ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

"NEQUEAVE"



Não se esqueça de que amo você
Nívea Moraes Marques

Ouvi uma história de delicadeza que um casal reduzia o “não se esqueça de que amo você” a “nequeave”, que ao viajar sozinho um deixava debaixo do travesseiro do outro um bilhetinho “nequeave”, ou quando o marido abria sua gaveta de meias encontrava um papelzinho “nequeave”, ou no dia do aniversário dela no meio das flores presenteadas lá estava “nequeave”.
Para mim o amor é mesmo o país das delicadezas.
Não quero nunca me arrepender de não ter demonstrado meu carinho, minha afeição o meu amor aos meus companheiros de jornada terrestre, ao meu Pai que está no céu, a todos os meus irmãos que são da companhia das estrelas e moram no céu.
Cada bocado de sentimento por cada pessoa querida me ensina a amar aquelas que são mais ásperas, que se colocam em correntezas fortes e contrárias.
Não se esqueça de que amo você eu digo isso para cada um e para todos e minha voz vai mudando de tom, vai aguando e desaguando, ganhando colorido para ser única em cada uma dessas vezes dita, e repetida, eu quero ao menos agora dizer:
Não se esqueça de que amo você, de que rezo por você, de que dos meus olhos caem lágrimas de saudades por você, de que meu peito se enche de esperança por você. E que, sobretudo “nequeave” dissolva todo o qualquer olhar, qualquer palavra, qualquer gesto que eu possa ter te entregue e tenha sido contrário a essa frase tão feliz: NÃO SE ESQUEÇA DE QUE AMO VOCÊ.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

CORAÇÃO DE ESTUDANTE




Hoje fiquei muito feliz ao saber que os meninos da Escola Estadual Humberto Sanches em São Lourenço MG escolheram um texto meu para abrir sua página de estudos sobre Frei Santa Rita Durão, quem quiser conferir o endereço deles é:
http://santaritadurao123.blogspot.com.br/

Obrigada meus queridos estudantes e amigos!

Abraços carinhosos, Nívea.

Canto do Povo de Um Lugar



O que a humanidade significa para mim?
O que é a terra diante da grandeza do céu num horizonte e espaço infinitos?
Não posso e não quero contar e medir o tamanho que temos o tamanho que somos ou o tamanho da casa que nos abriga, talvez possa ser mesmo insignificante...
Sei que ocupamos, as gentes humanas, lugar inteiro no coração de Deus que nos quis, que com nossos pais nos gerou, que entregou-Se sobretudo pai, filho e espírito santo, tudo feito tudo por nós.
Não quero fincar bandeiras além do que posso e sou, mas sei que sou muito cara para o meu Senhor e pra outros humanos e animais, plantas e arquiteturas que comigo convivem ou que nunca me viram, mas por acaso leram minhas palavras, fruto do esforço da beleza e do trabalho lírico em mim, ou se comoveram com um simples sorriso meu ou num gesto para ninguém revelado, só para aquele, aberto como uma pequena, singela e colorida flor. Um gesto que me redime e me faz bela, que confunde o amor no próprio amor.
O homem é mais belo que a estrela da manhã e ainda assim eu quero a estrela da manhã.
O que significa a humanidade para mim? Uma estreiteza de estrutura sim, mas tão infinita em tudo quanto há, porque ama e pensa e é um, com Deus.

O NATAL NÃO PODE SER O MESMO



O Natal não pode ser o mesmo
Nívea Moraes Marques

O natal não pode ser o mesmo todo ano.
Todo ano a liturgia prepara o nascimento a morte e a ressurreição de Jesus, e se pensarmos tudo isso como um rito das horas passando, estaremos vivendo e cumprindo apenas um rito.
Mas Jesus está para nascer e essa verdade bela é casada com outra palavra cheia, que é a esperança. Os que creem esperam e não esperam esperando, esperam com esperança.
Esperança é uma palavra feminina que é mãe da palavra sonho.
Primeiro a gente tem de sonhar e então os passos seguintes caminham para a realização.
Esperar, esperança, sonhar, realização.
O que de bom se tornando concreto e a palavra do nosso Deus ficando justa a nossa pele e vamos nos humanizando mais um pouco, mais um pouco até enxergarmos com os olhos do céu.
Ver em cada morada do espírito santo, que somos nós, um pouco do que Deus quer realizar ainda aqui e porque não dizer, aqui e aqui, o Reino de Deus se cumprindo entre nós onde quer que estejamos. O cântico de eternidade nos espera para além do que possamos até compreender.
Este chão pede o que é belo, o que é puro, o que é sangue e o que é amor (dentro de tudo o que podemos sentir seja o amor e venha desse mesmo Deus – um dia apenas prestaremos conta do amor que nós temos e tivemos).
Amor para ferir o que é mal, o que é dolo, o que é sujo e feio, para ferir tudo o que é morte e agredir com carinho e paz isso que nos faz distantes da espera do menino que nasceu homem e morreu Deus e ressuscitou nos reconciliando homens imagem e semelhança de Deus.
Eu espero que a esperança em mim gere para Deus filhos do amor.

Esperança III



Esperança
Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Esperança II



“Não deseje eu ansiosamente
ser salvo,
mas ter esperança
para conquistar pacientemente
a minha liberdade.”

Tagore

Esperança I



“Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida”

Agostinho Neto

sábado, 8 de dezembro de 2012

VERÃO




O verão
Nívea Moraes Marques

No verão as pessoas estão mais postas ao sol. As noites são mais claras e curtas. As pessoas se despem e se cobrem apenas na medida de seus íntimos segredos. No verão as peles são douradas e as pessoas conversam mais, riem mais, parecem estar mais vivas. No verão quando tudo esquenta a não mais suportar a chuva lava e refresca todas as preocupações e pensamentos. O verão é o Brasil por excelência com peixes e limões, com sucos de maracujá e abacaxi com hortelã. No verão as pessoas estão mais vivas, mais terrosas, expostas ao mar. No verão o meu sangue ferve a qualquer temperatura e acalma a beijo que sussurra.

sábado, 6 de outubro de 2012

EDIÇÃO COMEMORATIVA DE 05 ANOS DO BLOG



Dia 08 de Outubro de 2012 completo 37 anos e o meu blog completa 05 anos, comecei a postar meus poemas em 2007.

Meus amigos Letícia, Leandro e Jordana e a minha irmã Camila insistiram pra que eu abrisse o blog e eu resisti um pouco, dada a ignorância com as questões de informática, e com uma ajuda e um empurrão da minha querida irmã comecei o blog no dia do meu aniversário em 2007, estava na casa da Camila em Niterói, e iniciar o blog nesse dia foi bom porque assim nunca esqueço o aniversário do blog.

