ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

FRUTA BOA



Madurar
Nívea Moraes Marques

Para expandir minha seiva
E formar o fruto, exposto à criatura
Tenho que crescer por dentro
E renovar a força
Que me faz madura

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

ABRE ASPAS

"Se você não se atrasar demais, posso te esperar por toda a minha vida."
Oscar Wilde

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

NOCTURNO



Piano Súbito
Nívea Moraes Marques

"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”
Olavo Bilac

Fique em silêncio
(eu silente ao lado seu)
Olhe atento para a trilha
Que cada lágrima seca
Faz nos caminhos dos
Meus olhos

Fique em silêncio mais um pouco
(eu tranqüila e nesse silêncio
um pouco mais sua)
E se aconchegue no perfil
Do meu corpo

Procurando conhecer o nosso tempo
Feito fôssemos duas esculturas

Quando menos esperar
Tumultuo brandamente
Esse pulso sem palavras
Cubro de beijos toda a
Sua face (começando
Pelos caminhos côncavos
Dos seus olhos)

E o meu gesto
Te surpreende e delicado
(num crescente e recuo)
Na beirinha dos meus lábios
experimenta meu amor
simples e vibrante
como um piano súbito.


Hoje no ensaio do Coral da PMBM, a Gláucia explicou com tanta simplicidade e acerto o que é um “piano súbito”, na hora eu falei para a minha companheira de naipe e amiga, Gi, que daria um poema. Realmente deu, não sei se tão belo quanto a explicação da Gláucia, mas do mesmo modo sincero. Dedico à Gláucia, à Gisele e ao meu amado (aquele que virá como benção de Jesus, Maria, São José, Santo Antonio, Tobias, Sara e o Arcanjo Rafael) e eu mesma me relembro: “Deus não demora, capricha!!!”

domingo, 16 de outubro de 2011

LITANIA DAS MOÇAS



Litania das moças
Nívea Moraes Marques

Roguem pelo céu
Que habita cedo no moço
De meu coração.
Manda meu Sinhô
Um anjo bem mandado
Para guardar os sorrisos
Desse moço
Por quem eu bordo
Fronhas
Desde que nasci
Por quem eu aprendi
A dançar
E a conversar
Em línguas estrangeiras
Só porque assim poderia ser mais perfeita
Ao seu lado
Por quem hás de inventar
E nascer outras vidas
Do meu frágil
Corpo de porcelana
Esse moço
Me faz colocar bobes no cabelo
Me faz pintar as unhas
E rezar novenas
Ave-maria se o encontrasse hoje
E o encorajasse a ser novelo
Cada fio um sentido e uma beleza
Nova para as minhas tarefas
Cotidianamente pousaria minha cabeça
No seu colo
E o convidaria a dar passeios
Longos
Pelo meu sonho
E se as horas fossem poucas
Deixaria que o peso de seus olhos
Fechassem os meus por uns segundos
E dormindo as tardes de domingo
Acordássemos de novo
Para nadar no fundo do dilúvio
Carregada de azuis da aliança;
Deus de novo conversaria
Com a criatura
E prenderia o céu
Nas nossas alianças
Pois é no peito da moça
Que nasce a família
Primeiro é assim
(nos seus bordados)
E depois é que chega o moço
E empresta o tino
Para que do delírio e da bela fazenda
Em que se borda
Faça-se o sol para ser
Faça-se o tempo de ser
Faça-se a chuva que molha
Não o chão, mas o solo do Pai
(que a cada dia espera mais um encontro
Mais este encontro
Pra ter fé, para exercer a fé
na sua própria
Criação.)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

UM TETO PAZ E AMOR

A palavra não dita
Nívea Moraes Marques


A palavra não dita causa escoriações pelo meu corpo
Como se caísse de uma longa escada
Que liga o plano ao morro
Morro nesses dias em que gasto palavras
Com o fazer dinheiro
(E tão pouco)
Dinheiro não compra palavra
Palavra não compra dinheiro
Fujo desse destino torto
Enveneno palavras com sangue são
Para que em hemorrágica cena
Se esparramem
No chão do não
Nada do que se decompõe
Em notas
Eu traduzo em terços as minhas palavras
Que não estão á venda
São bicicletas de aluguel
Piparote
Doce de leilão de quermesse
E sob as bênçãos de Deus
Ainda me permitirão
Um teto, paz e amor.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Mãe do céu morena



