ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sábado, 23 de abril de 2011

TEMPO DE SILÊNCIO



Tempo de Silêncio
Nivea Moraes Marques

Saí do confessionário na sexta-feira da paixão e mais do que o perdão dos meus pecados, ganhei uma folha em branco (talvez para rabiscar novos pecados, talvez para construir a novidade...)

Ganhei informações preciosas sobre mim, sobre o homem velho que eu era e sobre o homem novo que pelo menos eu quero ser.

Embora não saiba o caminho e as palavras de hoje sejam já os passos inaugurais. É preciso dar passos, o caminho se faz à medida em que se caminha.

Falo bem baixinho o pouco que se diz hoje. Jesus está morto. E Deus Pai nos olha curiosamente, como nos haveremos sem Ele?

Mas Ele prometeu ressuscitar no terceiro dia. E hoje eu espero por Ele.

Ele tem me ensinado a esperar, mas não uma espera por esperar, uma espera cheia de graminhas e pedrinhas e areias e coloridos intensos. Há que esperar pra dentro. Dentro do meu corpo as reações químicas deflagram as cores e os calores da minha espera. Tenho que construir um homem novo. Tenho que avançar. Tenho que envelhecer um século, para voltar a ser criança. E se um ciclo não foi suficiente, reinicia-se. Reinicia-se. Reinicia-se.

Iniciada nesta dança, nesta cadeia de rancores e violências (para mansidão e obediência) procuro saber que mulher é esta que meu Deus planejou em mim.

Pureza e inocência são colírios no espelho dos meus olhos, gotejam lágrimas pra dentro. É preciso curar as molas envelhecidas, calibrar o tempo, azeitar o ranger dos dentes. Sussura o amor por dentro. Por dentro do meu peito há uma casa de quintais amplos. Eu quero colar o sol no centro da minha vida e aprender tudo neste tempo de espera, pois eu sei que há de chegar o terceiro dia. (E neste dia estaremos de mãos dadas.)

terça-feira, 12 de abril de 2011

O SOL QUE AQUECE MÁRIO E MANUEL

Conviver com a poesia
Nivea Moraes Marques


Em toda atividade é necessário conhecer os mestres. De todos os tempos. Eu sinto necessidade de colecionar referências, de ler, de garimpar, de me aproximar, de “iniciar uma amizade”.

Já me agarrei a livros, Já enviei carta, e-mail, alguns conheci pessoalmente, alguns me conheceram pessoalmente. Costumo cutucar a onça com vara curta, às vezes sou feliz, outras nem tanto, mas sempre é uma descoberta, um detalhe. Preciso me reconhecer nesta família mais experiente em quem me apoio, plataforma para meus próprios saltos ornamentados.

O fato é que num desses e-mails, dessa vez respondido, Affonso Romano me indicou dois títulos seus “Sedução da Palavra” e “ A Cegueira e o Saber”, desses livros retirei uma lista de livros para ler, um itinerário para iniciar iniciantes.

Dentre eles, Sabino, Ezra Pound, Manuel Bandeira, Mário de Andrade o próprio Affonso e por aí vai.

Alguns capítulos de livros, dos quais eu não necessitava a leitura integral, tirei xerox, outros me foram vindo por meio da “Estante Virtual”, os maravilhosos sebos de todo o Brasil.

A cada novo livro vou dando conta ao Affonso das minhas experiências. Confesso que no último e-mail fui um pouco desaforada. Externei a minha indignação diante da conversa “fiada” relatada na troca de correspondência entre Mário e Manuel.

O castigo deles veio a cavalo. Eu que nunca tive alergia de qualquer espécie, peguei uma alergia danada com o ácaro que pesava o pequeno livrinho de correspondência dos dois belos poetas.

E a impossibilidade de chegar perto do referido livrinho me fez ter uma afeição por ele que eu não tive no primeiro momento. Mário e Manuel me faziam falta, queria porque queria saber se no final da cartinha do dia eles estariam felizes, com raiva de algum crítico, fazendo-se mútuos elogios, externando as dificuldades da vida e ora e outra falando alguma coisa sobre a bendita poesia.

Minha mãe me sugeriu comprar uma máscara... E eu já achando que os dois mascarados já bastavam. Mas que vontade de chegar mais de perto o ouvido e deixá-los falar!

Retirei pesarosa o bendito da minha cabeceira e foram de quarentena para a estante de livros...