Antes de iniciar o “Retratada”, meu trabalho, minha vida com as palavras, escrevendo mesmo já tinha nascido, no ano de 2000 todas as palavras vieram me habitar e elas queriam sair pular correr voar mundo afora e foi pelo amor que senti por meu querido Thiago de Mello, que abriu meu coração fechadinho com o seu braço de poeta encostado no meu, então soltei as minhas palavras ao vento! (Feito menina correndo na chuva) Tenho certeza que soltei-as ao vento do Espírito Santo, apesar de todas as circunstâncias que emolduraram aquela época.

Em 2002, pela graça de Nossa Senhora e dos esforços de meu pai Marcos, publicamos o “Retratada” meu primeiro (e único livro publicado). Esse livro, metade poemas – metade prosa poética, me rendeu estrada, encontros, saraus, e uma força de realização, eu posso escrever, publicar, ir ao encontro das pessoas, enfim fazer com que o livro exista como um objeto, como uma coisa, como um papagaio de papel, como um pássaro de muitas asas.

Agora, escrever para o blog tem sido uma alegria da disciplina, postar pelo menos um texto por mês, mas tem sido mais, tem sido um diário, um púlpito para o que preciso dizer e acho que só tem esse jeito de poder me ouvir...

A poesia veio a mim enquanto agente (porque enquanto paciente desde que nasci ela é parte de mim, desde que aprendi a ler ela é parte de mim) de uma forma muito bonita e eu tenho que honrar esse começo, cotidianamente. Mas deixando de lado esse fato, poesia pra mim é pão, do qual eu preciso me alimentar, mas também alimento que eu preciso fabricar, e não é uma questão autônoma, tudo me habita para eu construir, foi Deus que me deu esse talento e eu não posso enterrá-lo eu tenho que prestar contas dos dons multiplicados ao meu Senhor.

Às vezes eu fico triste por não sair desse pouco que tenho vivido ultimamente com a poesia, eu prometo mais a ela, eu prometo tudo a ela. Todos os meus esforços (inclusive com a minha realidade de pedra) para que ela floresça e mais que isso, se cumpra a nossa missão, dela para comigo, de mim para com ela e nossa para com as pessoas e também nossa para com o nosso Pai do céu.

Eu tenho certeza de que não é em vão que Deus me deu esse imenso presente, que me deixa tão feliz, tão feliz. Mais que uma vocação eu tenho uma missão com as palavras e eu vou honrar o meu destino. Que não tem nada que ver com o glamour das passarelas literárias. (embora disso não se possa dizer não provarei, é o imponderável...) Acontece que não é a isso a que me proponho hoje, eu quero o trabalho beneditino, eu quero o trabalho bendito de chegar perto de alguém e colher e entregar uma flor (urdida de som letras suor e amor).

FELIZ ANIVERSÁRIO !!!

Nívea Moraes Marques

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

ESTADO DE VIDA



Estado de Vida
Nívea Moraes Marques

A vida tem um estado, um país, uma moradia.

Há onze anos mudei de estado, de país, de moradia.

Há onze anos minha casa é sozinha. Antes desses onze anos eu morava numa casa habitada de sonhos e aliança e ainda assim era sozinha.

Estar sozinha percorrendo os espaços não é um problema em si. O problema em si é tentar burlar esse estado para ganhar nova moradia.

Abri mão da minha primeira aliança para conservar os dedos e meu país atual me pede silenciar, recolhimento, eu não devo sequer viver em estado de paixão platônica para não violar a minha pequena prisão, sob pena de viver numa casa erguida sobre uma fé de aparências.

As pessoas me olham desconfiadas, e a desconfiança é minha fiel companheira, devo estar em prova a todo o instante e sou uma ameaça até para mim mesma.

No entanto procuro a honestidade no tom da voz, no fundo do olhar, no que minhas mãos podem tocar ou rejeitar.

Como me manter fiel ao meu estado se posso me apaixonar? Se meu olhar cria um interesse quando te vê e sorri pra dentro com imensa felicidade e alegria e digo pra mim mesma será que vamos encontrar enfim um estado, um país, uma moradia?

No rigor das talhas esse próprio pensamento já tinge a brancura da decisão para habitar esse estado em que estou e para a qual em tudo concorri, em tudo. Portanto não reclamo, apenas sinto e às vezes dói demais, mesmo essa dor ainda a prefiro a ter continuado no meu estado anterior. A verdade agora cola mais em mim e me veste de roupas novas e vaporosas, experimento a felicidade de estar em vida (antes estava morta).

Por isso devo evitar te olhar fora dos espaços protocolares de distância e respeito mútuos (porque além de tudo meu coração se ressente demais dessa distância mesma) E pretendo continuar assim ante a visão de qualquer olhar. (meu coração tá tão esgarçado, até aonde acha que posso suportar?...)

Fato é que talvez exista um retorno. E quem sabe a Igreja me conceda um estado de retorno, mas há a possibilidade do indeferimento, e então?

Apenas um caminho me arrasaria os teoremas (sem me levar a verdade), o daquele que me tirasse pra dançar apesar desse meu estado atual (e sinceramente eu o espero sem esperar), e comigo fosse apátrida, marginal, estrangeiro, samaritano acolhido no cantinho do coração de Deus e juntos clamássemos sempre por misericórdia na esperança partilhada de que Deus se comove profundamente com a casa que o homem constrói para viver (viver, viver!)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

MUDANÇA DE VENTOS




MUDANÇA DOS VENTOS
Nívea Moraes Marques

Quando você abre mão de uma quimera, um pequeno relicário de areia desmorona, a gente chora, se despedindo com a mão presa àquele sonho e não resta mais que um gosto do que não existe e poderia ser maravilhoso, ao menos no campo das ideias, mas a gente teima que seria muito melhor caso se materializasse no atual.
Às vezes penso que amo o amor e descuro das pessoas. Pesquisando mais fundo, penso que isso não é verdade. Tudo que é humano é muito caro para mim, olho timidamente para as pessoas, mas me interesso por seus olhos, seus cabelos, suas mãos, seu jeito de caminhar, uma voz cadente que redime montanhas de egoísmos.
Mas meu amor é tão infrutífero quanto eu sou, penso que sou uma árvore de galhos longos, embora secos, de quando em quando um beija flor cola uma flor nos meus galhos e então floresço de aluguel.
Minha primavera colorida depende das asas, do bico, do voo do colibri e já então sou natureza dependendo da beleza da natureza.
Meu amor se derrama no mel da flor emprestada e coagula minhas lágrimas e meu sangue através das palavras.
Palavra pra mim é todo o meu presente. O que vivo e o que posso ofertar.
Como se a palavra nua, fosse o meu próprio corpo, o meu próprio nome.
Amar e despedir palavras, amar e despedir pessoas. Como se fosse uma lousa branca, e uma caneta sem tinta tingisse em mim palavras, números e desenhos e de repente continuasse branca. Partisse em branco.
Pretendo fazer uma viagem longa, onde eu possa observar as pessoas sem absorvê-las, caminhar solitária entre as gentes e não querer a entrada e a senha de ninguém. Seguir meu passo peregrina como convém: um coração mudo a recitar amarelinhas, para que fique um rastro, um registro, apenas mais palavras para uma nesga de vida e dentro dessa mesma nesga minha vida inteira.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

