ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

FELIZ 2012!!!



Há alguns dias escrevi estas palavras, por acreditar que Deus não despreza suas criaturas e não despreza mesmo, Ele nos habita, nos ama, nos cumula de dons e bênçãos e da correção de Pai:

Nunca entendi Deus entre margens

nem entre as margens da infinita reverência

Deus se multiplicou homem

Deus habitou o barro

e nos criou à sua imagem e semelhança


Nunca entendi Deus à margem

pairando absoluto sobre os espaços

Deus quis se derramar pão

Deus quis ser bebido vinho

e mais uma vez se integrar ao homem


Nunca entendi Deus sozinho

e por mais importância

que Deus possa ter ou ser a própria importância

Ele não existe se não existirmos

a pedra pode louvar ao Senhor

mas não com a minha voz

tudo pode dar conta da existência de Deus

ma não com o meu coração


Dentro das tardes mora todo o segredo do Pai
que Ele divide comigo,
nada se importando com a minha estatura
Ele olha pros meus pés
e acha que são perfeitos para caminhar

Por isso ele não se importa com nada
e entende quando estanco no caminho
Ele me diz: “Vem!” com tanto carinho
que eu nem me importo com o caminho
eu quero continuar, continuar ouvindo Ele dizer
pra mim: “Vem!” (então eu vou)


No entanto, hoje refletindo um pouco mais sobre as condições deste ano novo que está às portas, compreendi que de Deus para conosco é assim, nós somos o mais importante em sua vida.
Mas é preciso que no caminho de nós para Deus, Ele: o mais importante pra nós. (embora esse amor primeiro peça que por segundo esse amor se reflita entre nós mesmos).
Às vezes esta sentença: “amar a Deus sobre todas as coisas” chega quase a me oprimir, pois não sei como isso deve se dar.
O anjo vem e me diz: “Deixa o Espírito Santo te conduzir, apenas diga sim!”
Eu quero dizer meu sim, sem receios, sem amarras, infinitas vezes sim, para que Ele enfim desenhe a minha vida de acordo com Seus planos e eu me alegre muito por isso.

Feliz 2012!!!! ... Nìvea ...

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

OBRIGADA, MEU PAI DO CÉU!!!



Perdoa-me se para te louvar a voz é tão baixa, a cabeça enterrada entre os ombros, não se repetem tanto as minhas preces de louvor.



Perdoa-me se para te louvar tantas vezes é em silêncio no trancado do meu quarto, aos teus pés no sacrário, mas nunca meu louvor ganha as amplitudes dos espaços.



Se pra te louvar sou tão pobre, tão miúda.



E repetidas vezes te peço, e nem tão discreta assim.



Nessa balança poucas são as vezes que te encontro só pra te dizer: obrigada!



Escuta a minha voz baixa, a minha vontade branda, a minha intenção curta, mas a hora é sempre propícia para reconhecer que infinitas vezes você não se importa com a minha revelia, com a minha covardia, com a minha criancice, com a minha meninice, com a minha estupidez (por que não dizer também com a minha ingratidão?). Você não se importa com nada disso e continua em sua tarefa de erguer, de limpar, de curar, de consolar, de prover, de abrandar, de encher e de esvaziar.



Mas eu sei também que o Senhor é uma pessoa, e como faz bem ao seu coração um afago de suas criaturas, um beijo de obrigado é sempre mais beijo de obrigado no teu sorriso de Pai.



Obrigada por todos os motivos e pelo motivo nenhum (embora existam muitos, eu não quero motivo especial algum para dizer na companhia de todos vocês:)



OBRIGADA, MEU PAI DO CÉU!!!!!


...nívea...

domingo, 18 de dezembro de 2011

MILAGRE DA TERRA



Caminho pelas ruas conhecidas de minha terra, exercício constante da segurança.

Caminho algumas vezes pelas ruas desconhecidas da minha terra, raramente pelas ruas desconhecidas da minha terra; exercício de reconhecer o não conhecido.

Como se fossem passos por um coração distante (distando meus começos e recomeços).

Não é de se preparar um ano novo, mais novo é o meu coração que teima e teimoso não se importa com a queda, nem com as trincas, quer sair às portas e janelas convidando o sol pra ser sua luz.

Convidando o dia e a noite para terem a sua própria natureza e se revezarem o quanto quiserem (ainda que tenham margens dentro dos tais 365 dias).

Que destinos me bordariam esses pés que nasceram comigo para caminhar?

Sei que todas as horas hão de ser de luta, por todos os espetáculos de que é capaz o sol.

Mas as horas da noite (de um céu despencado de estrelas) há que constar o descanso, um declinar de ombros, um azular o peito (que às vezes feito de vidro como o meu, chora o arrasar das dores, ri também os grãos da alegria).

Suporto bem a causa dos dias, não tão bem, e a espera e a espera e a espera, exercício vão da esperança, que é capaz de construir o mundo.

Da minha terra espero um fruto, um fruto que se rebente em outros. Da minha terra espero milagres, como os que ganharam vida na lavra de outras vidas (por volta de 1970, tempo em que, algum tempo já, nascia).

...nívea...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

UM PRÍNCIPE E UMA PRINCESA NO MAHAL



Trago o teu sorriso bordado no meu peito

Não é uma espera de dias
é uma pausa dentro da última década

Como poderia tanto namorar testar o sabor das bocas
se minha boca só poderá falar um nome
o teu nome
(quando Deus quiser)

Nessa década de pausa, de reflexão
de concordâncias comigo mesma
em silêncio esperei por você

E sempre esperaria

Fico sem graça de prestar atenção
mas é pra mim uma grande alegria
te ver sorrir

Faço festas e preces pro teu sorriso
poemas pro teu sorriso
caminhos pro teu sorriso
(como se jardinasse os passos de teus pés
ao meu encontro)

...nívea...

domingo, 11 de dezembro de 2011

COMO DIZER O TEU NOME



Teu nome
Nívea Moraes Marques

“Queria fazer-te um poema
Mas perco-me no caminho”
Amália Rodrigues

Nas mechas das minhas tranças vou trançando teu nome a mel. Como um castanho mel era a cor original dos meus cabelos, que foram escurecendo junto com a noite.
Escrevo teu nome na palma da minha mão e acalento os sonos do teu sonho, como se fossem pequenas orações de um rosário de cores.
Meus pés gostariam de aprender os caminhos que os teus pés percorrem, para escolher um pequeno trecho e compartilhar contigo essa caminhada (enfim no mesmo sentido), silente ao teu lado, apenas ao teu lado; caminhar.
É tarde, noite alta.
Se eu pudesse te fazer um poema, começaria por teu nome. E aprenderia a te chamar com toda a delicadeza que já sei e a que preciso compreender. Teu nome como uma senha para um mundo que ainda não existe: eu juntinho d’ocê.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

TORPEDO DE BOA NOITE



"Night night
Marina Lima

Love
As we close our eyes
Nightie Night
Love
Whisper no goodbyes


Night
The night is an ocean
Where love can get lost at sea
Good night
When you awaken
I pray you'll remember me

Love
As you fall asleep
Nightie night
My love
Don't you fall too deep
Nightie night

Night
The night is a desert
A desert that we must cross
Good night
I pray that this moment
Will never be lost
Never be lost..."

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

MELÃO, PAPELÃO, C....



Melão, papelão, c...
Nívea Moraes Marques



“O segredo só pedia
que brincassem todo dia,
a alegria era corda
pro brinquedo funcionar.”
gil veloso


Fiz um brinquedo novo
Um brinquedo-dia
Enchi de palavras
As suas frestas
E apertei as porcas
Com música de cordas
Fiz um brinquedo
Que pulsa
Que chora que pede que dorme e acorda
Mas nunca para
Meu brinquedo de menina e menino
Finge que entende as minhas ordens
As minhas broncas, os meus mulambos
Mas ele rola e grita e sorri
Quando e onde ele quer
Meu brinquedo tem casa de carne
E eriça os pelos no vento
Meu brinquedo poderia ser um cãozinho ou um periquito
Mas é tão junto comigo
Que só vivo se ele vive
E ele só vive dentro de mim
Meu brinquedo é ave e não voa
É relógio e não marca
É bomba e não pode explodir
Faço papel de embrulho para guardá-lo sempre novinho
Mas ele envelhece comigo
Teimamos cuidado um com o outro
E temos inquilinos comuns
Não há preço pro meu brinquedo
E não apresso o meu brinquedo
Ele é mais sábio que eu
Eu sou mais sabido que ele
Meu brinquedo bate incessantemente
As palmas pro meu sucesso
Em segredo lhe dou nomes
Próprios
Mas atende mesmo por melão papelão (coração...)

domingo, 4 de dezembro de 2011

MULHERES DE AREIA




Para as queridas que se esvaem em lágrimas pela Ruthinha e pelo Marcos...



A cada vez que te encontro sua face se disfarça em olhos e lábios
que desconheço
aliás, não te conheço

A cada vez que te vejo nada acontece mas é sempre uma novidade
inventamos recomeços
aliás, nunca um começo

A cada vez que nosso caminho parece se tocar
não tocam sinos, mas minhas pernas tremem um pouco
você poderia ter a mesma intenção que tenho no olhar
aliás, brevemente nos olhamos

aliás tudo é providência

aliás quase sou inteiramente tola

aliás "tudo" pode ser unilateral

aliás pouco me importa

se Ruthinha e Marcos voltaram a ter sentido pra mim!

