua lapela e rezar um terço diferente, um terço pingente de gotas de lágrimas minhas e de Maria e que sejam lágrimas de alívio definitivo e com cheiro de rosas místicas.
Eu quero a minha pele um pouco tocando a tua, eu quero meus lábios um pouco tocando os teus, eu quero a minha mão pousada na palma da tua.
Eu quero hoje partir sem data pra voltar.
Eu quero agora usar um vestido godê decote canoa sob um sol clemente.
Eu quero agora secar sua fronte com o lencinho de Jesus que guardo em minha bíblia.
Eu quero fechar meus olhos e sorrir sem pressa só porque infinitamente estamos assim tão perto
e essa proximidade pra mim é a relva que aceitam meus pés quando de leve toco o paraíso. PRA SONHAR.

...NÍVEA....

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

FELICIDADE DUPLA FACE



Meu coração
Tem chaves e segredos
Públicos
Lastro de minha pele
As palavras de lágrima-
Aquarela
Eu poderia viver em liberdade
Sob os olhos cerrados de Deus
E experimentar uma felicidade doida
De um segundo ou uma segunda
Ou menos,
No entanto extravasada, extraviada
Atarantadamente feliz e fecunda
Eu de medo nem sonho
Porque me impede a
Felicidade perene
País
A bordados de incontável
Delicadeza e rudeza
De verdade
Mas,
Longínquo, um país distante
Para o qual não tenho barco
Só tenho pés
Em carne viva
A cada passo...
- Nívea Moraes Marques -