PRA SONHAR



"Indo sem data pra voltar..."
Eu quero agora a minha vida totalmente despida de lutas e contrastes, pecados a evitar e jóias a roubar ou conquistar.
Eu quero uma vida de brisa, uma vida de poesia, eu quero bordar palavras doces na sua lapela e rezar um terço diferente, um terço pingente de gotas de lágrimas minhas e de Maria e que sejam lágrimas de alívio definitivo e com cheiro de rosas místicas.
Eu quero a minha pele um pouco tocando a tua, eu quero meus lábios um pouco tocando os teus, eu quero a minha mão pousada na palma da tua.
Eu quero hoje partir sem data pra voltar.
Eu quero agora usar um vestido godê decote canoa sob um sol clemente.
Eu quero agora secar sua fronte com o lencinho de Jesus que guardo em minha bíblia.
Eu quero fechar meus olhos e sorrir sem pressa só porque infinitamente estamos assim tão perto
e essa proximidade pra mim é a relva que aceitam meus pés quando de leve toco o paraíso. PRA SONHAR.

...NÍVEA....

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

FELICIDADE DUPLA FACE



Meu coração
Tem chaves e segredos
Públicos
Lastro de minha pele
As palavras de lágrima-
Aquarela
Eu poderia viver em liberdade
Sob os olhos cerrados de Deus
E experimentar uma felicidade doida
De um segundo ou uma segunda
Ou menos,
No entanto extravasada, extraviada
Atarantadamente feliz e fecunda
Eu de medo nem sonho
Porque me impede a
Felicidade perene
País
A bordados de incontável
Delicadeza e rudeza
De verdade
Mas,
Longínquo, um país distante
Para o qual não tenho barco
Só tenho pés
Em carne viva
A cada passo...
- Nívea Moraes Marques -

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

CORAGEM




Coragem
Nívea Moraes Marques

Habita o meu sorriso uma falta de coragem intrínseca com a vida
Embora a tudo me proponha
Submissa reverbera meu credo e a cruz
Rasga meu coração uma palavra cheia de alegria
Que sublinho
embora não abrace toda a sua extensão
submissa repito
“coragem e alegria”
meu corpo dança um balé comportado e contido
do incontável tempo da espera
eu não sei o que me espera
eu não quero esperar por nada
eu não quero me preparar
eu não quero bordar
eu não quero construir poemas
e tirar poeira de palavras
eu apenas ouço silenciosos passos
amontoados passos
passos que se vão unindo ao nada
ao abismo
ao calado dessa hora
para me provar
que depois da espera
será diferente o nada
será
e eu já não sei pra quê
querer
eu já não quero querer
eu temo querer

De interpretar palavras
construo outra bíblia
e meu Deus ali
habita
e vai rasurando
tudo
caprichosamente
impõe a sua escrita
eu fico tonta
e deixo lápis
deixo expectativas
eu só tenho medo
de tantas certezas
quando Deus mergulha
meus cabelos num rio
que tem sempre uma cor diferente e
que combina com meus olhos
mas que eu não enxergo no espelho.

sábado, 25 de agosto de 2012

O FRUTO II



O fruto II
Nívea Moraes Marques

O fruto não amadurece para si
O fruto, ainda que inacessível
É para vida e saúde
Do outro
Do outro que sabe
O quanto valeu para o fruto
Amadurecer-se

E o quanto custará
Liquefazer-se
No profundo
De outro saber
De outro conhecer
De outro provar

O fruto sabe quanto custa
O sumo do que é

E por isso se dá
Se entrega
Ousadamente
Se faz novamente
Semente
Que dorme
E cresce
No chão.

domingo, 19 de agosto de 2012

GRÃO DE FEIJÃO




Grãos de feijão
Nívea Moraes Marques

Escolho minhas palavras
Como se escolhe pequenos grãos
De feijão
Não para que fiquem limpas
Isentas de pedras
Fagulhas
E folhas
Mas para que fiquem desertas
Como um ramo verde
Que necessita de sol
Aragem
Que necessita de sol tangente
Para que elas possam dizer
Mesmo contemplando o silêncio
Que minhas palavras são grãos
Que não necessitam semeadura
Elas brotam do inconstante
Da mão, que sem calos, se faz camponesa
Minhas palavras são grãos de feijão
Que precisam crescer em qualquer solo
Onde o joio da solidão
Não seque meu trabalho de esperança!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Gracias a la vida



O fruto
Nívea Moraes Marques

O fruto cresce dentro do silêncio
e amadurece quando é chegada a hora
dentro dele o suco vai se urdindo
até escorrer objeto deflorado

e a sensualidade da fruta
é uma busca de pureza
dentro dela e na língua
como se fossem perfeitos
irmãos

o que fabrica a própria vida
e o que colhe
o que sustenta a própria seiva
e o que prova
o que define em si a cor e o aroma
e o que sente o gosto de tudo

O fruto tem um tempo para amadurecer
embora queira-o prematuro
infindavelmente despreparado
para que do fio fim
dele preveja
o que é seu começo
como se de seu começo
só pudesse colher
natureza

terça-feira, 31 de julho de 2012

POESIA SÓ SERVE




Para continuar vivendo preciso solucionar a questão
Que em xeque me causa uma ruptura que me impede
De prosseguir
Parece simples deixar a tarefa da poesia para a eternidade
Quando a poesia me parece toda e inteira feita da matéria de
Aqui
Tudo é tão realidade que um pedaço de paz
Um pedaço de pão um ponto de luminosidade
Híbrida com gotas de água
Faz um país melhor
(ao menos dentro de mim)
Quero dividir esse gosto contigo
Inundar a minha vida nos teus desígnios
De delicada poesia
E te revelar o tudo tão teu conhecido
Sob o prisma do que é belo de tão simples
É singelo sentimento, sentido de pertença
Bússola de papel (em dia de chuva)
Mas que é a flor divina pregada à tua lapela
Que tão feliz engomo, passo, lavo
Visto em você
Parece tão fácil, mas é mimo é luxo é sofisticado
Te amar para além das aparências e tentar descrever em tantos versos
Aquilo que tanto Deus tem preparado porque pai das misericórdias
Ele me fez poeta
Eternamente desempregado
Para cuidar de viver como tem de ser
E lutar para estar de pé
E cozinhar com tanto suor e alegria
Também as minhas palavras
Que pra Deus não tem valor algum
São só consolo e dor
Tarefa de transfiguração
Pela qual devo pagar o preço até o fim
Dos meus outros talentos mais usáveis
Mais prestáveis ao que é contável e praticável
Poesia só serve pra amar
O verbo, o irmão, você e Deus.