...Nívea...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Noite Azul



Natalice

Nívea Moraes Marques



Simples a luz

o menino vai nascer

é preciso calar para ouvir

seu risinho de bebê



Ele olha para mim

com interesse de criatura



(não se sabe se sou eu

quem invento o que Ele sabe

sobre mim

ou se é Ele que constrói o que

eu sou)



Mas dentro da caixinha

no meu peito

e que move todos os meus atos

É Ele quem faz a música

É Ele quem sopra a letra

(que eu bordo com capricho)



Nem todas as minhas tarefas

poderiam me apartar desse encontro

flor da minha espera

promessa de toda

vida



Nasce agora uma vez mais

trinta e seis vezes na minha vida

(e sempre é uma demora – de anjos

decorada.

e sempre é uma novidade

que o faz Menininho feito todo e tudo

por nós

Deus-pão

lasca do céu

no céu da minha

boca.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Começar de novo



“O tamanho da dor é o tamanho da graça”

Amanhecer pelo avesso
reconhecer-me sã, santa
bicho coisa chuva

Andar por um caminho novo
um caminho meu
caminho pra meus pés não menos dolorido)
me exige revanche
revanche prum medo que mora
dentro de mim

Enfrentar minha própria cilada
minha própria viagem sem mapa
meu primeiro desvão

e descobrir em você uma rosa
(que não era para mim)
ainda assim uma rosa

Em você uma rosa
e em mim?
e depois?
Eu preciso fazer o que é preciso
mas o meu peito é de vidro
(é difícil nascer poeta e ter uma profissão de objetivos concretos
- que ás vezes não me leva a lugar algum)
a poesia é o meu credo
e nas contas menores: amor, amor, amor, amor, amor...

...nívea...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Frevo Mulher



Para ser tua

Nívea Moraes Marques



Debulha a mulher que talvez eu seja

para conhecer a seiva

que me faz tua

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

DEBULHAR MIL AVE-MARIAS



Nesse Instante
Nívea Moraes Marques

“Apeia-te um instante da lombada da terra
E vê das minhas ânsias o íntimo segredo;
Segue o voo da ave da minha fantasia
E me deixa uma rosa de água nos meus sonhos.”
Julia de Burgos

Nesse instante
Em que margeia
Espaços desconhecidos
no meu solo
Não se preocupe!
Fuja das tradicionais cores
Perde a baliza
Corre do medo peralta
Finge que é sempre dia
Finge que há sempre dia

Nesse instante procura
O silêncio da nossa ausência
Transeunte também da cidade
Escolhe a música que poderia
Tocar quando raramente nos tocamos

Nesse instante creia-se a arca da promessa
E eu o anjo
A debulhar mil ave-marias
Só pro nosso amor passar

domingo, 20 de novembro de 2011

Como és Lindo



Hoje fomos apenas eu e Você.
Minha cabeça repousou em tuas mãos
Meu coração não quis nada.
Sou apenas uma mulher e sigo
Te sigo
Quando puder aceitar os tempos
e cobrir com véu os meus cabelos
falarei mais baixo
manterei os olhos mais baixos
andarei devagar
e repousarei outras vezes em Tuas mãos
(porque só Tu para me levares até onde devo ir)

...nívea...

sábado, 19 de novembro de 2011

Hino à Bandeira Nacional



Há dias em que penso que sou brasileira

Há dias, no entanto, que penso ter nascido brasileira

Há dias em que me comovo por esta constatação

e há outros dias em que nem sei porque tenho esta condição

(só sei que não poderia viver longe ou lá, tenho minha língua

tão arraigada nessas terras, tenho minha gente tão amargurada no meu sangue

às vezes não é por orgulho não, é apenas por apego, por este apego profundo

que digo que apenas existo se for dentro das quatro linhas da minha bandeira.

... nívea ...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Para Viver Um Grande Amor



Delicadamente pouso meus olhos em você
Minha voz não sabe dizer o que quero
Meu sorriso não consegue acordar o dia
Sei que é tão impreciso o meu passo
Sei que é quase irreal o seu corpo
Há muito tempo não me interessava esse encontro
Mas a delicadeza desse pouco ar que respiramos juntos
Me dá uma vida diferente
Que me faz delicadamente te olhar
Cuidando (dentro de mim)
Que mesmo dormindo ainda nas manhãs
Eu acorde apenas, para te ver e passar

... nívea ...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

CHOVE CHUVA



Meu feriado foi com chuva.

E a chuva foi minando meu coração (não meu ânimo).

Circulei por muitos lugares no Rio, tomei chuva, encontrei amigas maravilhosas, ouvi Ney terça na praia (sob chuva), tentei dançar forró no domingo à noite (sob chuva), comemos doces em Ipanema (sob chuva).

Mas o curioso foi a convivência (sob chuva) com tantas mulheres de idades variadas e com a mesma preocupação: os rapazes (umas com uma presença excessiva, outras com uma ausência enervante), mas os rapazes ainda são um grande assunto pros cabelos escovados das moças.

Os rapazes representam sexo (elas me diziam entender fundamental esse ponto), mas o que mais me impressiona nos rapazes (claro que não ignorando todos os detalhes que lhes são peculiares) é o outro lado da moeda.

O que pensam os rapazes de mais tão simples do que nós, que a apenas um comando seu, nos tornamos dóceis, nos dedicamos ao lar, queremos ter filhos e desistimos de tudo (ou quase tudo), por apenas um beijo todas as manhãs.

Há alguma coisa neles (fora os detalhes imprescindíveis...) que diz com mais eficácia que qualquer discurso que nos dizemos, amigas de vida toda. Ele diz com mais eficácia, não importa se seja profissionalmente talhado para isso.

Mas, mais do que detalhes imprescindíveis, as experiências masculinas tocam a pele de uma mulher e a fascinam, queremos caminhar por onde não pudemos ou poderíamos, seguras pela mão dele.

Queremos beber esse não sei que mais forte, mais preciso, mais seguro e mais másculo de que não temos em nós, por mais que sejamos, fortes, precisas, seguras e às vezes até másculas... Não importa, esse não sei que não temos (e não se trata só dos detalhes imprescindíveis), trata-se da imortal e inconfundível diferença que nos faz homens e mulheres.

E às vezes uma conversa de uma hora, talvez nem isso, nos faça ter a certeza de que os meninos sabem infinitas vezes mais aonde uma menina deve ir (de preferência ir com eles) embora isso eles não digam (e em sua “intuitiva” forma de ver e pensar o mundo) seja o que as meninas entendem de sua forte, precisa, segura e máscula palavra.

Reedição com música, porque assim é que deve ser



Árias Pequenas. Para cantar
Nívea Moraes Marques

“Rama secreta”
Hilda Hilst

Desenho o teu olhar doce
Para pífaros de crianças pequenas
Ainda assim há um aroma sensual
(que não perdeste)
E que ainda assim
Se despe pecando menos
Explícito só o meu desejo
De que tenhas a chave
E se demores mais
No calado do meu colo

domingo, 13 de novembro de 2011

BITUCA

“como se fossem ao Êxodo”
Adélia Prado

Poucas horas depois de sábado. E sábado foi aniversário do meu pai. E fomos todos juntos ao show do Milton. E vimos a chama da voz do cantor apagar e acender. Meus pais conheceram um Milton bem jovem. Meus pais também foram já bem jovens. Nem eu sou mais bem jovem... No entanto minha natureza ainda sorri dentro do tempo, sem esperança, com esperança. Minha carne poderá até se multiplicar, no entanto minha alma já deu graças e se partiu em mil pedaços, desses que vocês podem ler, que vocês podem guardar, para que um dia, talvez, faça sentido (apagando e acendendo esse não sei quê, que pouco vale mesmo sendo raro, e que se chama arte.)

Beijo Milton, te amo! Você canta a minha vida como tantos e raros poetas, e é tão especial pra mim (porção da minha herança), fiquei feliz em te ver bem e principalmente porque você cantou, só pra mim, Encontros e Despedidas (será que ele lê meu blog?)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Encontros E Despedidas



Minha vida morreu. E como uma semente que quer brotar, sente a terra, o solo, o chão. A música rega o coração da semente (que sempre acredita na possibilidade de renascer).

Milton sabadão à noite para celebrar renascimentos!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

SORRISO DE CRIANÇA



O único sorriso

Nívea Moraes Marques





Cada sorriso esconde e revela.



Cado sorriso põe uma surpresa dentro de uma caixinha.



Cada sorriso empresta um azul profundo para meus olhos.



Cada sorriso despista as marés e enche de cores salgadas,

prorrogando o vigor das manhãs.



Cada sorriso é mais uma forma de nascer, é mais uma resposta

para aqueles que caminham todos os dias.



Cada sorriso pode dizer mais que qualquer palavra,

apenas presumindo e refazendo o passeio da delicadeza.



