ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sexta-feira, 20 de abril de 2012

PRESENTE DA ESCRITA



Presente da escrita

Nívea Moraes Marques



Eu me comprometo com as palavras que escrevo e as palavras que escrevo me comprometem.

Para um escritor escrever é vital e talvez esse seja o seu meio de comunicação por excelência.

Contudo, sou uma escritora que não é feliz em escrever por escrever, quero que minhas palavras sejam benditas e sejam, sobretudo, uma ponte a me permitir ser um presente para as pessoas e me tragam pessoas presentes pra mim. (e partindo das minhas palavras, tudo o que somos, sentimos e valorizamos também possa nos trespassar como num gostoso abraço e num gostoso abraço).

Sei que há um caminho a percorrer e que é preciso prática para que isso aconteça. Não tenho muita habilidade para me aproximar das pessoas, um pouco de timidez, um pouco de sem jeito, um pouco de aspereza talvez, muito de ensimesmada. Mas devo me aproximar, quero me aproximar.

Vou contar a vocês um epsódio que me aconteceu numa feira literária em Barra Mansa.

Fui gentilmente convidada a ler uns textos para crianças do primeiro ao quarto ano, mas não sabia ao certo a idade dos meus ouvintes, poderia ser um público misto ou de apenas uma série escolar.

Escolhi com carinho uns poemas e um texto em prosa poética e parti pra minha missão.

Lá chegando me deparei com crianças do primeiro ano e alguns professores, me apresentei e comecei as leituras. Comecei lendo o texto que falava sobre um maratonista etíope que perdera um de seus olhos quando era adolescente e depois li uns dois poemas. O fato que chama atenção é que meus ouvintes ouviam atentos, nenhum barulho faziam, nenhum mesmo e ao final das leituras eles não esboçavam qualquer reação, apesar das pequenas dicas e explicações que fazia sobre os textos antes da leitura propriamente dita, para os ambientar. Enfim na terceira tentativa apelei para a leitura do “Barriga do Bicho Papão”, perguntei quem tinha medo do Bicho Papão (alguns assumiram abertamente esse medo) e o poema é um raio x jocoso do que tem dentro do Bicho Papão. Dois menininhos bateram palmas freneticamente quando terminei o meu Bicho, note-se nem os professores, nem qualquer outro aluno demonstrou alguma reação às minhas palavras. Foi um grande constrangimento para mim.

Na verdade estou mais acostumada a públicos adultos e sempre é uma alegria, com as crianças foi diferente, meu coração somente não desmilinguiu totalmente porque fui salva pelos dois garotinhos (minha humanidade sorriu imensamente e sozinha um bom tempo por esse afago dos meninos). Desde então me agarro a essa esperança, não desisti de escrever (acho que nunca vou desistir de escrever). Tenho que ir, ir, ir cada vez mais ao encontro.

As coisas de Deus pedem perfeição por isso demoram mais. Eu preciso caminhar para águas mais profundas e peço ao meu Senhor companhia constante e que ele me capacite, pois preciso ser um presente bem enfeitado, cheio de laços, papel colorido que se dê e que se receba com um abraço, um gostoso abraço.

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