...Nívea...

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O QUE É O MEU SAGRADO CORAÇÃO

O que é o meu sagrado coração?
Nívea Moraes Marques

Também o meu Senhor pediu ao Pai o afastar daquele amargo cálice, contudo, antes e sempre que se faça a vontade de Deus Pai.

Às vezes não me permito ver substância no sofrimento, às vezes eu quero dirigir a minha vida e seguir meus próprios caminhos, mas Jesus me faz um cafuné nas orelhas e olhando em mim, diz é Minha a tua vida.

Dou graças quando permito que Ele crie seus próprios reinos na “minha” vida.

São tantas coisas que desejo viver ainda, que quero provar com meus olhos, quero vê-las tracejadas no meu coração, ainda que todas legítimas, sempre me aproveitará Teu lastro a me guinar para o que é Teu querer.

E cada palavra que construo seja uma vênia de Tuas mãos, que o teu coração no meu, construa o que é sagrado em mim.

Ainda que sagrados sejam meu ventre, meus olhos, minhas mãos que te pedem as serventias próprias de uma mulher, Senhora Mulher, esposa santa, mãe de filhos, fiandeira, bordadeira, quituteira, advogada nossa, tantas coisas e linda, de pé nos saltos coloridos, acordada desde cedo, ciosa de seus deveres e benefícios, poeta de vidas correntes, escritora de desígnios sãos e santos, intercessora de céus e sóis azuis, descansada nas cadeiras espreguiçadeiras (com toda minha família ao colo), poço de carinho e gratidão até a vida derramada e que seja uma vida rica uma vida que infinitamente valorosa e valiosa não tenha medo em se derramar inteira sangue para e pelo Senhor, se o cálice precisar ser derramado e derramando for apenas o meu sagrado coração.(pleno ou vazio de tudo que Te oro e sou)

sábado, 7 de julho de 2012

POR SOB A PELE



A essas horas te espero como te esperei desde a primeira vez

Embora ficasse um pouco tola a cada espera

Fico tola então

E ainda que não saiba quem espero

Espero justamente por você

Para jantares tranquilos de mesas postas

e conversas terminadas em longos beijos

ou em breves beijos seguidos de longos abraços

ou breves abraços pontuados por gostosos sorrisos

ou um único sorriso que seja capaz de causar no coração

a impressão de que todo esse tempo de espera não foi nada

tendo em vista a inaugural caminhada para o nada (acompanhados)

ou para simples vida que se planta una e se rega pelas lágrimas

dos tantos terços que tenho pingado adivinhando os terços que também rezas

ao meu encontro.

...Nívea...

domingo, 24 de junho de 2012

DA MIXÓRDIA FEZ-SE O ENCANTO!



o amor é assim como um brinquedo de uma criança
guardado numa caixa cheia de trecos
um dia a gente redescobre o brinquedo
no meio da mixórdia
e é um encantamento
de primeira vez!

...Nívea...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

HUMANO PRIVILÉGIO



"(...) o sal do sentimento
bem se sabe
é humano privilégio."
Marina Colasanti

O meu corpo de mulher
tem no lugar dos seios
duas conchas à beira
mar

sempre as marés ditam
suas cheias e vazões
mas costurado ao coração
como um peixe
está seu nome
marujo, rocha, folha
tradução de sal que talha
cada curva e reta e bruma
que finge me trazer
e me levar

...Nívea...

terça-feira, 12 de junho de 2012

VOTOS PARA UM NAMORADO



Ser apenas sua para de vez em quando retornar a mim e me preparar banhos para espetar a pele com águas que correm sem voltar mais.
Ser apenas sua nas tardes que coram, nos vermelhos crepon, na lua que chega sozinha com grinalda de estrelas a pentear sua vasta cabeleira azul.
Ser apenas sua para o passeio das mãos dadas, para os pés que sabem pisar o solo aonde vão.
Ser apenas sua para te ver sorrir e rir por dentro para não dividir alegria, reverberá-la no peito feito fosse hidrelétrica, numa dependência criança de tudo que é sorriso seu.
Ser apenas sua ajuntando as coisas que te nublam para plantá-las em algum lugar que te permita estar sempre mais leve.
Ser apenas sua porque de todas as minhas vocações talvez seja essa a mais dedicada, delicada e a que eu tenho levado mais tempo pra aprender e a que eu temo cometer erros bobos, erros tolos que possam enfim te magoar.
Ser apenas sua para te proteger e curar, para rezar por todos os teus cuidados e ser um abraço de aconchego sem fim.
Apesar de toda a distância percorrida e a percorrer, ser apenas sua para saber que todo esse delicado bordado tem peso de existência. Feliz. (e que você também é apenas meu)

...Nívea...

domingo, 10 de junho de 2012

CORRA E OLHE O QUE CÉU VEM TRAZER: BOM DIA!



Trago um "bom dia" dentro do peito do meu sorriso
só pra te dar
ele abre o sol da manhã
e tem perfume de esperança nas horas

Trago meu gesto de bom dia dentro do sol
do meu sorriso
para te aquecer de esperança
dentro das horas de todos os dias

Meu sorriso contrariado às vezes se despe
furioso
mas ainda assim é um sorriso
que apenas sorri
inofensivamente
pra te ver e passar

Embora haja momentos pra fechar o riso e seguir adiante
meu sorriso é antes uma benção e uma canção
pra te aconhegar dentro do tempo
e te partir partindo feito um ovo
e a gema o coração (que é o próprio sol com que gentilmente te sorrio:
bom dia!)

...Nívea...

terça-feira, 5 de junho de 2012

SÓ EM TEUS BRAÇOS



Costuro no verso da minha roupa, no avesso do que visto e sinto
o teu coração
para mimar o meu
coração
te fazer feliz

...Nívea...

sábado, 19 de maio de 2012

A PORTA



A porta
Nívea Moraes Marques

Por onde a porta
me abre através da porta?

A que caminhos me leva a porta,
atrás da porta?