Cada sorriso emoldurado informa

a doçura do que é divino no que é humano



Cada sorriso não é nada mais que um sorriso,

mas é, talvez, o único sorriso que sorri em mim.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

À maneira de Eduardo e Monica



À maneira de Eduardo e Mônica

Ir e vir, sincronicamente Sincronicamente meus pés pisam os seus(não sei se saberemos dizer ou dançar pés X pés)De todo modo, eles se cruzam (quantas vezes a nossa própria revelia)nas ruas
Na areia, no solo do meu país.

domingo, 6 de novembro de 2011

NO CARITÓ



Fiquei para tia
Nívea Moraes Marques

Desde que estavam no ventre de sua mãe
Eu os declarava meus filhos
Embora nunca soubesse como os educar
Numa pose meio gaiata
Finjo dar-lhes disciplina
Mas dou-lhes colo
E ás vezes uma voz um pouco séria

Quando penso que estou
No campo do que é sobressalente
(Nunca no coração desses pequenos sobrinhos)

Mas algemada no meu próprio leite
Ainda procuro a luz de cedo manhãzinha
Que me acorde, tonta,
(nos olhos teus)
Abertos religiosamente
Uns três minutos antes
Só para primeiro ser aquele a me dizer:
Bom dia!

sábado, 5 de novembro de 2011

Back to the 80




Meu sonho num navio
Nívea Moraes Marques


“Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar”
Cecília Meireles


Crio reinos de alegria
Com as letras a lápis
Que imprimo
No meu solo
Não há margens
Nem caminhos
Pro meu sonho
Há pés e remos prontos
Para a viagem

O TEU OLHAR DOCE

Árias Pequenas. Para cantar
Nívea Moraes Marques

“Rama secreta”
Hilda Hilst

Desenho o teu olhar doce
Para pífaros de crianças pequenas
Ainda assim há um aroma sensual
(que não perdeste)
E que ainda assim
Se despe pecando menos
Explícito só o meu desejo
De que tenhas a chave
E se demores mais
No calado do meu colo

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

GRÃO



Aníbal, Dondinha, Edair, Eugênia, Inéia, Kátia, Lidinha, Patrícia, Rodrigo, tio Tião, vô Joãozinho
Lembro com a morte desses queridos a vida que me enche de lágrimas os olhos
Refaço seus caminhos comigo e convido Jesus para nos acompanhar nessa jornada
A cada missa estamos unidos, ainda que distando intransponíveis mundos
Rezo por sua salvação, parentes e amigos que intercedem por mim
Vida que vive ainda que escondida no pão
Quero comungar nossa vida
E encher de significados sãos
A vida do hoje para sempre
E escrever no livro da vida
Todos os nomes que eu souber
Todos os nomes que eu puder
(até dos meus inimigos)
Para ensinar à morte que todos eles vivem
no bordado da minha letra, também porque
partiram do esforço da minha mão
(um irmão é entregue pelas mãos de outro irmão)
Alcançando de Deus, numa única palavra, uma segunda ordem:
VIVE!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

SALMOURA



Moraes
Nívea Moraes Marques

Meus pés transbordam delicadeza pintados à mão
para bordar o chão da dança
Meus olhos mouros
tem um castanho claro emoldurado de negro
que ilumina essa benigna sedução
Ao me observar, já não somos mais os mesmos
estamos costurados à música
e vamos nos aproximando, sem nos tocar
os aromas de café, dos números arábicos
das cores sem fim azul marinho e magenta
da esperteza da linguagem
se apertam nos nossos perfis
somos outro povo, dentro do povo
cotidiano
somos outra terra, dentro do solo
do Brasil
acolhemos nossa bela ascendência
num caminho de regressos
num paladar de hortelã
e num sonho cheio de véus
cobrindo de névoa essa noite
mil em uma
noite
a dos nossos perpétuos votos.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

FRUTA BOA



Madurar
Nívea Moraes Marques

Para expandir minha seiva
E formar o fruto, exposto à criatura
Tenho que crescer por dentro
E renovar a força
Que me faz madura

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

ABRE ASPAS

"Se você não se atrasar demais, posso te esperar por toda a minha vida."
Oscar Wilde

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

NOCTURNO



Piano Súbito
Nívea Moraes Marques

"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”
Olavo Bilac

Fique em silêncio
(eu silente ao lado seu)
Olhe atento para a trilha
Que cada lágrima seca
Faz nos caminhos dos
Meus olhos

Fique em silêncio mais um pouco
(eu tranqüila e nesse silêncio
um pouco mais sua)
E se aconchegue no perfil
Do meu corpo

Procurando conhecer o nosso tempo
Feito fôssemos duas esculturas

Quando menos esperar
Tumultuo brandamente
Esse pulso sem palavras
Cubro de beijos toda a
Sua face (começando
Pelos caminhos côncavos
Dos seus olhos)

E o meu gesto
Te surpreende e delicado
(num crescente e recuo)
Na beirinha dos meus lábios
experimenta meu amor
simples e vibrante
como um piano súbito.


Hoje no ensaio do Coral da PMBM, a Gláucia explicou com tanta simplicidade e acerto o que é um “piano súbito”, na hora eu falei para a minha companheira de naipe e amiga, Gi, que daria um poema. Realmente deu, não sei se tão belo quanto a explicação da Gláucia, mas do mesmo modo sincero. Dedico à Gláucia, à Gisele e ao meu amado (aquele que virá como benção de Jesus, Maria, São José, Santo Antonio, Tobias, Sara e o Arcanjo Rafael) e eu mesma me relembro: “Deus não demora, capricha!!!”

domingo, 16 de outubro de 2011

LITANIA DAS MOÇAS



Litania das moças
Nívea Moraes Marques

Roguem pelo céu
Que habita cedo no moço
De meu coração.
Manda meu Sinhô
Um anjo bem mandado
Para guardar os sorrisos
Desse moço
Por quem eu bordo
Fronhas
Desde que nasci
Por quem eu aprendi
A dançar
E a conversar
Em línguas estrangeiras
Só porque assim poderia ser mais perfeita
Ao seu lado
Por quem hás de inventar
E nascer outras vidas
Do meu frágil
Corpo de porcelana
Esse moço
Me faz colocar bobes no cabelo
Me faz pintar as unhas
E rezar novenas
Ave-maria se o encontrasse hoje
E o encorajasse a ser novelo
Cada fio um sentido e uma beleza
Nova para as minhas tarefas
Cotidianamente pousaria minha cabeça
No seu colo
E o convidaria a dar passeios
Longos
Pelo meu sonho
E se as horas fossem poucas
Deixaria que o peso de seus olhos
Fechassem os meus por uns segundos
E dormindo as tardes de domingo
Acordássemos de novo
Para nadar no fundo do dilúvio
Carregada de azuis da aliança;
Deus de novo conversaria
Com a criatura
E prenderia o céu
Nas nossas alianças
Pois é no peito da moça
Que nasce a família
Primeiro é assim
(nos seus bordados)
E depois é que chega o moço
E empresta o tino
Para que do delírio e da bela fazenda
Em que se borda
Faça-se o sol para ser
Faça-se o tempo de ser
Faça-se a chuva que molha
Não o chão, mas o solo do Pai
(que a cada dia espera mais um encontro
Mais este encontro
Pra ter fé, para exercer a fé
na sua própria
Criação.)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

UM TETO PAZ E AMOR

A palavra não dita
Nívea Moraes Marques


A palavra não dita causa escoriações pelo meu corpo
Como se caísse de uma longa escada
Que liga o plano ao morro
Morro nesses dias em que gasto palavras
Com o fazer dinheiro
(E tão pouco)
Dinheiro não compra palavra
Palavra não compra dinheiro
Fujo desse destino torto
Enveneno palavras com sangue são
Para que em hemorrágica cena
Se esparramem
No chão do não
Nada do que se decompõe
Em notas
Eu traduzo em terços as minhas palavras
Que não estão á venda
São bicicletas de aluguel
Piparote
Doce de leilão de quermesse
E sob as bênçãos de Deus
Ainda me permitirão
Um teto, paz e amor.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Mãe do céu morena



Minha mãezinha
Nívea Moraes Marques

Minha mãezinha,
da beira do seu manto
faço um lencinho
para deixar cair
gentilmente
as minhas lágrimas de devota

Mãe quantas coisas quero te pedir
e talvez a mais importante:
Me ensina a ser mãe
Mãe das crianças que me foram confiadas
Mãe das crianças que me serão confiadas
Mãe dos adultos que igualmente estão sob meu patrocínio
A vida de uma advogada é interceder
É lutar
Mas às vezes estou tão cansada e sem estímulo
Mas não posso me esquecer que carrego no meu próprio
Ventre a tua missão

Mãe me ensina o teu sorriso
A tua amizade com Deus pai
O teu repouso no Espírito Santo
A tua meiguice de filha e mãe de Jesus

Mãe já te pedi tantas vezes e consagrei a minha tarefa de dizer
à sua messe de benefícios
Hoje eu renovo meus votos

Eu quero ser mãe ao dizer, ao encontrar, ao pronunciar e escrever cada palavra
Para ser tua
Para ser modelo teu
Feito objeto fabricado com selo de origem
(Nunca quero um sorriso que não seja um sorriso teu)

