ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

segunda-feira, 30 de maio de 2011

TRISTEMENTE, AINDA ROLAM POR VOCÊ



Olho d´água
Nivea Moraes Marques


A música que ouço é um olho d´água
que à flor da pele é a flor da água
Feito saliva pingando
Calcula um punhado de sal e um punhado de açúcar

Sei que os limites que eu traço
beiram às pálpebras do meu sonho

O sonho que durmo
tem margaridas regadas por música

Música que nasce feito olho d´água
Serpenteia e irriga as veias
que transportam as seivas
fabricantes das lágrimas
todas as lágrimas
que tristemente
ainda rolam por você.

domingo, 29 de maio de 2011

MEU CORAÇÃO NÃO CHORA, DESNUDA-ME



Ao encontro
Nivea Moraes Marques

Declaro meus pés ao meu amor,
Ele me vê cada dia mais perto
(Aproximando-se pé ante pé)

Tenho medo de ir até o meu amor
Sei que ele deve vir

Cultivo há uma década uma castidade de vozes
Uma economia de gestos
Uma simplicidade angustiosa

Decantando desejos
Para purificar meu peito
Meus braços
Meu ventre

Livre de todas as pegadas.
Branca
Para uma inauguração austera

Princípios e corolários da preparação
Sou Tatyana em pose de preparação
Para delicados carinhos, para atenções sinceras,
Para pureza de propósitos

Para que se case em mim um homem
Cuja mão (na minha pele)
Belisque a irrealidade do que sou
Tateando tantas virtudes (para ele
fabricadas)

Não brinco de ser uma pessoa nova
Estou em estado puro de pedra lapidada
Por intemperismos
Por chuva também e sol e ouro e prata
(fundições e esfriamentos)

Firme sobre o meu alicerce
Minha fé não depõe contra mim
Antes me informa
(Que para tanto pranto
A calada hora simples chega)

Tuas mãos secam meus lábios
E a música e a dança
Que se deixam desprender então
Faz de nossos pés
Somente o caminho
Somente um caminho
Que caminharemos juntos.

____________________

Ao lado deste amor mora um anjo
Um anjo que se chama solidão
______________________

Cortado em camadas,
meu coração
não chora,
desnuda-me.

domingo, 22 de maio de 2011

ESPERANÇA LATINO-AMERICANA



Nem tudo está perdido
Nivea Moraes Marques
Para Ernesto Che Guevara

Quando recebo de outras mãos o
alimento sagrado do dia-a-dia
e este sustento
me faz progredir nos dias,
nem tudo está perdido.

Metal para o meu travesseiro
O anúncio da aurora
A vida do homem em outro homem

Tudo o que foi feito de humano solo
Neste solo que te fez homem
Me une ao solo preciso
Latino-americano

Deste sangue que doaste sem querer
Deste sangue que tomamos
Deste sangue seu

É para isso que digo que a minha meta
Para ser humano é escrita por infinitas
Palavras
Mas hoje basta uma,
Agradecida.
Agradecida por construir em mim um sonho
Um solo
Latino-americano
(Que invento e inventa em mim palavras,
Mas hoje basta uma,
Agradecida.)

domingo, 15 de maio de 2011

"MEU MELHOR AMIGO É O MEU AMOR"



Bendito
Nivea Moraes Marques


“Não trabalharão debalde,
nem gerarão filhos para a morte repentina;
porque serão uma estirpe de benditos de Javé,
eles e os seus rebentos com eles.”

Isaías, 65,22


Tenho um amigo oculto:
meu amor.

Às vezes Deus tem umas rusgas
comigo
por causa dele

A que ponto chega o ciúme de Deus?

Deus que é o exclusivo
se abate só de pressentir descuido, desproteção...

Há uma atenção de criatura para com a criatura,
inventada na inteligência de Deus, e que ele só pode provar
transversalmente

Tenho pedido a Deus
incessantemente, insensatamente,
conscientemente, piedosamente
que meu amigo venha
(machucada às tantas, minha humanidade)

Sei que o divisor não provém de Deus
no entanto, Ele parte o pão e dá graças
Ou dá graças e parte o pão

Temos e teremos, eu e meu amigo,
um tempo terrestre brevíssimo
para vivermos um no outro
Um tempo brevíssimo que Deus
consumará conosco,
embora sejamos eu e meu amigo
apenas os atores que enxergam
e desencadeiam as ações
(em Deus cochichamos tantos sentidos)

Ainda teremos então um tempo de eternidade
para exclusivamente adorar a presença única e final
de nosso Deus.
(cumprimento dos votos que se faz em cada tempo)

Precisamos deste tempo contável
para construirmos esse cântico de eternidade

Precisamos do que é breve para sabermos o incontável

Precisamos exceder em todos os poros a breve humanidade
que nos cabe, para tocar a face de Deus com respeito, com amor,
com a compreensão de todos os mistérios...

Para concretar o amor na estrutura dos ossos
Para bordar o amor no perecível da pele
Para acostumar o amor ao imperceptível da alma
Para experimentar o amor no corpo glorioso que há de vir a nós depois da eternidade

Os tempos não se cumprem ao nada
Os tempos são números perfeitos
Eu peço a Deus que meu amigo venha,
alastrando em mim a estirpe dos benditos.

domingo, 1 de maio de 2011

A MARAVILHA DE SER HOMEM

“Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa...chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...”

Castro Alves


Há alguma coisa
Nivea Moraes Marques

Há alguma coisa que a escravidão não mata,
Não machuca, não destrói, não corrói, não modifica,
Não inunda, não admite, nem controla

Está sob a pele, está no fundo dos olhos, está plantado no peito
Está fabricando o suor, fica no calado da voz, fica nos dentes que sobram
Corre no mais fundo do corpo, pregado no sangue do corpo

Há alguma coisa (pouca e fundamental) que à escravidão foge
Que sob escravidão insiste em não ser, insiste em ser
Insiste em se dar e louvar e rir e chorar e correr e ficar e comer e se abster

Há alguma coisa que vive e morre liberdade dentro de mim
É alguma coisa que me faz homem e que define em mim essa qualidade
Sem que nada mais acrescente, sem que nada mais diminua

É por isso que eu resisto (até à sobrevivência)
É por isso que eu sei, que apesar de minha condição de ferramenta
Engrenagem, tabula rasa do capitalismo
A um grito meu, tudo se quebra
Continue-se a caminhar para onde se caminhe
Há alguma coisa em mim que me faz homem
E me capacita á resistência (até a redenção)