O portão da minha casa
é todo trabalhado a bordados
de ferro
E o ferrolho que lhe tranca o mundo,
que é seio da minha família,
também é de ferro
só que desliza

A portinholha dos meus sonos
tem um campo vasto
pra abrir espaços para meus sonhos
Sou cavaleiro e tenho
pés com asas
Sou formiga que repousa
em sal
Sou açúcar que tem gosto
de chuva e nunca engorda
ou causa mal

Nas portas de cada rua
Há a rua e sua serventia
Para caminhar os pés e se encontrarem
Para ser o passeio das gentes e dos animais

Há ainda a porta (estreita) que tranca o sagrado na gente
Transborda de trás pra frente o fruto Divino
de árvore que nunca cresce, que nunca floresce
que é sempre um fruto da casa aberta
Resguardada e varrida
Lençóis para dias de festa

A porta que manejo no dia, não é a porta
de entrada da noite

Minha porta, minhas pálpebras
Enfim o sono
Que devagarinho
guarnece de cortinas vaporosas
em lugar
da porta, portão, portinholha, biombo
e tudo o mais que vou construindo
entre mim e Deus
entre mim e você
entre mim e tudo que é
mais, ou menos do que eu sou

(Apenas e apesar da porta,
preciso entrar!)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

ESPERANÇA



Esperança
Nívea Moraes Marques

Me sinto presa como que arrastada por feitores loucos, numa caravana escrava por terras novas e antigas. A pele ralada a grosserias.
E sou apenas uma criança.
Minha esperança não reside nas bocas que escancaram e gargalham, apenas num sorriso humano que possa sorrir em mim também.
Mais que dividir, a quem entregar toda a sede de alegria e paz.
Não quero que meu Deus seja o único que me veja, quero me jogar às multidões e abraçar o um.
Dizer “eu te amo homem”, como Adélia.
E recriar e viver a esperança de um mundo que eu não sei como é, de um mundo que eu nunca vi, mas que está tão perto, tão perto, que com minhas mãos não posso tocar.

sábado, 12 de maio de 2012

VENTO DE LÁGRIMAS



Vento de lágrimas
Nívea moraes marques

Para a minha estrada errada
Há de haver um retorno
E se tenho que percorrer a pé
E se tenho que percorrer sozinha
E se vento de ventania chorar
Mais
E à prova lascar meu coração
Água de aguar menino
Há de também brotar ali
E tudo que é promessa e são e lindo
Há de fazer vibrar meus seios
A ponto de brotar o leite que amamentará
O filho e o pai do meu filho.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

SPEAK LOW



Danço em silêncio
Calma
Pequena
Atenta
Curtindo os tempos que são meus
Só meus
Porque sua voz aprofunda todos os meus tempos
E ao mesmo tempo me convida a conquistar a vida
Numa multidão de sorrisos que temo caibam todos em mim

Abandonar os campos do meu quarto, os meus bordados, as minhas palavras, os meus vestidos
Todas as antecedências que pretendia e já nada importam mais

Colho algumas observações no seu sorriso, no seu olhar, nas suas poucas confissões
Sobre você
E a tudo acho lindeza de amplitude e carinho
Nada passa despercebido em mim

Eu tento apartar em cada gavetinha seus vários retratos e serventias, mas no meu sangue
Tudo nutre e se mistura
É solidão e acalanto o que eu sinto por você
Numa esperança de criança que toca uma bateria de brinquedo
E pensa que é super star.

..Nívea...

quarta-feira, 2 de maio de 2012

À BEIRA DAS ESTRELAS



"Casamento
Adélia Prado


Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como "este foi difícil"

"prateou no ar dando rabanadas"

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva."



À beira das estrelas
Nívea Moraes Marques


Durante muito tempo quis

e às vezes não sei porque quis

(porque mais que insisto

persisto)

e a essas horas

em que pescas teus peixes

(no sono ainda)

eu vejo meus pés à beira

e tudo é tão lindo

que nem o corporal

pesa

é sangue sangue sangue

apenas

e seu gosto não é amargo

nem doce

é gosto de sangue

naturalmente sangue

que nutre os peixes do meu

sonho

e naturalmente os dois estamos à beira

da noite do dia das estrelas

terça-feira, 1 de maio de 2012

ALÉM DO AMOR



Para além do amor moram nossas mãos juntas numa pastagem de graminha, que a poesia também planta (a poesia serve a quem vence o vencedor).
Para além do amor a conversa delicada de tudo o que somos:
Unos como unos somos: únicos em corpos, alma e espírito. (é preciso calar tudo o que já não tem qualquer importância).
Além do amor há que se forjar um sentimento maduro, colhido como fruta doce, como fruto do trabalho mesmo de amadurecer sãos (santamente).
Meu jardim eu te ofereço, te ofereço os meus olhos limpos, os percalços que fizeram calos nos meus pés, os caminhos que quero pra mim, e porque não os teus próprios sorrisos, te ofereço!
A São José rogo pelos meus trabalhos de mãe, meus trabalhos de mulher que tem zelo e coração. Um coração ora machucado, ora magnífico, em todas as horas apenas um coração, que não se dispõe a amar esse prometido meu, para além do amor quer ser dele, quer ser com ele, nada mais que mais uma silenciosa família que reconhece e recolhe o sagrado nas redes que lança, mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez. ...Nívea...

LIDA DE POETA



Lida de poeta
Nívea Moraes Marques

Amei cada minuto o poeta em mim para te dizer que só você era o poeta em mim, e que eu não era nada, que você era tudo (e assim revelou-se o poeta em mim).
Mas isso foi há anos-luz. Hoje eu sou o poeta que apenas trabalha, humilde, calado e que não ama mais (foi a última vez).
Sou o poeta que compra figurinos de noivas e constrói para si belos vestidos brancos, quer no seu ventre que cresça uma vida, quer lado a lado motivo e revolta, crueza e paz. Enfim se dedicar ao canto da mesa, aos guisados, as pracinhas demanhãzinha e durante a noite a cabeça recostada no colo.
Amei pela última vez!
O quadro do futuro é tão diverso, é apenas uma família e sobretudo é o ponto do infinito é a história de se explicar poeta e sobreviver em constância, amei sim pela última vez, agora quero ser amada e revelar a minha face de poeta caminhante (tão cega, tão lavada), amei pela última vez, agora quero ser apenas ao lado deste que venha (tão belo), a mulher com um rol de predicados e conhecida apenas por este nome gravado sobre o meu nome, não amo mais, deste sou, inteiramente dele sou (como se o amor não nos desse conta) e como se a poesia fosse o pão de trigo que lhe fabrico com minhas próprias mãos (regado de lágrimas), ventre livre, matéria de sentido e sentimento onde gestar os nove iniciais meses dessa vida nova para a nova casa.
Meu trabalho de poeta é despertar o coração (talvez meu próprio coração), porque o tempo é duro e meu Pai me pede pra ser leve como os frutos das árvores.

terça-feira, 24 de abril de 2012

MIRA IRA - BUSCANDO UMA SOLUÇÃO EM DEUS



Buscando uma solução em Deus


"Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem"
Romanos 12, 21

Há um quebra-cabeça diante de mim. O bem pode trazer o mal como num círculo vicioso. A atenção, o carinho, o olhar disposto, tudo transfigurado pelo outro em sentimentos tolos, perniciosos.

Mas sou chamada a fazer o bem. E qualquer coisa fora da atenção, do carinho, do olhar disposto pode ser traduzido em frieza e falta de perdão. O que antes seria apenas uma forma de defesa.

Contudo, há ainda o que piso no campo dos sentimentos, um coração magoado que luta para se fortalecer, diluir a dor, desintender o entendimento que destrói tanto tempo de dedicação e confiança.

