ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

CORAGEM




Coragem
Nívea Moraes Marques

Habita o meu sorriso uma falta de coragem intrínseca com a vida
Embora a tudo me proponha
Submissa reverbera meu credo e a cruz
Rasga meu coração uma palavra cheia de alegria
Que sublinho
embora não abrace toda a sua extensão
submissa repito
“coragem e alegria”
meu corpo dança um balé comportado e contido
do incontável tempo da espera
eu não sei o que me espera
eu não quero esperar por nada
eu não quero me preparar
eu não quero bordar
eu não quero construir poemas
e tirar poeira de palavras
eu apenas ouço silenciosos passos
amontoados passos
passos que se vão unindo ao nada
ao abismo
ao calado dessa hora
para me provar
que depois da espera
será diferente o nada
será
e eu já não sei pra quê
querer
eu já não quero querer
eu temo querer

De interpretar palavras
construo outra bíblia
e meu Deus ali
habita
e vai rasurando
tudo
caprichosamente
impõe a sua escrita
eu fico tonta
e deixo lápis
deixo expectativas
eu só tenho medo
de tantas certezas
quando Deus mergulha
meus cabelos num rio
que tem sempre uma cor diferente e
que combina com meus olhos
mas que eu não enxergo no espelho.

sábado, 25 de agosto de 2012

O FRUTO II



O fruto II
Nívea Moraes Marques

O fruto não amadurece para si
O fruto, ainda que inacessível
É para vida e saúde
Do outro
Do outro que sabe
O quanto valeu para o fruto
Amadurecer-se

E o quanto custará
Liquefazer-se
No profundo
De outro saber
De outro conhecer
De outro provar

O fruto sabe quanto custa
O sumo do que é

E por isso se dá
Se entrega
Ousadamente
Se faz novamente
Semente
Que dorme
E cresce
No chão.

domingo, 19 de agosto de 2012

GRÃO DE FEIJÃO




Grãos de feijão
Nívea Moraes Marques

Escolho minhas palavras
Como se escolhe pequenos grãos
De feijão
Não para que fiquem limpas
Isentas de pedras
Fagulhas
E folhas
Mas para que fiquem desertas
Como um ramo verde
Que necessita de sol
Aragem
Que necessita de sol tangente
Para que elas possam dizer
Mesmo contemplando o silêncio
Que minhas palavras são grãos
Que não necessitam semeadura
Elas brotam do inconstante
Da mão, que sem calos, se faz camponesa
Minhas palavras são grãos de feijão
Que precisam crescer em qualquer solo
Onde o joio da solidão
Não seque meu trabalho de esperança!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Gracias a la vida



O fruto
Nívea Moraes Marques

O fruto cresce dentro do silêncio
e amadurece quando é chegada a hora
dentro dele o suco vai se urdindo
até escorrer objeto deflorado

e a sensualidade da fruta
é uma busca de pureza
dentro dela e na língua
como se fossem perfeitos
irmãos

o que fabrica a própria vida
e o que colhe
o que sustenta a própria seiva
e o que prova
o que define em si a cor e o aroma
e o que sente o gosto de tudo

O fruto tem um tempo para amadurecer
embora queira-o prematuro
infindavelmente despreparado
para que do fio fim
dele preveja
o que é seu começo
como se de seu começo
só pudesse colher
natureza