Minha mãezinha
Nívea Moraes Marques

Minha mãezinha,
da beira do seu manto
faço um lencinho
para deixar cair
gentilmente
as minhas lágrimas de devota

Mãe quantas coisas quero te pedir
e talvez a mais importante:
Me ensina a ser mãe
Mãe das crianças que me foram confiadas
Mãe das crianças que me serão confiadas
Mãe dos adultos que igualmente estão sob meu patrocínio
A vida de uma advogada é interceder
É lutar
Mas às vezes estou tão cansada e sem estímulo
Mas não posso me esquecer que carrego no meu próprio
Ventre a tua missão

Mãe me ensina o teu sorriso
A tua amizade com Deus pai
O teu repouso no Espírito Santo
A tua meiguice de filha e mãe de Jesus

Mãe já te pedi tantas vezes e consagrei a minha tarefa de dizer
à sua messe de benefícios
Hoje eu renovo meus votos

Eu quero ser mãe ao dizer, ao encontrar, ao pronunciar e escrever cada palavra
Para ser tua
Para ser modelo teu
Feito objeto fabricado com selo de origem
(Nunca quero um sorriso que não seja um sorriso teu)

Meu coração, envolto por um filózinho feito fosse pão de açúcar,
Envolto está por tuas mãozinhas
Cultivado e regado, arado, cuidado, sazonado por todos os tempos
Que tu Conjugas, mãe
Especialmente por mim,
Mãe querida da minha nação, mãe do meu Brasil, minha mãe aparecida no vale
em que habito.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

BONECA RUSSA



Felicidade é ser criança
Nívea Moraes Marques


Mora um anjo no meu peito
E meu amor desconhece isso
Beija meus lábios mil vezes
Para descobrir
Que no meu peito mora um anjo
(Um anjo que se chama solidão)

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Guardo teu retrato no baú dos meus
Brinquedos
Tempo em que a tua lembrança para mim
Não existia
Mas justamente foi quando
Começou a existir

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Deus sabe a razão porque peço
Ser menina para sempre

Deus sabe a razão porque brinco
Com as palavras
E detesto ter de mudar de brinquedo

Deus sabe que já é hora de inventar
Em mim uma outra vida
Mas ele me esconde o segredo do pique

Por enquanto pega só no meu sonho
E nas minhas preces
De menina.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CRUZ CRAVEJADA DE BRILHANTES



A alma pede pelo corpo
Nívea Moraes Marques

“Não queremos aceitar o fato de que o sofrimento é necessário para nossa alma e de que a cruz deve ser o nosso pão cotidiano. Assim como o corpo precisa ser nutrido, também a alma precisa da cruz, dia a dia, para purificá-la e desapegá-la das coisas terrenas. Não queremos entender que Deus não quer e não pode nos salvar nem nos santificar sem a cruz. Quanto mais Ele chama uma alma a Si, mais a santifica por meio da cruz” (Padre Pio de Pietrelcina).

Não entendo a cruz de cada dia e a suporto pouco. Me revolto contra ela, como um peixe que é lançado na areia da praia com um fio de vida.
Sei que se Cristo tivesse rejeitado sua cruz, eu hoje não teria sequer esperança, não poderia ter uma alma imortal que almeja o céu e num futuro-mistério um corpo glorioso ressuscitado.
Sei que Cristo é o modelo que devo seguir, é o perfil que tem de se ajustar ao meu, o que então fazer com o pão da cruz? Cravejá-lo de brilhantes e pendurá-lo ao pescoço?
Meu Deus, nem na arte nem em qualquer outra pessoa reside a verdadeira felicidade, apenas no Senhor, esses são os ensinamentos do verbete 1723 do catecismo da Igreja.
Por outro lado, o Senhor me abençoou com alguns dons, pelos quais eu terei que prestar contas. Há uma razão de ser para a minha vida (tudo bem, seja conhecê-lo mais e ser cada vez mais apegada em ti), mas os meios para isso passam por nossa missão, passam pelas pessoas com quem convivemos, passam por nosso coração, passam pelas nossas realizações, passam pelos nossos projetos na vida.
Senhor eu não quero desviar-me da cruz necessária, mas eu quero me aproximar daquilo que em mim precisa ser carne (porque por enquanto vivo neste mundo), precisa ser corpo, precisa ter forma, precisa ter casa, precisa amparo, precisa sentir o sentido que o Senhor mesmo semeou no campo que passa por todos os estados da parábola do semeador, e ainda assim quer se estabilizar plano, fecundo, arável, propício.
Minha alma pede por meu corpo: salva-nos!