Na realidade da vida que se pratica só há uma saída: pisar o chão e seguir em frente, às vezes à revelia dos próprios sentimentos, que não nos podem dominar, absolutamente não sabemos parar de sentir, embora seguir (confrontando-se incessantemente com o bem) seja infinitamente mais importante.

...Nívea...

domingo, 22 de abril de 2012

VOCAÇÃO



"O TRIGO ESTÁ SE PERDENDO ENQUANTO VOCÊ ENTERRA SEU TALENTO."
Eugênio Jorge

sábado, 21 de abril de 2012

INSTRUMENTO



Instrumento
Nívea Moraes Marques

O instrumento em repouso é mudo. Mas ouve o barulho das mãos que o manuseiam, ouve o barulho do pés que o sustentam, ouve os movimentos e os sons outros que de dentro dele não nascem, e sim informam seu tempo de sonho, seu tempo em repouso, seu tempo de sono.
O instrumento é complementar ao seu executor, um existe sem o outro, embora juntos sejam capazes de sinfonias. O dono do instrumento não desdenha o instrumento, pois sabe que dele depende se quiser pôr em visíveis o que é invisível.
É importante que o instrumento guarde sempre o segredo da humildade no seu corpo passivo, passível de ser habitado e dedilhado por quem de direito. Contudo cada instrumento também sabe de que matéria sua matéria foi forjada e a alma delicada que envolve todo o corpo para que ele além de sons, tenha cor, tenha água, tenha forma e peso e vulto para servir.
Apesar de não ser o mais importante, cada instrumento é pedacinho de sertão, de selva, de coração, de peteca, de caneta, de papel, de pedal, de corda, de sopro, de chão, de luta, de lida, de vida que espia e esconde o céu na sua talhada natureza.
Quando o instrumento está exercendo seu mister fica tão tensionado que quase cala, mas é belo, quase tão belo quanto o é seu virtuose, é um pinho de madeira feminina, são metais de força viril.
Não me esqueço do que posso a pulso dos meus instrumentos, não me esqueço o que podem os meus instrumentos (mudos ou vibrando). Sei que têm cada qual precisão e serventia. Sei que valem pelo que valem, a música sem eles seria disseminada pelos pássaros, pelos ventos, pelas pedras rolando. Instrumento refina tudo isso e nos faz ver e ouvir o que é óbvio, o que Deus sempre quis dizer, através de um filtro (seu filtro) particularmente belo.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

PRESENTE DA ESCRITA



Presente da escrita

Nívea Moraes Marques



Eu me comprometo com as palavras que escrevo e as palavras que escrevo me comprometem.

Para um escritor escrever é vital e talvez esse seja o seu meio de comunicação por excelência.

Contudo, sou uma escritora que não é feliz em escrever por escrever, quero que minhas palavras sejam benditas e sejam, sobretudo, uma ponte a me permitir ser um presente para as pessoas e me tragam pessoas presentes pra mim. (e partindo das minhas palavras, tudo o que somos, sentimos e valorizamos também possa nos trespassar como num gostoso abraço e num gostoso abraço).

Sei que há um caminho a percorrer e que é preciso prática para que isso aconteça. Não tenho muita habilidade para me aproximar das pessoas, um pouco de timidez, um pouco de sem jeito, um pouco de aspereza talvez, muito de ensimesmada. Mas devo me aproximar, quero me aproximar.

Vou contar a vocês um epsódio que me aconteceu numa feira literária em Barra Mansa.

Fui gentilmente convidada a ler uns textos para crianças do primeiro ao quarto ano, mas não sabia ao certo a idade dos meus ouvintes, poderia ser um público misto ou de apenas uma série escolar.

Escolhi com carinho uns poemas e um texto em prosa poética e parti pra minha missão.

Lá chegando me deparei com crianças do primeiro ano e alguns professores, me apresentei e comecei as leituras. Comecei lendo o texto que falava sobre um maratonista etíope que perdera um de seus olhos quando era adolescente e depois li uns dois poemas. O fato que chama atenção é que meus ouvintes ouviam atentos, nenhum barulho faziam, nenhum mesmo e ao final das leituras eles não esboçavam qualquer reação, apesar das pequenas dicas e explicações que fazia sobre os textos antes da leitura propriamente dita, para os ambientar. Enfim na terceira tentativa apelei para a leitura do “Barriga do Bicho Papão”, perguntei quem tinha medo do Bicho Papão (alguns assumiram abertamente esse medo) e o poema é um raio x jocoso do que tem dentro do Bicho Papão. Dois menininhos bateram palmas freneticamente quando terminei o meu Bicho, note-se nem os professores, nem qualquer outro aluno demonstrou alguma reação às minhas palavras. Foi um grande constrangimento para mim.

Na verdade estou mais acostumada a públicos adultos e sempre é uma alegria, com as crianças foi diferente, meu coração somente não desmilinguiu totalmente porque fui salva pelos dois garotinhos (minha humanidade sorriu imensamente e sozinha um bom tempo por esse afago dos meninos). Desde então me agarro a essa esperança, não desisti de escrever (acho que nunca vou desistir de escrever). Tenho que ir, ir, ir cada vez mais ao encontro.

As coisas de Deus pedem perfeição por isso demoram mais. Eu preciso caminhar para águas mais profundas e peço ao meu Senhor companhia constante e que ele me capacite, pois preciso ser um presente bem enfeitado, cheio de laços, papel colorido que se dê e que se receba com um abraço, um gostoso abraço.

domingo, 15 de abril de 2012

MILAGRE



peixe de ouro, peixe de miúdas filigranas, peixe pilombeta, peixe de nascimento tardio, peixe pescado entre nuvens, peixes trazidos da rama esculpida no céu de sua boca, rede branda e carregada (que eu mal posso puxar)... só sei que era quarta santa e que à revelia dos primeiros projetos de Deus, ainda assim Ele também quis ouvir o serpentear dos peixes (pois todo o milagre acontece por Suas forças), Deus veio olhar e ficou fascinado com a invenção dos homens, uma flor no cabelo dela e um cântico de açucena, um beijo carmim no cangote dele e a vivência da completude.

...Nívea...

sábado, 14 de abril de 2012

CARMENCITA



Meu coração pulsa guardado dentro de uma caixa
as notas de música compram cada batida dentro do peito
e a caixa vazia escorre o sangue sem ritmo

...Nívea...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

ROMANCE DA BELA INFANTA



Para o meu amor percorrer toda rota
de pele do que sou
guardo aromas de cravo e ourivesaria
de canela
Sem que nada fosse a mim pedido
ainda assim meus reinos e riquezas
em troca dele eu ofereceria
(Porque quem encontra uma pérola
deve vender tudo o que tem
e ir correndo comprá-la).
No meu reino, às portas
você entra!
(podem passar muitos anos
até que você venha
um viço de menina,
secretamente,
sempre te oferecerei)

...Nívea...

sábado, 7 de abril de 2012

RESSURREIÇÃO




Meus pés tocam as tuas portas
nossos sorrisos imensos feito fossem flores de lapela
um entendimento brando do que somos e podemos
meus olhos tremem um pouco, contenho uma lágrima
a espera sempre foi esperança de te/Te encontrar

...nívea...

sexta-feira, 6 de abril de 2012

EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ



Santa Cruz
Nívea Moraes Marques

Hoje é um dia santo, porque hoje Jesus foi crucificado e morto.