Meu coração, envolto por um filózinho feito fosse pão de açúcar,
Envolto está por tuas mãozinhas
Cultivado e regado, arado, cuidado, sazonado por todos os tempos
Que tu Conjugas, mãe
Especialmente por mim,
Mãe querida da minha nação, mãe do meu Brasil, minha mãe aparecida no vale
em que habito.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

BONECA RUSSA



Felicidade é ser criança
Nívea Moraes Marques


Mora um anjo no meu peito
E meu amor desconhece isso
Beija meus lábios mil vezes
Para descobrir
Que no meu peito mora um anjo
(Um anjo que se chama solidão)

******************************

Guardo teu retrato no baú dos meus
Brinquedos
Tempo em que a tua lembrança para mim
Não existia
Mas justamente foi quando
Começou a existir

*********************************


Deus sabe a razão porque peço
Ser menina para sempre

Deus sabe a razão porque brinco
Com as palavras
E detesto ter de mudar de brinquedo

Deus sabe que já é hora de inventar
Em mim uma outra vida
Mas ele me esconde o segredo do pique

Por enquanto pega só no meu sonho
E nas minhas preces
De menina.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CRUZ CRAVEJADA DE BRILHANTES



A alma pede pelo corpo
Nívea Moraes Marques

“Não queremos aceitar o fato de que o sofrimento é necessário para nossa alma e de que a cruz deve ser o nosso pão cotidiano. Assim como o corpo precisa ser nutrido, também a alma precisa da cruz, dia a dia, para purificá-la e desapegá-la das coisas terrenas. Não queremos entender que Deus não quer e não pode nos salvar nem nos santificar sem a cruz. Quanto mais Ele chama uma alma a Si, mais a santifica por meio da cruz” (Padre Pio de Pietrelcina).

Não entendo a cruz de cada dia e a suporto pouco. Me revolto contra ela, como um peixe que é lançado na areia da praia com um fio de vida.
Sei que se Cristo tivesse rejeitado sua cruz, eu hoje não teria sequer esperança, não poderia ter uma alma imortal que almeja o céu e num futuro-mistério um corpo glorioso ressuscitado.
Sei que Cristo é o modelo que devo seguir, é o perfil que tem de se ajustar ao meu, o que então fazer com o pão da cruz? Cravejá-lo de brilhantes e pendurá-lo ao pescoço?
Meu Deus, nem na arte nem em qualquer outra pessoa reside a verdadeira felicidade, apenas no Senhor, esses são os ensinamentos do verbete 1723 do catecismo da Igreja.
Por outro lado, o Senhor me abençoou com alguns dons, pelos quais eu terei que prestar contas. Há uma razão de ser para a minha vida (tudo bem, seja conhecê-lo mais e ser cada vez mais apegada em ti), mas os meios para isso passam por nossa missão, passam pelas pessoas com quem convivemos, passam por nosso coração, passam pelas nossas realizações, passam pelos nossos projetos na vida.
Senhor eu não quero desviar-me da cruz necessária, mas eu quero me aproximar daquilo que em mim precisa ser carne (porque por enquanto vivo neste mundo), precisa ser corpo, precisa ter forma, precisa ter casa, precisa amparo, precisa sentir o sentido que o Senhor mesmo semeou no campo que passa por todos os estados da parábola do semeador, e ainda assim quer se estabilizar plano, fecundo, arável, propício.
Minha alma pede por meu corpo: salva-nos!

domingo, 2 de outubro de 2011

COMEMORATIVA DOS ANIVERSÁRIOS



Já comemorando o aniversário da blogueira e do blog, convidei dois poetas para acender a palavra, assim como convido diariamente a todos vocês que se unam a mim nessa tarefa: acender para ascender, a palavra, é claro!rsrsrs

Abração em todos! Nivea.



A PALAVRA
Tânia Tomé – Poeta moçambicana, nascida em 1981. Participou da antologia Um abraço quente da Lusofonia e publicou Agarra-me o Sol por trás (Ed. Escrituras, São Paulo).


A palavra quer deitar-se
sozinha, reflexa
contemplar devagar
o sol que morre ao silêncio
Não há pressa, não há medo
A palavra quer morrer
quantas vezes for preciso

*************************************
Quantas vezes for preciso
Nivea Moraes Marques

Quantas vezes for preciso
A palavra há de nascer no solo do meu peito
E se a hora não é propícia
Há de saber calar.
E se a hora é propícia
Há de saber dizer
E te tocar tão fundo
No íntimo do homem que
Você quer ser
Crescendo baixinho nos ouvidos
Surdos, nos ouvidos mocos
Nos ouvidos que exigem ainda ouvir
Uma palavra que se presta
Não importa se para a morte e para vida
Para vida de ressurreição
Para a vida simplesmente
Simples como quem acorda e sai a passear
Movido por esta porta aberta: palavra bendita
Como um cãozinho que entra na igreja
E deita no tapete do altar para viver a
Missa.

************************************

Como a um pássaro
Nívea Moraes Marques

alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.
João Cabral de Melo Neto

Desabrochei a dor no meu peito
E deixei-a habitar como a um pássaro
sobrevivente silvestre, pois não o engaiolei
Nem o alimentei,
nem dei de beber água fresca

como a um pássaro que caminha
beliscando minhas bochechas gordinhas
meu sorriso amuado
minha solidão habitada

a dor desabrochada, convidou-me a fazer aniversários
veste-me chapeuzinhos de crepon
e ri das minhas saias de prega macho

mas ainda como pássaro inteligente
ela migra no tempo frio
e eu tenho algumas estações de intermitente felicidade
(felicidade clandestina)

De repente alguém me agradece
Um gesto
Alguém me sorri gratuitamente
(ou apenas dois menininhos batem palmas
Pro meu esforço poético)

O pássaro rubro regressa
E já então posso colocar-lhe
Um pires de água e outro de alpiste
Porque meu peito agreste de dunas
Já mais fácil pode suportar suas asas de ferro
Batendo contra meu estofo de vidro.

sábado, 1 de outubro de 2011

O AMOR É O MEU PAÍS



Desde que você venha
Nívea Moraes Marques

“Quando não tinha nada eu quis
Quando tudo era ausência esperei”
Chico César


Hoje já é primavera
E não me importa a estação
Desde que você venha

Me importam seus passos
Seus pés de elegante passo
Tardas, só um pouquinho

E a espera é uma gravidez
De esperanças cruas
De esperanças dentro
Da minha língua

Onde as palavras brotam
Donde as palavras pedem
A tua saliva doceamarosal
A tua saliva sã
A tua saliva sagrada de esposo

Desposada, todas as minhas saias
Serão tuas
Tuas tardes de sol ameno,
Sol de demanhãzinha
Sol de menino trazendo outro menino

Sol emoldurado nos porta-retratos na estante dos livros
Pendurados e cheios de orelhas
Historinhas desenhadas à margem
Que Deus vai inventar
para apenas continuarmos
Ad immortalitatem tantum.

sábado, 17 de setembro de 2011

ÓCULOS PRA LOBO



Mora na Lua
Nívea Moraes Marques

Na lua de Guigui mora um lobo de boca aberta.
Na lua dos meninos de ontem era São Jorge que morava, montado em seu cavalo a vagar pela vastidão da noite.
Guigui se esconde da lua, mas seu irmão, Capitão de laços e espada, o protege da mordida do lobo.
Quando a lua está minguante, o lobo apenas balança a cauda, sem dentes. Como se fosse pedaço de nuvem ou pelo branco de Rusk, a Sibéria num mundo quente, derrete. Derretendo os medos do pequeno Gui.
Mas se engorda a lua, vem a matilha uivando pra dentro do sono brando do menininho.
Guigui não acredita que o homem visitou a lua, tem lobo demais lá, nem mesmo os americanos dançariam com tais lobos.
Chama vovó, chama a bisa, chama a titia e a mamãe, cercado de tantas saias, espia num cantinho de olho a vila dos lobos uivantes e jura não contar carneirinhos nesta noite de lua cheia, porque não há de sobrar um para lhe contar histórias de “urubu não ir”.
Penso que ao crescer esse menininho vai ter uma namorada, e a lua desabalada vai tentar ser companhia e ele peralta, com uns óculos coloridos, Gui vai encarar os lobos de pelos punk e descaradamente vai fazê-los panda, vai fazê-los micos dourados, vai fazê-los tantos palhaçados que um a um em roda declinará o nome das crianças assustadas que da lua reclamam a morada para o saudoso santo guerreiro matador do dragão.
O rescaldo dos vadios lobos brancos (curtidos no balde de cores de um Guigui gaiato, que pela namorada, encara a lua de frente com as suas quarenta e duas polegadas e em cores, num filtro rapaz, recém-saído da barra das saias e do vulto de seu forte irmão capitão), escaldados, os lobos em fileirinha, com rabos para sempre à míngua ensaiam autos de ninar, cumprindo nova função no céu azulado do menininho Gui: arregimentar carneirinhos e vigiá-los inteirinhos só para o sono crescer e crescer o nano Guigui até surgir o seresteiro das noites enluaradas: Guilherme com a sua amada, iluminados pela tal de lua e toda a sua corja de lobos e santos. (sempre será melhor apenas estar sob lua – e à certa distância - em noite alta)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

