ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sábado, 19 de maio de 2012

A PORTA



A porta
Nívea Moraes Marques

Por onde a porta
me abre através da porta?

A que caminhos me leva a porta,
atrás da porta?

O portão da minha casa
é todo trabalhado a bordados
de ferro
E o ferrolho que lhe tranca o mundo,
que é seio da minha família,
também é de ferro
só que desliza

A portinholha dos meus sonos
tem um campo vasto
pra abrir espaços para meus sonhos
Sou cavaleiro e tenho
pés com asas
Sou formiga que repousa
em sal
Sou açúcar que tem gosto
de chuva e nunca engorda
ou causa mal

Nas portas de cada rua
Há a rua e sua serventia
Para caminhar os pés e se encontrarem
Para ser o passeio das gentes e dos animais

Há ainda a porta (estreita) que tranca o sagrado na gente
Transborda de trás pra frente o fruto Divino
de árvore que nunca cresce, que nunca floresce
que é sempre um fruto da casa aberta
Resguardada e varrida
Lençóis para dias de festa

A porta que manejo no dia, não é a porta
de entrada da noite

Minha porta, minhas pálpebras
Enfim o sono
Que devagarinho
guarnece de cortinas vaporosas
em lugar
da porta, portão, portinholha, biombo
e tudo o mais que vou construindo
entre mim e Deus
entre mim e você
entre mim e tudo que é
mais, ou menos do que eu sou

(Apenas e apesar da porta,
preciso entrar!)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

ESPERANÇA



Esperança
Nívea Moraes Marques

Me sinto presa como que arrastada por feitores loucos, numa caravana escrava por terras novas e antigas. A pele ralada a grosserias.
E sou apenas uma criança.
Minha esperança não reside nas bocas que escancaram e gargalham, apenas num sorriso humano que possa sorrir em mim também.
Mais que dividir, a quem entregar toda a sede de alegria e paz.
Não quero que meu Deus seja o único que me veja, quero me jogar às multidões e abraçar o um.
Dizer “eu te amo homem”, como Adélia.
E recriar e viver a esperança de um mundo que eu não sei como é, de um mundo que eu nunca vi, mas que está tão perto, tão perto, que com minhas mãos não posso tocar.

sábado, 12 de maio de 2012

VENTO DE LÁGRIMAS



Vento de lágrimas
Nívea moraes marques

Para a minha estrada errada
Há de haver um retorno
E se tenho que percorrer a pé
E se tenho que percorrer sozinha
E se vento de ventania chorar
Mais
E à prova lascar meu coração
Água de aguar menino
Há de também brotar ali
E tudo que é promessa e são e lindo
Há de fazer vibrar meus seios
A ponto de brotar o leite que amamentará
O filho e o pai do meu filho.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

SPEAK LOW



Danço em silêncio
Calma
Pequena
Atenta
Curtindo os tempos que são meus
Só meus
Porque sua voz aprofunda todos os meus tempos
E ao mesmo tempo me convida a conquistar a vida
Numa multidão de sorrisos que temo caibam todos em mim

Abandonar os campos do meu quarto, os meus bordados, as minhas palavras, os meus vestidos
Todas as antecedências que pretendia e já nada importam mais

Colho algumas observações no seu sorriso, no seu olhar, nas suas poucas confissões
Sobre você
E a tudo acho lindeza de amplitude e carinho
Nada passa despercebido em mim

Eu tento apartar em cada gavetinha seus vários retratos e serventias, mas no meu sangue
Tudo nutre e se mistura
É solidão e acalanto o que eu sinto por você
Numa esperança de criança que toca uma bateria de brinquedo
E pensa que é super star.

..Nívea...

quarta-feira, 2 de maio de 2012

À BEIRA DAS ESTRELAS



"Casamento
Adélia Prado


Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como "este foi difícil"

"prateou no ar dando rabanadas"

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva."



À beira das estrelas
Nívea Moraes Marques


Durante muito tempo quis

e às vezes não sei porque quis

(porque mais que insisto

persisto)

e a essas horas

em que pescas teus peixes

(no sono ainda)

eu vejo meus pés à beira

e tudo é tão lindo

que nem o corporal

pesa

é sangue sangue sangue

apenas

e seu gosto não é amargo

nem doce

é gosto de sangue

naturalmente sangue

que nutre os peixes do meu

sonho

e naturalmente os dois estamos à beira

da noite do dia das estrelas

terça-feira, 1 de maio de 2012

ALÉM DO AMOR



Para além do amor moram nossas mãos juntas numa pastagem de graminha, que a poesia também planta (a poesia serve a quem vence o vencedor).
Para além do amor a conversa delicada de tudo o que somos:
Unos como unos somos: únicos em corpos, alma e espírito. (é preciso calar tudo o que já não tem qualquer importância).
Além do amor há que se forjar um sentimento maduro, colhido como fruta doce, como fruto do trabalho mesmo de amadurecer sãos (santamente).
Meu jardim eu te ofereço, te ofereço os meus olhos limpos, os percalços que fizeram calos nos meus pés, os caminhos que quero pra mim, e porque não os teus próprios sorrisos, te ofereço!
A São José rogo pelos meus trabalhos de mãe, meus trabalhos de mulher que tem zelo e coração. Um coração ora machucado, ora magnífico, em todas as horas apenas um coração, que não se dispõe a amar esse prometido meu, para além do amor quer ser dele, quer ser com ele, nada mais que mais uma silenciosa família que reconhece e recolhe o sagrado nas redes que lança, mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez. ...Nívea...

LIDA DE POETA



Lida de poeta
Nívea Moraes Marques

Amei cada minuto o poeta em mim para te dizer que só você era o poeta em mim, e que eu não era nada, que você era tudo (e assim revelou-se o poeta em mim).
Mas isso foi há anos-luz. Hoje eu sou o poeta que apenas trabalha, humilde, calado e que não ama mais (foi a última vez).
Sou o poeta que compra figurinos de noivas e constrói para si belos vestidos brancos, quer no seu ventre que cresça uma vida, quer lado a lado motivo e revolta, crueza e paz. Enfim se dedicar ao canto da mesa, aos guisados, as pracinhas demanhãzinha e durante a noite a cabeça recostada no colo.
Amei pela última vez!
O quadro do futuro é tão diverso, é apenas uma família e sobretudo é o ponto do infinito é a história de se explicar poeta e sobreviver em constância, amei sim pela última vez, agora quero ser amada e revelar a minha face de poeta caminhante (tão cega, tão lavada), amei pela última vez, agora quero ser apenas ao lado deste que venha (tão belo), a mulher com um rol de predicados e conhecida apenas por este nome gravado sobre o meu nome, não amo mais, deste sou, inteiramente dele sou (como se o amor não nos desse conta) e como se a poesia fosse o pão de trigo que lhe fabrico com minhas próprias mãos (regado de lágrimas), ventre livre, matéria de sentido e sentimento onde gestar os nove iniciais meses dessa vida nova para a nova casa.
Meu trabalho de poeta é despertar o coração (talvez meu próprio coração), porque o tempo é duro e meu Pai me pede pra ser leve como os frutos das árvores.