Eu tinha medo da sexta-feira santa, porque era como se o mundo ficasse acéfalo do bem, Jesus percorrendo a mansão dos mortos e o coro comendo aqui na intermediária...

Isso não é bem assim, saindo Jesus das quatro linhas o jogo continua com Deus pai.

E além do mais Jesus só morreu uma vez (há uns montes de anos atrás) hoje fazemos apenas memória desse fato e no entanto, mesmo naquela época Ele avisou: Destruído o templo ele será reconstruído em três dias! Afirmando a sua ressurreição, que para glória de Deus e nossa realmente aconteceu!

A nossa vida aqui na terra é aprender a carregar nossa cruz e seguir após Jesus, não é para ter medo ou raiva da cruz, ela é a ponte que nos leva pro céu prometido.

Não é nada fácil carregar a cruz e o porque tem que ser assim é mistério de fé. A ressureição passa pela cruz, a ressureição de Jesus e a minha e a sua.

A igreja tem tradições que nós católicos gostamos de viver porque nos aproxima mais desses mistérios de fé. É bom vivermos essas tradições e todos os preceitos dos dias de "guarda" os dias santos, que não são invenções do "capitalismo", são tradições que só tem sentido pra quem tem fé.

A cada Páscoa aprendo um pouquinho sobre a minha fé, embora o mais importante sempre continua sendo amar mais e mais o meu Jesus que é a própria ponte para o prometido céu (aqui na terra e além nuvens).

Eu te amo Jesus! (na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, cada dia de minha vida)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O ENCONTRO



O encontro

Ela, com pés delicados
Dedilhando fados
Pulsante coração

Ele, vem andando exausto
Calmo de dor estarrecida
Sábio cordeiro de sangue pingando

Ela então o acompanha em silêncio
Por todo o caminho
O seu filhinho
(para as mães os filhos nunca crescem)

Desde o início dessa viagem
Do filho
Há uma hora do encontro
Com a mãe
O calvário não é nem mais bonito
Nem triste porque esse encontro existe
É mais doce, é mais vida é mais uma pintura
Que fura o meu coração e o seu
Duas criaturas portadoras do mesmo sangue, derramando-se
Coração pobre de anjo
Coração rico de Deus
Oração para lábios cansados
Arrisca mais um pouquinho
Só mais um pouquinho
Nessa dor exigente
Que no calvário verticaliza-se:
há a cruz;
Extravasando ressurreição!

...Nívea...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

TEU CORPO CANOA



Teu corpo canoa
Nívea Moraes Marques

“Teu corpo é canoa
em que desço
vida abaixo
morte acima
procurando o naufrágio
me entregando à deriva.”
Marina Colasanti

No oco dos teus olhos
bem na curvinha atrás
pingam-se os meus colírios
(as lágrimas que voltam atrás)

teus gestos a percorrer com imensos sorrisos
tua voz que revela um pouco do que és para Deus

Nada importa tanto.
Aquele que a tudo dispõe
me põe calada,

eu faço cálculos sobre cada ponto do teu corpo
para não caber assim
no círculo que prende os meus bordados.

domingo, 1 de abril de 2012

OS JARDINS DA MINHA CASA



Os jardins da minha casa

Lírios, oliveiras, figueiras, cipreste, cedro, romã, árvore de canela, jabuticabeira, acerola, goiabeira, limão, bananeira, mamão verde, macieira.

Aos poucos bordo os contornos dos jardins da minha casa na toalha das infindáveis novenas dos cafés e dos terços que sem pressa vamos desfiar, rumo costurado de aromas, cores, mãos que se tocam de repente.

Viagem dos nomes decompostos em música e delicadeza, música de vozes familiares dedicadas a ler em partituras sagradas tudo o que precisa aguar, adubar, podar, apreciar.

Há para esse jardim chapéus de abas largas, cadeiras de prosa, balanços a recitar meninos, calor de mãe e chuvinha de pai, razões de primavera e de inverno para que vinguemos.

...Nívea...

sábado, 31 de março de 2012

PARA O MEU AMOR, QUANDO VIER



Para o meu amor, quando vier
Nívea Moraes Marques

“E você não sabe quantos sorrisos eu já dei só de pensar em você.”
Caio Fernando Abreu

Depois de passar por um casamento que existiu bem pouco tempo e terminou porque nunca existiu de verdade, ainda assim não perdi a esperança em também embarcar na Arca de Noé, isto é, de ter um par, de ser um casal, de firmar aliança, nós três, eu o meu par e Deus.
Vão ficando meio ridículas essas esperanças com o tempo se adiantando e a gente meio que naufragando no tempo feito criança com um baú cheio de bordados do enxoval. Até a brincadeira do “Que dia você vai se casar” já fiz, para total reprovação da minha irmã caçula, que é infinitamente mais madura do que eu em seus sentimentos, em suas escolhas na vida, enfim, minha condição de primogênita (e minhas prerrogativas) foram todas anuladas quando me declarei poeta, mais ou menos na mesma época em que me descobri bipolar.
Hoje me consolou tanto o discurso da minha prima Carla, uma amiga dela disse que Deus não fez ninguém para ser só e tendo já feito a aliança depois do dilúvio não carece preocupação porque haverá de aparecer o par para cada uma de nós e que Ele vai fazendo sua parte e nós vamos fazendo a nossa, que ela reza, sai, conversa com as pessoas.
Fiquei pensando se eu faço a minha parte, eu não saio muito, e sempre saio com meus pais. Eu tenho cumprido os meus votos, rezo, e tenho tarefas árduas para enfrentar com a nulidade (e tenho enfrentado), mas sobretudo tento construir um alfabeto para o meu amor com as minhas palavras bentas, para que seja um caminho de pedrinhas ladrilhado só para ele passar. São pequenos gestos de espera, de amor enquanto espero.
Espero com esperança e amor e não tenho vergonha de ser criança (na nossa velha infância). Não tenho vergonha porque o amor é para os puros de coração e não me faltam nem há de faltar sorrisos para te ver chegar e simples assim te abrir um abraço, um imenso abraço, inaugural para tantos dias em que irá até cair de moda esse nosso abraço e a gente ainda vai se abraçar simples assim, como quem acaba de chegar de longa jornada, caminhando por toda a espera e saber que é pra construir o amor (esse país oficial das delicadezas) que se faz esse tanto abraçar de nós.

terça-feira, 13 de março de 2012

NA ADVERSIDADE, O AMOR



NA ADVERSIDADE, O AMOR
Nívea Moraes Marques


“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo protege, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca perece.” (Coríntios, 13)


Depois que você se cansa de ser humilhado, depois que você se cansa de ser injustiçado, depois que você perde todo o estímulo, depois que você percebe que todas as suas tarefas são em vão, depois que você é apontado por não ter suportado tanta injustiça e ter reagido ainda que infimamente e é crucificado por isso, é a hora de pedir a Deus que te ensine amar.

