ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sábado, 17 de setembro de 2011

ÓCULOS PRA LOBO



Mora na Lua
Nívea Moraes Marques

Na lua de Guigui mora um lobo de boca aberta.
Na lua dos meninos de ontem era São Jorge que morava, montado em seu cavalo a vagar pela vastidão da noite.
Guigui se esconde da lua, mas seu irmão, Capitão de laços e espada, o protege da mordida do lobo.
Quando a lua está minguante, o lobo apenas balança a cauda, sem dentes. Como se fosse pedaço de nuvem ou pelo branco de Rusk, a Sibéria num mundo quente, derrete. Derretendo os medos do pequeno Gui.
Mas se engorda a lua, vem a matilha uivando pra dentro do sono brando do menininho.
Guigui não acredita que o homem visitou a lua, tem lobo demais lá, nem mesmo os americanos dançariam com tais lobos.
Chama vovó, chama a bisa, chama a titia e a mamãe, cercado de tantas saias, espia num cantinho de olho a vila dos lobos uivantes e jura não contar carneirinhos nesta noite de lua cheia, porque não há de sobrar um para lhe contar histórias de “urubu não ir”.
Penso que ao crescer esse menininho vai ter uma namorada, e a lua desabalada vai tentar ser companhia e ele peralta, com uns óculos coloridos, Gui vai encarar os lobos de pelos punk e descaradamente vai fazê-los panda, vai fazê-los micos dourados, vai fazê-los tantos palhaçados que um a um em roda declinará o nome das crianças assustadas que da lua reclamam a morada para o saudoso santo guerreiro matador do dragão.
O rescaldo dos vadios lobos brancos (curtidos no balde de cores de um Guigui gaiato, que pela namorada, encara a lua de frente com as suas quarenta e duas polegadas e em cores, num filtro rapaz, recém-saído da barra das saias e do vulto de seu forte irmão capitão), escaldados, os lobos em fileirinha, com rabos para sempre à míngua ensaiam autos de ninar, cumprindo nova função no céu azulado do menininho Gui: arregimentar carneirinhos e vigiá-los inteirinhos só para o sono crescer e crescer o nano Guigui até surgir o seresteiro das noites enluaradas: Guilherme com a sua amada, iluminados pela tal de lua e toda a sua corja de lobos e santos. (sempre será melhor apenas estar sob lua – e à certa distância - em noite alta)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

DONA IVONE LARA & NÍVEA



atarde
Nívea Moraes Marques

Cada estrela é um pontinho de luz
Que deixa a vida
Diante do sol

Solda de sincrônica mola
Acende apaga
Morre renasce
Escorrega nesse caminho
que Deus nos fez conhecer
Porque a vida não é sempre o dia
 e a dor não é sempre noite

Entre amanhecer e anoitecer
Há a tarde
E a tarde é meio
quente meio
Fria

A tarde é meu tempo
Pra acalentar o filho
Que o próprio tempo me faz gerar
E parir
Pura melodia
Pura nostalgia
Puro banzo
Pura revelia
De sentidos
E sentimentos

Pois a tarde nunca é tarde
enquanto ela não tem fim.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

MUDA A ROTA NIM VOCÊ



Açúcar do centro da beterraba
Nivea Moraes Marques


“A coisa mais fina do mundo é o sentimento.”
Adélia Prado

Esses dias me trouxeram as mãos cheias de sentimento.
Voz que preciso ouvir; melhor, voz que não quero ouvir. Melhor, voz que se ouvir volto a adoecer de um banzo pura poesia.
Nesses dias pergunto a você, onde meu novo amor? Corre as ruas, dorme breve sono, pisa águas de poças, suja sapatos crus e luta com palavras cruzadas para poder também dizer, como mais ninguém diz, o meu nome.
Tais dias o leão que espreita a minha mentalidade abre um olho e fecha o outro, quase abana o rabo e ensaia a majestade em quatro patas erguida, mas me controla a medicina, não posso o voo descendente que te procura, passado passando, teia de vida que me protege e me aparta, não podemos estar juntos e sós, o mundo de meu Deus é tão maior que nós (embora tão menos delicado).
Sinto sua bela voz dizendo Nívea e é como a gênese dessa historiazinha, dessa história minha, dessa história que é a gênese da poeta em mim, foi do açúcar do centro da beterraba, foi do miolo da flor selvagem e estranha que dormia calada na minha boca.
Não podemos nos tocar, não podemos nos ouvir, há uma rota nova no coração do peito nosso, uma amizade velha, do verbo inexplicável da antiguidade de nossa relação: podemos ser amigos simplesmente.
Você a cada momento prova o novo e vive e vive, eu parei naquele instante e peço apenas a Jesus me dê uma nova vida. Me dê cor nova para meus olhos, me informe interior novidade, me dê um homem que delicadamente apague essa luz e incendeie os dias novos do presente.
Quero que meu coração mude a rota nim você. Pois a essas horas eu também preciso de um amigo que nunca será um, será um duplo céu coberto, protegido do cheiro das distâncias percorridas e a percorrer.
Preciso de um amigo, embora não saiba medir sua estatura. Embora não saiba medir os ml de água pura que apagariam esse fogo, gênese da destruição da minha ingênua messe, da minha pequena árdua tarefa.
Quero olhar essas lindas tardes desejosa de tê-lo feliz, com quem estiver e se um dia te reencontrar, apenas te dar um singelo e meigo abraço, envolvendo a tela que nos separou sem praguejar, sem reclamar propriedade, propriamente.
Amigo, perdoa o meu sem jeito, recebe este meu novo abraço. A vida sem explicação, ainda é melhor que a vida dos que teimam com ela.

domingo, 4 de setembro de 2011

AFILHADO

Travesseirinho fofo de macela
Nivea Moraes Marques


“One, two, three, four, five, six, seven, eight, nine, ten”
Pedro me surpreende aos seus quatro anos
E sua maturidade lingüística
Sabe contar em inglês
No entanto, no colo de sua dindinha
Recorta figuras de anjos e super-heróis
E cola no meu decote
Convidando a brincar com a gente os primos que virão
Pedro inventa em mim um verbo incontável
Que é verso soprado por brisa de inverno
Meu coração tiririca de frio
Tricotando meinhas e casaquinhos
Na esperança bonita que é mãe
Que é mãe coruja
Que apenas cozinha em seu caldeirão
Letrinhas e coração de carneiros
Maria Clara picada aos pedaços
E Pedro derretido em azeite
Aromatizado
Mordo essas duas figuras
E informo aos meus futuros filhos,
Antes deles, (de mãos dadas e cara suja)
Dois molequinhos me compreendiam em verso
Tia dinha é menos que mãe, é irmã do pai
Mas é singular da coruja solteira
(que nunca migra, que nunca esquece)
Que é sempre a boba que nunca ouviu
A escalada dos números em inglês
Ditos por esse Pedro, mais que meu filho,
Travesseirinho fofo de macela
Onde durmo todos os meus sonhos