domingo, 2 de outubro de 2011

COMEMORATIVA DOS ANIVERSÁRIOS



Já comemorando o aniversário da blogueira e do blog, convidei dois poetas para acender a palavra, assim como convido diariamente a todos vocês que se unam a mim nessa tarefa: acender para ascender, a palavra, é claro!rsrsrs

Abração em todos! Nivea.



A PALAVRA
Tânia Tomé – Poeta moçambicana, nascida em 1981. Participou da antologia Um abraço quente da Lusofonia e publicou Agarra-me o Sol por trás (Ed. Escrituras, São Paulo).


A palavra quer deitar-se
sozinha, reflexa
contemplar devagar
o sol que morre ao silêncio
Não há pressa, não há medo
A palavra quer morrer
quantas vezes for preciso

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Quantas vezes for preciso
Nivea Moraes Marques

Quantas vezes for preciso
A palavra há de nascer no solo do meu peito
E se a hora não é propícia
Há de saber calar.
E se a hora é propícia
Há de saber dizer
E te tocar tão fundo
No íntimo do homem que
Você quer ser
Crescendo baixinho nos ouvidos
Surdos, nos ouvidos mocos
Nos ouvidos que exigem ainda ouvir
Uma palavra que se presta
Não importa se para a morte e para vida
Para vida de ressurreição
Para a vida simplesmente
Simples como quem acorda e sai a passear
Movido por esta porta aberta: palavra bendita
Como um cãozinho que entra na igreja
E deita no tapete do altar para viver a
Missa.

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Como a um pássaro
Nívea Moraes Marques

alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.
João Cabral de Melo Neto

Desabrochei a dor no meu peito
E deixei-a habitar como a um pássaro
sobrevivente silvestre, pois não o engaiolei
Nem o alimentei,
nem dei de beber água fresca

como a um pássaro que caminha
beliscando minhas bochechas gordinhas
meu sorriso amuado
minha solidão habitada

a dor desabrochada, convidou-me a fazer aniversários
veste-me chapeuzinhos de crepon
e ri das minhas saias de prega macho

mas ainda como pássaro inteligente
ela migra no tempo frio
e eu tenho algumas estações de intermitente felicidade
(felicidade clandestina)

De repente alguém me agradece
Um gesto
Alguém me sorri gratuitamente
(ou apenas dois menininhos batem palmas
Pro meu esforço poético)

O pássaro rubro regressa
E já então posso colocar-lhe
Um pires de água e outro de alpiste
Porque meu peito agreste de dunas
Já mais fácil pode suportar suas asas de ferro
Batendo contra meu estofo de vidro.

sábado, 1 de outubro de 2011

O AMOR É O MEU PAÍS



Desde que você venha
Nívea Moraes Marques

“Quando não tinha nada eu quis
Quando tudo era ausência esperei”
Chico César


Hoje já é primavera
E não me importa a estação
Desde que você venha

Me importam seus passos
Seus pés de elegante passo
Tardas, só um pouquinho

E a espera é uma gravidez
De esperanças cruas
De esperanças dentro
Da minha língua

Onde as palavras brotam
Donde as palavras pedem
A tua saliva doceamarosal
A tua saliva sã
A tua saliva sagrada de esposo

Desposada, todas as minhas saias
Serão tuas
Tuas tardes de sol ameno,
Sol de demanhãzinha
Sol de menino trazendo outro menino

Sol emoldurado nos porta-retratos na estante dos livros
Pendurados e cheios de orelhas
Historinhas desenhadas à margem
Que Deus vai inventar
para apenas continuarmos
Ad immortalitatem tantum.