Às vezes amar quem ama a gente é um desafio ainda maior, mas amar nesse ambiente inóspito e agressivo, amar quem odeia a gente, ou pra quem a gente é uma pedra no caminho, ou pra quem a nossa presença é absolutamente indiferente ou desagradável é o que tem mais méritos diante de Deus.

A cada dia estou fazendo essa experiência e não posso dizer que aprendi. Estou tentando e pedindo, de respiração em respiração, Espírito Santo coloca amor no meu coração, mas sem que eu seja o “bobinho”, amar com inteligência (porque amor requer razão sim, mesmo sem razão aparentemente), mas sobretudo amar com o coração (como é difícil e maravilhoso amar com o coração).

Olhar pras pessoas e ver um filho de Deus, entrar num ambiente e sentir a presença de Deus. Tudo o que chove em mim, ainda que sejam lágrimas de desespero, tem de ser um orvalho bento a abençoar esses espaços, essas pessoas, todos os espaços, todas as pessoas.

Eu sinceramente ainda não sei como fazer para sentir esse amor, também não sinto o seu contrário: ódio, mas ainda sou magoada e rezo pro relógio caminhar adiantado para me livrar desse constrangimento. Sei que isso não é amor.

E o amor pode ser tudo e principalmente o registrado em Coríntios (certamente bula a ser seguida) mas nesse momento, pra mim é um caminho ainda não percorrido, estou à porta, bato e tenho medo de entrar. Esse esforço eu preciso, sair a caminhar eu preciso, porque meu Deus é amor e eu quero ser um com Ele.

sexta-feira, 9 de março de 2012

FINAL DE MULHERES DE AREIA



Parece áspero o meu amor por todas as pessoas.
Mas me preocupo com as pessoas frágeis, as que podem menos do que eu, as que estão sob meu cuidado em razão da minha profissão ou da amizade.
Tenho que lutar mais para amar as que são fortes, as que podem tudo, as que estão com o comando em suas mãos e agem para além do amor e da Justiça, num campo vantajoso e de conforto somente para o aro que está muito próximo do sol dos “interesses comuns”.
Tudo faz parte da vida adulta que tenho pra levar.
Mas a semente das minhas palavras rolam nesse e noutro tapete, que são os corações (das coisas e das pessoas), é um mundo em que a lavra é o som, o sonho, o amor são, a vida plena (é um pouco do Reino de Deus – dentro do “Reino das Águas claras”, no solo do que cultivo, nos dias e nas noites do que leio, vivo e imagino).
Hoje foi o último capítulo de “Mulheres de areia” e a Ruth, embora não demonstrasse muito, aprendeu a lutar depois de conhecer o seu amor, o amor pelo seu belo Marquito.
Em 1993 estávamos reunidas seis mosqueteiras sob o manto da Bandeira do Brasil, chorando por ver esse amor realizado (depois de tantos capítulos acompanhados na única hora de descanso do dia).
Lutávamos por tantos sonhos, mas o maior deles o de nos tornarmos independentes, termos uma carreira, uma profissão que garantisse sustento, respeito e um lugar nesse mundão.
Hoje, tantos anos passados eu não quero acreditar que a luta foi vã...
No entanto, Ruthinha e Marcos ainda são um símbolo de luta pra mim: luta pelo amor da minha vida, que não pode ser nada menos que acachapante (e o feito desse amor, traduzido num filho, pelos quais as jornadas de luta nunca serão suficiente e nunca terão um fim).
A tinta da minha caneta é pra expressar esse amor, que me faz ser quem eu sou, muito mais que qualquer degrau na minha tão suada carreira de advogada (pela qual eu sofri e sofro, pela qual lutei e luto, por tudo não menos que pela excelência).

...Nívea...

terça-feira, 6 de março de 2012

FRAGILIDADE



Bem calado
Nívea Moraes Marques

“choro de amor radia”
Adélia Prado

Bem calado um papelzinho me sugere teu nome
Bem calada a sugestão do sono imprime no descanso de minhas retinas
as tuas paisagens
Bem calado tudo poderia ser
mas nada é
por enquanto
e bem calada sigo os meus passos
cogitando o que pode ser meu caminho sonhado
por você.

sábado, 3 de março de 2012

ABSTENÇÃO



ABSTENÇÃO
Nívea Moraes Marques

Talvez todas as regras seculares e religiosas sejam um caminho.
Como advogada e pessoalmente eu estou muito ligada a elas.
Longe de ser positivista, mas ainda assim muito ligada.
Minhas margens estão cada vez mais comprimidas nos seus parâmetros, embora eu não raro as infrinja e então me dedico a controlar os passos para retornar.
Não quero hoje fazer apologia do anarquismo, mas às vezes regramentos demais destroem os seus próprios objetivos.
Eu me vejo um pouco destituída de sonhos, com tanto chão, com tanta certeza, com tanto caminho reto pra trilhar.
“A vida não é um filme e você não entendeu...”
A minha vida é um filme, só que agora tá tão sem texto, sem nuvens, quase arrastando a poesia na poeira das certidões. Que chato!
Esse é um tempo difícil, o tempo da quaresma. Pra mim é um tempo difícil, eu sinto tanto passar por ele e tem também as regras religiosas próprias desse tempo (que eu procuro seguir).
Mas o jejum está particularmente difícil, sou uma abstêmia de tanta coisa já durante o tempo comum.
Hoje o meu propósito tem de ser outro, não vou me abster de refrigerante, de doce, de feijoada, de tody, de sonhos.
Quero voltar a ter uma vida de filme e me abster dessa canalha tão ordenada que virou a minha vida.
Sei que não vivo às cegas dos sentidos, como antes. Mas os sentidos, o sentido, minha alma de poeta pede um pires de leite (não se destrói um poeta impunemente).

“Levanta-me da cinza em que me encontro,
Põe nos meus olhos o seu lume antigo!
Desdobra-me na boca a língua imóvel
Ergue os meus passos, leva-me contigo!”
Cecília Meireles

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

MEU CORAÇÃO EM TUA LÍNGUA




Não amo a humanidade
porque com ela não me encontro

Amo apenas aquele que
sorri para mim gratuitamente
sem nada mais conhecer
que os meus olhos sorrindo-lhe
de volta

Sei que os dias trazem novidades
(não me importo mais)
e talvez o meu abraço
(que é a tua morada)
seja surpreendido
em toda a sua serventia

...mais que meu sim:
meu coração em tua língua;

... nívea ...