ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

PICADEIRO

Panis et circens
Nivea Moraes Marques


“circo
dentro
do pão”

Paulo Leminsk

Porque é preciso desdobrar o pão
para plantar o circo.
E cobrir feito fosse um lago num riso
e o riso num lago de dor.
Que pendesse decrescente
a escada do picadeiro
Como que caindo em queda livre
(sem a rede)
e espolcasse no chão
como um milagre de cores
A operação sem bisturi
na barriga aberta
mostrando víceras lilases
e uma música de coro
com notas em celofane cru

Quando o circo inventasse o pão
Eu comeria a boca e o nariz do palhaço
As pernas do avestruz gigante
E a língua do mágico cantante

Quando o pão compreendesse o circo
a fome sairia de fininho
Pela relva rasteira
procurando plantar-se em planta trepadeira
para tocar o céu
inventar-se chuva
e desabar chorando
um desabitado chão
nascendo brisa, branca, balançosa

Quem a colhesse, enfeitaria rosa de merengue
o cabelo cego da criança

E novamente a fome de rosa choque pintada
forçaria uma entrada
para dar uma pequena olhada
na lona que fez fome e sonho
sonho e lata
lata e nada
virar tudo:
Um toldo azul onde tem laço
onde sem rede, a fome pede
pra dançar e trapezista
inventa códigos
e cai sentada
espalhafatosa
curta e sem graça
na gravata da palhaçada
na língua do mágico cantante
na música torta da gargalhada

Daí começa tudo de novo,
e o pano vai ficando mais curto
a cada mordida da Dona Fome.

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