ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

TEMPO PRESENTE



Agraciada
Nivea Moraes Marques

“Queria que fosses feliz
uma água calma a inundar
a sua margem de carinho
um peito aberto a quem chegar”
Milton Nascimento

Hoje enxerguei uma coisa sobre mim, uma verdade que se esconde repetidas vezes sob a novidade: eu não sei ganhar um presente.
Fico sem graça, não sei o que fazer, onde por as mãos, digo as maiores bobagens, prossigo a quase recusar o mimo.
Não sei ganhar presente...
Com motivos ou sem motivos vivo me defendendo da vida. Meu escudo guerreia por mim num túnel prolongado onde não existe paz. Ofendículas rasgam minha língua, os meus pelos, os meus cotovelos, rolo, grito e não me sinto à vontade quando a vida se entrega, preciso sempre estar dentro de mim.
Engraçado que hoje, no mesmo dia recebi um elogio do meu Procurador Geral e um anel da minha professora-maestrina de canto coral (vida me entregando suas prendas) e bastava um muito obrigado!
Mas o adiantado da hora no relógio da boa notícia me pega desprevenida e saio quebrando cristais, minha cara cai no chão e o abrigo pro cuidado de amigo tem que passar por uma porta tão estreita do meu sem jeito.
Meu peito tem uma chave que precisa destrancar.
Com doce autoridade meu último grande amor abriu às escâncaras meu coração, mas não vivemos adiante para experimentar esse novo estado de mim.
Regressei ao tempo do eu-menina, tempo das dores sem explicação... Regressei ao tempo do eu-senhora, passo das dores para a compreensão. Regressei com a capa de chuva cheia de furinhos que chora meu sorriso, um tom pastel de imensa intimidade e timidez.
É preciso que eu treine situações de graça de graça. É preciso treinar o simples de ser agraciada.
Hoje eu ganhei muito e quase pedi pra morrer, andei vinte casas para trás.
Agora me redimo de tudo: no elogio uma ponte da amizade, no anel uma aliança vitrificada para ficar no lugar da aliança quebrada.
Tudo rastreia confiança e ternura, um caminho para a entrega em peito aberto, ainda que meus passos inseguros não tenham me posto novamente aberta a céu aberto.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A CÉU ABERTO



Amor a céu aberto
Nivea Moraes Marques

O amor instalado no meu peito dói
todas as tuas ausências
Reclama de volta a chave
do coração aberto
a céu aberto

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Beijo de ninguém
Nivea Moraes Marques

Meus lábios não perderam a cor
Beija flor pousa
E brinca de beijo
Beijo que nunca mais beijei
Ninguém...

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Mudas de sol
Nivea Moraes Marques

Piso as minhas próprias pegadas no chão
Há um caminho para prosseguir em paz
Há um caminho que se faz para aquele que chega
E planta mudo mudas de sol no meu jardim aguado.