A poesia não se contém e não se detém trancada em livro algum.

Retorno do trabalho e qual não é a maravilhosa surpresa, minha mãe abriu os livrinhos (esse e mais dois que estavam em quarentena – um do Poe e outro do Manuel) no parapeito da minha janela e deixou o sol banhando-os, vejam vocês: Mário e Manuel tricotando ao sol no parapeito da janela do meu quarto.

Achei tão bonito aqueles dois ali e nem me importei se o remédio era o mais eficaz (ainda não tive coragem de voltar a reler). Para mim, o mais eficaz é conviver com os poetas e a poesia.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

ANTÍDOTO

Dê um sorriso
Nivea Moraes Marques


“É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.”
Cecília Meireles


Quase não vejo e ouço as notícias, tenho artimanhas de continuar vivendo.

Mas de quando em vez teimam em me atualizar, às vezes por mesquinhez, outras porque apenas nos encontramos ainda no mesmo mundo.

Mundo de dois hemisférios, como dois irmãos gêmeos de temperamento oposto, um rico o outro pobre, um frio, o outro quente, um repleto de motivos fúteis, o outro pleno de motivos francos...

Mas de quando em vez teimam em entortar o temperamento, e o um imita o outro e o outro imita o um.

Faço parte do outro e sempre me gabei da dor e da delícia de ter sangue latino, de falar a língua do Lácio, de jogar bola, de cantar samba, da sexta-feira em torno de amigos, da presença do jogo de cintura na lida do trabalho árduo...

É besta demais a vida dentro do fio platinado da tela, a vida virtual, a vida desvirtuada...

O que é que informa e constrói essa caverna “Matrix”, esse chão (que não sendo o coração) é terra que ninguém pode pisar ou deveria pisar.

Falta um sorriso para os infelizes...

Não existe um único motivo para se tirar a vida de alguém. Não existe um único motivo para se tirar a vida de uma criança. Não existe um único motivo para massacrar crianças. Não existe um único motivo para se tirar a vida de alguém.

Contudo, falta um sorriso para os infelizes...

Isto não é justificativa, é prevenção. Os psicopatas são uma bomba relógio sem solução. Poderia um sorriso desarmar-lhe os propósitos macabros?

Com quantos sorrisos se refaz um coração?

A tarefa de Deus é tão comprida: consolar os que ficaram e perderam suas vidas, dar morada para os que se foram e viram transformadas suas vidas, julgar o homem que massacrou todas essas vidas...

Sempre peço que Deus troque o coração dos malfeitores, quando ainda vivem. Morto, não consigo rezar por sua salvação (embora saiba que Deus não esbanja seus filhos). Deixo que Deus em sua infinita sabedoria e misericórdia decida se há ainda um sorriso que baste e um porquê de trocar o coração deste malfeitor.

Porque agora tocará somente a Deus um sorriso arrasador, um sorriso abrasador, um sorriso de mãe e de pai, um sorriso de irmão, um sorriso de filho, um sorriso de vizinho, um sorriso de namorada, um sorriso de professor, um sorriso de amigo, um sorriso de médico, um sorriso de merendeira, um sorriso de garçon, um sorriso de flanelinha, um sorriso de padre, um sorriso de jardineiro, um sorriso de motorista, um sorriso de criança, um sorriso que possa trazer um sentido pra vida, um sorriso que lhe ensine um sorriso de Cristo, um sorriso que lhe ensine um sorriso de Homem.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

GINGA-CAPOEIRA CRIANÇA

Safadeza
Nivea Moraes Marques


Sa- fa- de- za
tem tantas letras bonitas
pra quem quer
aprender esta lição

Moço diz
saber de tudo
quanto há,
de modo a não
dar margem
pra senão!

Moça finge não
ser dela o
mapa do
Sei lá, talvez..
Comigo não!

Mas safadeza que se preza
escreve com
letras de brilho
na face de quem
entremeia uma
esperteza no
olho que frita
e outra no peixe

Safadeza esconde
o rabo do gato
e ri com os bigodes
de fora

Safadeza, seu Neném
pensava ser coisa
da vovó

Vovó falava comigo:
Êta meninazinha safada, Sinhô!:
aprendeu bordado,
contar na matemática,
engrupir no inglês...

Vovó reza todas as noites
para a roda de mil anjos
Que guardem, safadíssimos,
meus passos de ginga-capoeira
criança.