DONA IVONE LARA & NÍVEA



atarde
Nívea Moraes Marques

Cada estrela é um pontinho de luz
Que deixa a vida
Diante do sol

Solda de sincrônica mola
Acende apaga
Morre renasce
Escorrega nesse caminho
que Deus nos fez conhecer
Porque a vida não é sempre o dia
 e a dor não é sempre noite

Entre amanhecer e anoitecer
Há a tarde
E a tarde é meio
quente meio
Fria

A tarde é meu tempo
Pra acalentar o filho
Que o próprio tempo me faz gerar
E parir
Pura melodia
Pura nostalgia
Puro banzo
Pura revelia
De sentidos
E sentimentos

Pois a tarde nunca é tarde
enquanto ela não tem fim.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

MUDA A ROTA NIM VOCÊ



Açúcar do centro da beterraba
Nivea Moraes Marques


“A coisa mais fina do mundo é o sentimento.”
Adélia Prado

Esses dias me trouxeram as mãos cheias de sentimento.
Voz que preciso ouvir; melhor, voz que não quero ouvir. Melhor, voz que se ouvir volto a adoecer de um banzo pura poesia.
Nesses dias pergunto a você, onde meu novo amor? Corre as ruas, dorme breve sono, pisa águas de poças, suja sapatos crus e luta com palavras cruzadas para poder também dizer, como mais ninguém diz, o meu nome.
Tais dias o leão que espreita a minha mentalidade abre um olho e fecha o outro, quase abana o rabo e ensaia a majestade em quatro patas erguida, mas me controla a medicina, não posso o voo descendente que te procura, passado passando, teia de vida que me protege e me aparta, não podemos estar juntos e sós, o mundo de meu Deus é tão maior que nós (embora tão menos delicado).
Sinto sua bela voz dizendo Nívea e é como a gênese dessa historiazinha, dessa história minha, dessa história que é a gênese da poeta em mim, foi do açúcar do centro da beterraba, foi do miolo da flor selvagem e estranha que dormia calada na minha boca.
Não podemos nos tocar, não podemos nos ouvir, há uma rota nova no coração do peito nosso, uma amizade velha, do verbo inexplicável da antiguidade de nossa relação: podemos ser amigos simplesmente.
Você a cada momento prova o novo e vive e vive, eu parei naquele instante e peço apenas a Jesus me dê uma nova vida. Me dê cor nova para meus olhos, me informe interior novidade, me dê um homem que delicadamente apague essa luz e incendeie os dias novos do presente.
Quero que meu coração mude a rota nim você. Pois a essas horas eu também preciso de um amigo que nunca será um, será um duplo céu coberto, protegido do cheiro das distâncias percorridas e a percorrer.
Preciso de um amigo, embora não saiba medir sua estatura. Embora não saiba medir os ml de água pura que apagariam esse fogo, gênese da destruição da minha ingênua messe, da minha pequena árdua tarefa.
Quero olhar essas lindas tardes desejosa de tê-lo feliz, com quem estiver e se um dia te reencontrar, apenas te dar um singelo e meigo abraço, envolvendo a tela que nos separou sem praguejar, sem reclamar propriedade, propriamente.
Amigo, perdoa o meu sem jeito, recebe este meu novo abraço. A vida sem explicação, ainda é melhor que a vida dos que teimam com ela.

domingo, 4 de setembro de 2011

AFILHADO

Travesseirinho fofo de macela
Nivea Moraes Marques


“One, two, three, four, five, six, seven, eight, nine, ten”
Pedro me surpreende aos seus quatro anos
E sua maturidade lingüística
Sabe contar em inglês
No entanto, no colo de sua dindinha
Recorta figuras de anjos e super-heróis
E cola no meu decote
Convidando a brincar com a gente os primos que virão
Pedro inventa em mim um verbo incontável
Que é verso soprado por brisa de inverno
Meu coração tiririca de frio
Tricotando meinhas e casaquinhos
Na esperança bonita que é mãe
Que é mãe coruja
Que apenas cozinha em seu caldeirão
Letrinhas e coração de carneiros
Maria Clara picada aos pedaços
E Pedro derretido em azeite
Aromatizado
Mordo essas duas figuras
E informo aos meus futuros filhos,
Antes deles, (de mãos dadas e cara suja)
Dois molequinhos me compreendiam em verso
Tia dinha é menos que mãe, é irmã do pai
Mas é singular da coruja solteira
(que nunca migra, que nunca esquece)
Que é sempre a boba que nunca ouviu
A escalada dos números em inglês
Ditos por esse Pedro, mais que meu filho,
Travesseirinho fofo de macela
Onde durmo todos os meus sonhos

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

TEMPO PRESENTE



Agraciada
Nivea Moraes Marques

“Queria que fosses feliz
uma água calma a inundar
a sua margem de carinho
um peito aberto a quem chegar”
Milton Nascimento

Hoje enxerguei uma coisa sobre mim, uma verdade que se esconde repetidas vezes sob a novidade: eu não sei ganhar um presente.
Fico sem graça, não sei o que fazer, onde por as mãos, digo as maiores bobagens, prossigo a quase recusar o mimo.
Não sei ganhar presente...
Com motivos ou sem motivos vivo me defendendo da vida. Meu escudo guerreia por mim num túnel prolongado onde não existe paz. Ofendículas rasgam minha língua, os meus pelos, os meus cotovelos, rolo, grito e não me sinto à vontade quando a vida se entrega, preciso sempre estar dentro de mim.
Engraçado que hoje, no mesmo dia recebi um elogio do meu Procurador Geral e um anel da minha professora-maestrina de canto coral (vida me entregando suas prendas) e bastava um muito obrigado!
Mas o adiantado da hora no relógio da boa notícia me pega desprevenida e saio quebrando cristais, minha cara cai no chão e o abrigo pro cuidado de amigo tem que passar por uma porta tão estreita do meu sem jeito.
Meu peito tem uma chave que precisa destrancar.
Com doce autoridade meu último grande amor abriu às escâncaras meu coração, mas não vivemos adiante para experimentar esse novo estado de mim.
Regressei ao tempo do eu-menina, tempo das dores sem explicação... Regressei ao tempo do eu-senhora, passo das dores para a compreensão. Regressei com a capa de chuva cheia de furinhos que chora meu sorriso, um tom pastel de imensa intimidade e timidez.
É preciso que eu treine situações de graça de graça. É preciso treinar o simples de ser agraciada.
Hoje eu ganhei muito e quase pedi pra morrer, andei vinte casas para trás.
Agora me redimo de tudo: no elogio uma ponte da amizade, no anel uma aliança vitrificada para ficar no lugar da aliança quebrada.
Tudo rastreia confiança e ternura, um caminho para a entrega em peito aberto, ainda que meus passos inseguros não tenham me posto novamente aberta a céu aberto.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A CÉU ABERTO



Amor a céu aberto
Nivea Moraes Marques

O amor instalado no meu peito dói
todas as tuas ausências
Reclama de volta a chave
do coração aberto
a céu aberto

*************************

Beijo de ninguém
Nivea Moraes Marques

Meus lábios não perderam a cor
Beija flor pousa
E brinca de beijo
Beijo que nunca mais beijei
Ninguém...

*************************

Mudas de sol
Nivea Moraes Marques

Piso as minhas próprias pegadas no chão
Há um caminho para prosseguir em paz
Há um caminho que se faz para aquele que chega
E planta mudo mudas de sol no meu jardim aguado.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

DENSIDADE ZERO



Densidade do sonho

Nivea Moraes Marques



"a densidade
menor que a do ar."

João Cabral de Melo Neto




Conjugo viagens para o centro

de mim mesma



E fico pensando como é besta

um sonho que não cede



Meu Deus me olha

e constrói com cristais

mil sorrisos pra mim

mil sorrisos de mim



Onde moram meus anjos?



Amo minhas crianças mais que a Deus

E os quero amar

como que passe

através

meu amor de Deus



Tantos medos de por isso

perder-me deles

(O primeiro mandamento

é a minha primeira queda

é o meu primeiro laço

é por onde talvez

meus pés descalços

passeiem sobre os canteiros

das flores cultivadas

por Deus

e então Coloridos e cheirando jasmins

pisam o chão com a firmeza

de um dia acatar com doçura

as estreitas margens do céu)



E o meu sonho dorme um pouquinho

essa tensão que não cede

afrouxa

retesa

e nunca se lacera



A cada hora, confirma-se a hora certa

a hora esperada

meu olhar lambido pede o que nem avista

e finge não se importar com a falta

com a fala muda

com a realidade farta

com tanto peso que nem ao ar

sequer se impõe

como se fosse espaço

como se fosse queda

como se fosse apenas anjo

de saiote bordado.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

UVAS PARA OS NETOS

Orgânica
Nivea Moraes Marques


Passados tantos séculos
ainda acordo dentro da noite
para observar este espaço
vazio
que deixou seu corpo
em rua absoluta
em luta absoluta
sem trégua nem finalidades

Suas meias, pouco tabaco
seus jornais, seus cadernos
de anotações
Tudo está dobrado
e em seu lugar, como antes
como sempre

Não quero deitar-me viúva
e acordar morta
Não quero deitar-me morta
e acordar viúva

A vida com seus rebentos
abstive-me, você sabe
(só tuas coisas, aquelas que foram indo
foram ficando, me pertencem e me acompanham)

Dentro de uma cidade ausente
Dentro de uma cidade magra
Dentro de uma cidade inexistente
vivo para vida dura, agressiva e
urgente

Minhas saias foram bordadas a sangue
(sangue seu)
Meus lenços acenam para voltas
_ Voltas!
_ Voltas?!

