ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sexta-feira, 22 de julho de 2011

DENSIDADE ZERO



Densidade do sonho

Nivea Moraes Marques



"a densidade
menor que a do ar."

João Cabral de Melo Neto




Conjugo viagens para o centro

de mim mesma



E fico pensando como é besta

um sonho que não cede



Meu Deus me olha

e constrói com cristais

mil sorrisos pra mim

mil sorrisos de mim



Onde moram meus anjos?



Amo minhas crianças mais que a Deus

E os quero amar

como que passe

através

meu amor de Deus



Tantos medos de por isso

perder-me deles

(O primeiro mandamento

é a minha primeira queda

é o meu primeiro laço

é por onde talvez

meus pés descalços

passeiem sobre os canteiros

das flores cultivadas

por Deus

e então Coloridos e cheirando jasmins

pisam o chão com a firmeza

de um dia acatar com doçura

as estreitas margens do céu)



E o meu sonho dorme um pouquinho

essa tensão que não cede

afrouxa

retesa

e nunca se lacera



A cada hora, confirma-se a hora certa

a hora esperada

meu olhar lambido pede o que nem avista

e finge não se importar com a falta

com a fala muda

com a realidade farta

com tanto peso que nem ao ar

sequer se impõe

como se fosse espaço

como se fosse queda

como se fosse apenas anjo

de saiote bordado.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

UVAS PARA OS NETOS

Orgânica
Nivea Moraes Marques


Passados tantos séculos
ainda acordo dentro da noite
para observar este espaço
vazio
que deixou seu corpo
em rua absoluta
em luta absoluta
sem trégua nem finalidades

Suas meias, pouco tabaco
seus jornais, seus cadernos
de anotações
Tudo está dobrado
e em seu lugar, como antes
como sempre

Não quero deitar-me viúva
e acordar morta
Não quero deitar-me morta
e acordar viúva

A vida com seus rebentos
abstive-me, você sabe
(só tuas coisas, aquelas que foram indo
foram ficando, me pertencem e me acompanham)

Dentro de uma cidade ausente
Dentro de uma cidade magra
Dentro de uma cidade inexistente
vivo para vida dura, agressiva e
urgente

Minhas saias foram bordadas a sangue
(sangue seu)
Meus lenços acenam para voltas
_ Voltas!
_ Voltas?!

Cultivo ainda mil sorrisos, porque a colheita vem
tão logo todo esse inverno passe.
Minhas mãos, enquanto isso,
revolvem a terra plantando mudas imaginárias
que germinarão sonhos e desvarios,
os quais a todos experimentarei
E quando envelhecer, estou segura,
minha casa será cheia de netos
Eles farão bingos com os rescaldos desse tempo surdo
de suposta desfaçatez
Meus netos provarão as uvas do meu amargo arrependimento
e fincarão estacas na terra em que plantei meus pés de vento.