Cultivo ainda mil sorrisos, porque a colheita vem
tão logo todo esse inverno passe.
Minhas mãos, enquanto isso,
revolvem a terra plantando mudas imaginárias
que germinarão sonhos e desvarios,
os quais a todos experimentarei
E quando envelhecer, estou segura,
minha casa será cheia de netos
Eles farão bingos com os rescaldos desse tempo surdo
de suposta desfaçatez
Meus netos provarão as uvas do meu amargo arrependimento
e fincarão estacas na terra em que plantei meus pés de vento.

domingo, 12 de junho de 2011

PARA TODOS OS TORCEDORES



Mr. Buster não entende...
Nivea Moraes Marques

“Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?”
Vinícius de Moraes


Hoje quem tem o seu amor que cuide de adubá-lo, que cuide de fazer uma covinha em volta e aguar todos os dias por incessantes sete anos (de preferência pela manhã)...

Hoje quem tem um amor deve compreender em si o tão carinhoso de Pixinguinha e ter um coração todo sorridente que bate mais forte, porque simples assim, “quando te vê”!

Hoje quem tem um amor entende mais um brasileirinho que nasce e que se já não nasceu do seu amor, ele simples assim, poderá também nascer...

Hoje quem tem um amor deve pisar macio na grama, descalço na grama, e sentir sob os pés um chão todo verde, um chão que frutifica e fecunda a casa que se constrói, pouco a pouco, para abrigar esse tão frágil amor.

Hoje quem tem um amor deve comprar presentes sim, deve comer bombons, deve escolher flores, deve ouvir música, deve jantar fora, deve beijar quieto, deve amar a paz (mas não pode esquecer os dias de cão e de cadela e sorrir de rabo de olho com antídotos e mezinhas que só quem tem um amor sabe inventar nos dias vãos...)

Hoje também quem torce para o botafogo (mesmo sendo flamenguista como eu) não deve se acabrunhar, deve acender velas para Santo Antonio, deve iniciar novenas para São José, deve andar nas ruas observando os casais, sem medo de ser uma estrela solitária (hoje já não há mais tempo nem para arranjar um namorado de aluguel), deve observar os modos, deve guardar em si cada sorriso, porque se gripe alastra e dengue se combate no coletivo, o amor também há de ser assim.

Por isso coleciono cada história de amor perfeito ou perdido (até as minhas próprias) e vou catalogando as imagens, meu arquivo incrementa meu imaginário como fruta que amadurece sem amargura, porque eu creio, creio do mais fundo do meu core que há de vir a mim, que haveremos de ir e vir, então de maneira sincronizada.

Faz um frio danado em Barra Mansa, mas não escaparás da sedução da minha paciência!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

TRISTEMENTE, AINDA ROLAM POR VOCÊ



Olho d´água
Nivea Moraes Marques


A música que ouço é um olho d´água
que à flor da pele é a flor da água
Feito saliva pingando
Calcula um punhado de sal e um punhado de açúcar

Sei que os limites que eu traço
beiram às pálpebras do meu sonho

O sonho que durmo
tem margaridas regadas por música

Música que nasce feito olho d´água
Serpenteia e irriga as veias
que transportam as seivas
fabricantes das lágrimas
todas as lágrimas
que tristemente
ainda rolam por você.

domingo, 29 de maio de 2011

MEU CORAÇÃO NÃO CHORA, DESNUDA-ME



Ao encontro
Nivea Moraes Marques

Declaro meus pés ao meu amor,
Ele me vê cada dia mais perto
(Aproximando-se pé ante pé)

Tenho medo de ir até o meu amor
Sei que ele deve vir

Cultivo há uma década uma castidade de vozes
Uma economia de gestos
Uma simplicidade angustiosa

Decantando desejos
Para purificar meu peito
Meus braços
Meu ventre

Livre de todas as pegadas.
Branca
Para uma inauguração austera

Princípios e corolários da preparação
Sou Tatyana em pose de preparação
Para delicados carinhos, para atenções sinceras,
Para pureza de propósitos

Para que se case em mim um homem
Cuja mão (na minha pele)
Belisque a irrealidade do que sou
Tateando tantas virtudes (para ele
fabricadas)

Não brinco de ser uma pessoa nova
Estou em estado puro de pedra lapidada
Por intemperismos
Por chuva também e sol e ouro e prata
(fundições e esfriamentos)

Firme sobre o meu alicerce
Minha fé não depõe contra mim
Antes me informa
(Que para tanto pranto
A calada hora simples chega)

Tuas mãos secam meus lábios
E a música e a dança
Que se deixam desprender então
Faz de nossos pés
Somente o caminho
Somente um caminho
Que caminharemos juntos.

____________________

Ao lado deste amor mora um anjo
Um anjo que se chama solidão
______________________

Cortado em camadas,
meu coração
não chora,
desnuda-me.

domingo, 22 de maio de 2011

ESPERANÇA LATINO-AMERICANA



Nem tudo está perdido
Nivea Moraes Marques
Para Ernesto Che Guevara

Quando recebo de outras mãos o
alimento sagrado do dia-a-dia
e este sustento
me faz progredir nos dias,
nem tudo está perdido.

Metal para o meu travesseiro
O anúncio da aurora
A vida do homem em outro homem

Tudo o que foi feito de humano solo
Neste solo que te fez homem
Me une ao solo preciso
Latino-americano

Deste sangue que doaste sem querer
Deste sangue que tomamos
Deste sangue seu

É para isso que digo que a minha meta
Para ser humano é escrita por infinitas
Palavras
Mas hoje basta uma,
Agradecida.
Agradecida por construir em mim um sonho
Um solo
Latino-americano
(Que invento e inventa em mim palavras,
Mas hoje basta uma,
Agradecida.)

domingo, 15 de maio de 2011

"MEU MELHOR AMIGO É O MEU AMOR"



Bendito
Nivea Moraes Marques


“Não trabalharão debalde,
nem gerarão filhos para a morte repentina;
porque serão uma estirpe de benditos de Javé,
eles e os seus rebentos com eles.”

Isaías, 65,22


Tenho um amigo oculto:
meu amor.

Às vezes Deus tem umas rusgas
comigo
por causa dele

A que ponto chega o ciúme de Deus?

Deus que é o exclusivo
se abate só de pressentir descuido, desproteção...

Há uma atenção de criatura para com a criatura,
inventada na inteligência de Deus, e que ele só pode provar
transversalmente

Tenho pedido a Deus
incessantemente, insensatamente,
conscientemente, piedosamente
que meu amigo venha
(machucada às tantas, minha humanidade)

Sei que o divisor não provém de Deus
no entanto, Ele parte o pão e dá graças
Ou dá graças e parte o pão

Temos e teremos, eu e meu amigo,
um tempo terrestre brevíssimo
para vivermos um no outro
Um tempo brevíssimo que Deus
consumará conosco,
embora sejamos eu e meu amigo
apenas os atores que enxergam
e desencadeiam as ações
(em Deus cochichamos tantos sentidos)

Ainda teremos então um tempo de eternidade
para exclusivamente adorar a presença única e final
de nosso Deus.
(cumprimento dos votos que se faz em cada tempo)

Precisamos deste tempo contável
para construirmos esse cântico de eternidade

Precisamos do que é breve para sabermos o incontável

Precisamos exceder em todos os poros a breve humanidade
que nos cabe, para tocar a face de Deus com respeito, com amor,
com a compreensão de todos os mistérios...

Para concretar o amor na estrutura dos ossos
Para bordar o amor no perecível da pele
Para acostumar o amor ao imperceptível da alma
Para experimentar o amor no corpo glorioso que há de vir a nós depois da eternidade

Os tempos não se cumprem ao nada
Os tempos são números perfeitos
Eu peço a Deus que meu amigo venha,
alastrando em mim a estirpe dos benditos.

domingo, 1 de maio de 2011

A MARAVILHA DE SER HOMEM

“Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa...chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...”

Castro Alves


Há alguma coisa
Nivea Moraes Marques

Há alguma coisa que a escravidão não mata,
Não machuca, não destrói, não corrói, não modifica,
Não inunda, não admite, nem controla

Está sob a pele, está no fundo dos olhos, está plantado no peito
Está fabricando o suor, fica no calado da voz, fica nos dentes que sobram
Corre no mais fundo do corpo, pregado no sangue do corpo

Há alguma coisa (pouca e fundamental) que à escravidão foge
Que sob escravidão insiste em não ser, insiste em ser
Insiste em se dar e louvar e rir e chorar e correr e ficar e comer e se abster

Há alguma coisa que vive e morre liberdade dentro de mim
É alguma coisa que me faz homem e que define em mim essa qualidade
Sem que nada mais acrescente, sem que nada mais diminua

É por isso que eu resisto (até à sobrevivência)
É por isso que eu sei, que apesar de minha condição de ferramenta
Engrenagem, tabula rasa do capitalismo
A um grito meu, tudo se quebra
Continue-se a caminhar para onde se caminhe
Há alguma coisa em mim que me faz homem
E me capacita á resistência (até a redenção)

sábado, 23 de abril de 2011

TEMPO DE SILÊNCIO



Tempo de Silêncio
Nivea Moraes Marques

Saí do confessionário na sexta-feira da paixão e mais do que o perdão dos meus pecados, ganhei uma folha em branco (talvez para rabiscar novos pecados, talvez para construir a novidade...)

Ganhei informações preciosas sobre mim, sobre o homem velho que eu era e sobre o homem novo que pelo menos eu quero ser.

Embora não saiba o caminho e as palavras de hoje sejam já os passos inaugurais. É preciso dar passos, o caminho se faz à medida em que se caminha.

Falo bem baixinho o pouco que se diz hoje. Jesus está morto. E Deus Pai nos olha curiosamente, como nos haveremos sem Ele?

Mas Ele prometeu ressuscitar no terceiro dia. E hoje eu espero por Ele.

Ele tem me ensinado a esperar, mas não uma espera por esperar, uma espera cheia de graminhas e pedrinhas e areias e coloridos intensos. Há que esperar pra dentro. Dentro do meu corpo as reações químicas deflagram as cores e os calores da minha espera. Tenho que construir um homem novo. Tenho que avançar. Tenho que envelhecer um século, para voltar a ser criança. E se um ciclo não foi suficiente, reinicia-se. Reinicia-se. Reinicia-se.

Iniciada nesta dança, nesta cadeia de rancores e violências (para mansidão e obediência) procuro saber que mulher é esta que meu Deus planejou em mim.

Pureza e inocência são colírios no espelho dos meus olhos, gotejam lágrimas pra dentro. É preciso curar as molas envelhecidas, calibrar o tempo, azeitar o ranger dos dentes. Sussura o amor por dentro. Por dentro do meu peito há uma casa de quintais amplos. Eu quero colar o sol no centro da minha vida e aprender tudo neste tempo de espera, pois eu sei que há de chegar o terceiro dia. (E neste dia estaremos de mãos dadas.)

terça-feira, 12 de abril de 2011

O SOL QUE AQUECE MÁRIO E MANUEL

Conviver com a poesia
Nivea Moraes Marques


Em toda atividade é necessário conhecer os mestres. De todos os tempos. Eu sinto necessidade de colecionar referências, de ler, de garimpar, de me aproximar, de “iniciar uma amizade”.

Já me agarrei a livros, Já enviei carta, e-mail, alguns conheci pessoalmente, alguns me conheceram pessoalmente. Costumo cutucar a onça com vara curta, às vezes sou feliz, outras nem tanto, mas sempre é uma descoberta, um detalhe. Preciso me reconhecer nesta família mais experiente em quem me apoio, plataforma para meus próprios saltos ornamentados.

O fato é que num desses e-mails, dessa vez respondido, Affonso Romano me indicou dois títulos seus “Sedução da Palavra” e “ A Cegueira e o Saber”, desses livros retirei uma lista de livros para ler, um itinerário para iniciar iniciantes.

Dentre eles, Sabino, Ezra Pound, Manuel Bandeira, Mário de Andrade o próprio Affonso e por aí vai.

Alguns capítulos de livros, dos quais eu não necessitava a leitura integral, tirei xerox, outros me foram vindo por meio da “Estante Virtual”, os maravilhosos sebos de todo o Brasil.

A cada novo livro vou dando conta ao Affonso das minhas experiências. Confesso que no último e-mail fui um pouco desaforada. Externei a minha indignação diante da conversa “fiada” relatada na troca de correspondência entre Mário e Manuel.

O castigo deles veio a cavalo. Eu que nunca tive alergia de qualquer espécie, peguei uma alergia danada com o ácaro que pesava o pequeno livrinho de correspondência dos dois belos poetas.

E a impossibilidade de chegar perto do referido livrinho me fez ter uma afeição por ele que eu não tive no primeiro momento. Mário e Manuel me faziam falta, queria porque queria saber se no final da cartinha do dia eles estariam felizes, com raiva de algum crítico, fazendo-se mútuos elogios, externando as dificuldades da vida e ora e outra falando alguma coisa sobre a bendita poesia.

Minha mãe me sugeriu comprar uma máscara... E eu já achando que os dois mascarados já bastavam. Mas que vontade de chegar mais de perto o ouvido e deixá-los falar!

Retirei pesarosa o bendito da minha cabeceira e foram de quarentena para a estante de livros...

A poesia não se contém e não se detém trancada em livro algum.

Retorno do trabalho e qual não é a maravilhosa surpresa, minha mãe abriu os livrinhos (esse e mais dois que estavam em quarentena – um do Poe e outro do Manuel) no parapeito da minha janela e deixou o sol banhando-os, vejam vocês: Mário e Manuel tricotando ao sol no parapeito da janela do meu quarto.

Achei tão bonito aqueles dois ali e nem me importei se o remédio era o mais eficaz (ainda não tive coragem de voltar a reler). Para mim, o mais eficaz é conviver com os poetas e a poesia.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

ANTÍDOTO

Dê um sorriso
Nivea Moraes Marques


“É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.”
Cecília Meireles


Quase não vejo e ouço as notícias, tenho artimanhas de continuar vivendo.

Mas de quando em vez teimam em me atualizar, às vezes por mesquinhez, outras porque apenas nos encontramos ainda no mesmo mundo.

Mundo de dois hemisférios, como dois irmãos gêmeos de temperamento oposto, um rico o outro pobre, um frio, o outro quente, um repleto de motivos fúteis, o outro pleno de motivos francos...

Mas de quando em vez teimam em entortar o temperamento, e o um imita o outro e o outro imita o um.

Faço parte do outro e sempre me gabei da dor e da delícia de ter sangue latino, de falar a língua do Lácio, de jogar bola, de cantar samba, da sexta-feira em torno de amigos, da presença do jogo de cintura na lida do trabalho árduo...

É besta demais a vida dentro do fio platinado da tela, a vida virtual, a vida desvirtuada...

O que é que informa e constrói essa caverna “Matrix”, esse chão (que não sendo o coração) é terra que ninguém pode pisar ou deveria pisar.

Falta um sorriso para os infelizes...

Não existe um único motivo para se tirar a vida de alguém. Não existe um único motivo para se tirar a vida de uma criança. Não existe um único motivo para massacrar crianças. Não existe um único motivo para se tirar a vida de alguém.

Contudo, falta um sorriso para os infelizes...

Isto não é justificativa, é prevenção. Os psicopatas são uma bomba relógio sem solução. Poderia um sorriso desarmar-lhe os propósitos macabros?

Com quantos sorrisos se refaz um coração?

A tarefa de Deus é tão comprida: consolar os que ficaram e perderam suas vidas, dar morada para os que se foram e viram transformadas suas vidas, julgar o homem que massacrou todas essas vidas...

Sempre peço que Deus troque o coração dos malfeitores, quando ainda vivem. Morto, não consigo rezar por sua salvação (embora saiba que Deus não esbanja seus filhos). Deixo que Deus em sua infinita sabedoria e misericórdia decida se há ainda um sorriso que baste e um porquê de trocar o coração deste malfeitor.

Porque agora tocará somente a Deus um sorriso arrasador, um sorriso abrasador, um sorriso de mãe e de pai, um sorriso de irmão, um sorriso de filho, um sorriso de vizinho, um sorriso de namorada, um sorriso de professor, um sorriso de amigo, um sorriso de médico, um sorriso de merendeira, um sorriso de garçon, um sorriso de flanelinha, um sorriso de padre, um sorriso de jardineiro, um sorriso de motorista, um sorriso de criança, um sorriso que possa trazer um sentido pra vida, um sorriso que lhe ensine um sorriso de Cristo, um sorriso que lhe ensine um sorriso de Homem.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

GINGA-CAPOEIRA CRIANÇA

Safadeza
Nivea Moraes Marques


Sa- fa- de- za
tem tantas letras bonitas
pra quem quer
aprender esta lição

Moço diz
saber de tudo
quanto há,
de modo a não
dar margem
pra senão!

Moça finge não
ser dela o
mapa do
Sei lá, talvez..
Comigo não!

Mas safadeza que se preza
escreve com
letras de brilho
na face de quem
entremeia uma
esperteza no
olho que frita
e outra no peixe

Safadeza esconde
o rabo do gato
e ri com os bigodes
de fora

Safadeza, seu Neném
pensava ser coisa
da vovó

Vovó falava comigo:
Êta meninazinha safada, Sinhô!:
aprendeu bordado,
contar na matemática,
engrupir no inglês...

Vovó reza todas as noites
para a roda de mil anjos
Que guardem, safadíssimos,
meus passos de ginga-capoeira
criança.

sexta-feira, 18 de março de 2011

CRIANÇADA

Fruta-pão
Nivea Moraes Marques


Um homem carrega uma criança no colo
e parece que carrega um enfeite
um pingente bonito
(um saquinho de risadas)
um macaquito que dorme

Carrega, na verdade, um pedaço de nome
uma historiazinha começada e pausada
numa breve vírgula

Esse tempo leva a criança (adormecida ao colo)
a passeios inimagináveis

Onde vive, os anjos não podemos ver
mas há cores e sons e diversos mundos
que passam dentro das gentes que caminham
sem cessar ao seu lado

Macaquito acorda e finge desentender-se
pão,
bolo,
confeito de estrelinha
sua realidade apenas é aquele braço
(que carrega o futuro feito fruta-pão)

quarta-feira, 9 de março de 2011

COMIDA E BEBIDA

Reestreia
Nivea Moraes Marques


“tenho comido e bebido sem pagar”
Adélia Prado

Ouço barulho de pés nas escadas
as folhas secas de nosso jardim
brincam prenunciando pó

Há tanto tempo espero
a tua chegada
(velas do meu desespero)
sinto que vens
e tardas já!

Tanto para nada
Nada para tanto

Nosso jardim à beira
de tantos desperdícios

Sem que eu pague o bilhete,
a surpresa ainda teima
em ser o cartaz de um filme
sem roteiro, trilha, direção
Fica chiando em preto e branco
aquelas listras indo e voltando na tela
em branco...
Numa estreia que sempre
reestreia.

sábado, 5 de março de 2011

DAS ORAÇÕES

Até que Deus tenha pena de mim
Nivea Moraes Marques


"A força da bênção é maior que a força da natureza,
porque a bênção, muda até a natureza"
Santo Ambrósio


Até que Deus tenha pena de mim
vou perseguir a pureza do corpo e da alma
para poder cultivar a castidade da vida conjugal

Até que Deus tenha pena de mim
vou me emocionar com cada aceno
de Sua voz

Até que Deus tenha pena de mim
e me conceda em paz
um esposo, um matrimônio, filhos amados
um lar com oliveiras e parreiras,
jabuticabeiras e goiabeiras
e um sagrado coração de Jesus
esculpido no coração do meu jardim
guardião da paz em moradia perpétua
no meu lar cristão católico

Até que Deus tenha pena de mim
e me conceda tudo, não só para
a minha felicidade, mas para cobrir
de vidrilhos e lantejoulas a
coroa de glórias do meu Senhor.

Até que Deus tenha pena de mim
vou continuar sonhando (ainda que timidamente)
Vou sonhar Sua misericórdia
apagando meus erros e culpas
Vou rezar às tardes para ser
do meu Senhor um olho que ri
e chora, um olho que vê
e dorme e sente amor.

quarta-feira, 2 de março de 2011

PARA REZAR

Neste mês do carnaval, nas vésperas do carnaval, sei que é importante brincar, cortar de alegria o céu, mas depois vem um bom deserto para refletir, para rezar, para acalmar e preparar realmente um ano novo.

Sei também que neste blog "Retratada" me revelo um pouco e um pouco mais de cada vez.
Quero dividir com vocês algumas orações escritas, que relendo achei bonitas e necessárias, rezar é também um atualizar-se, um passar-se a limpo, um descobrir-se para Deus e para todos!


"Ò Pai te agradecemos pelo vinho e pelo pão."

Nunca devolver o mal com o mal.
E que a paz repouse em nosso jardim.

Que tenhamos um lar com parreiras e oliveiras
e que a paz repouse em nosso jardim.

Jesus te peço ainda:
Que eu tenha com quem dividir
as tarefas, as despesas, o pranto,
as mãos dadas,
o gosto da vida, o desgosto da vida.

Dividir, partilhar, abençoar, bendizer
cumular de cor e de alegria a vida cotidiana
o tempo de existir.

Dividir a construção de pedra, a construção de vento,
a construção de nuvem, a construção de açúcar,
a construção de plantas e árvores pequenas,
de graminhas e pedrinhas
de chuvinha calma e rotineira
Construir assim, como quem não quer nada,
um amor para sempre.

terça-feira, 1 de março de 2011

A PELE DO MEU CORPO É SERPENTINA E CONFETE

Cheia de Parati
Nivea Moraes Marques

Fiz da serpentina e do confete
a pele do meu corpo.

O repique invade o coração cansado
e a cuíca marca o tino do sangue na veia

Fiz da serpentina um casaco
e do confete confeitos

Eu não culpo o carnaval
por meu rosto triste

Parati enrola a língua
e eu canto sambinhas na chuva

(qualquer um que vê
me pensa ausente,
triste, em solidão...)

Não culpo mais o carnaval.
Minha Escola é a esperança
Meu tempo é o todo instante
minhas saias é um girassol ao meio dia!

Eu caibo inteira na garrafa
Cheia de Parati.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

MIRAGEM

Distante perto
Nivea Moraes Marques


“Este partir tão cedo para o mar”
Jorge Medauar


Molho meus pés nas ondinhas mansas
numa prainha distante e perto

Fico adivinhando teus pés ao meu lado
(deixando os peixinhos beliscar nossa pele de sal)

Tão cedo parti, tão tarde retorno

Porém não há pranto, nem barco, nem rede

Apenas pés descalços

e caminho para caminhar as tardes


(Tudo secou dentro de mim, menos esta miragem.)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

PICADEIRO

Panis et circens
Nivea Moraes Marques


“circo
dentro
do pão”

Paulo Leminsk

Porque é preciso desdobrar o pão
para plantar o circo.
E cobrir feito fosse um lago num riso
e o riso num lago de dor.
Que pendesse decrescente
a escada do picadeiro
Como que caindo em queda livre
(sem a rede)
e espolcasse no chão
como um milagre de cores
A operação sem bisturi
na barriga aberta
mostrando víceras lilases
e uma música de coro
com notas em celofane cru

Quando o circo inventasse o pão
Eu comeria a boca e o nariz do palhaço
As pernas do avestruz gigante
E a língua do mágico cantante

Quando o pão compreendesse o circo
a fome sairia de fininho
Pela relva rasteira
procurando plantar-se em planta trepadeira
para tocar o céu
inventar-se chuva
e desabar chorando
um desabitado chão
nascendo brisa, branca, balançosa

Quem a colhesse, enfeitaria rosa de merengue
o cabelo cego da criança

E novamente a fome de rosa choque pintada
forçaria uma entrada
para dar uma pequena olhada
na lona que fez fome e sonho
sonho e lata
lata e nada
virar tudo:
Um toldo azul onde tem laço
onde sem rede, a fome pede
pra dançar e trapezista
inventa códigos
e cai sentada
espalhafatosa
curta e sem graça
na gravata da palhaçada
na língua do mágico cantante
na música torta da gargalhada

Daí começa tudo de novo,
e o pano vai ficando mais curto
a cada mordida da Dona Fome.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

QUERERES

Mais que quereres
Nivea Moraes Marques


“Ah! Bruta flor do querer”
Caetano Veloso


Penso que posso mais que o meu querer. O que quero é sempre tão inconstante dentro de mim; mas o que sei, o que trabalho, o que construo, o que desdobro, o que vislumbro, o que teimo em criar, pode ser maior do que eu, do que eu quero que seja.

Dentro da minha teimosia, aprendo a deixar de querer, aprendo a viver dentro das águas do rio.

Nada do que quero é maior do que eu.

Eu vivo cheia de esperança, cheia de desesperanças.

E tudo quanto possa querer é breve, é oco, passa.

Minhas mãos não! Elas tecem meus sorrisos, tantos sorrisos, os sorrisos dos meus.

Trabalho uma caixa de música no peito, bem fundo, bem dentro.

Espero ela tocar e a bailarininha de tule rodopiando umas valsas sem sono, sem sonho, sem solidão. Apenas a música é destino da dança e mais que uma pintura, são as formas que domo e que ensino.

Há um destino, e o destino é dizer entre versos, entre músicas, entre esquinas, que eu amo.

Eu amo você. Que mora em outro peito, em outra casa, em outro eu, em outra sina, em outro jeito de me dizer que nada passa em vão, nem meu desejo, nem o seu, quando o rumo é rio, um rio que se deixa levar apesar de tudo quanto o que se quer.

sábado, 1 de janeiro de 2011

ANO BOM

2011
Nivea Moraes Marques


“há sempre um copo de mar
para um homem navegar.”

Jorge de Lima


Como um círculo que não tem começo nem fim. (Embora saibamos, desde muito cedo, que haverá sim um fim...)

Mas estamos no começo. E começo a me perguntar o que se tem para começar, o que se tem para navegar.

Meu barco segue rumo. Rumo por quê? Rumo pra quê? Rumo...

Detesto estar ao vento, mas quando sopra o Espírito Santo é para águas mais profundas que devo seguir.

Parto como se não tivesse nada, nem um começo, nem uma tarefa, só enxergo águas, mar, sal, ventos, lua, sol, chuva, e nem sinal de terra. (não quero aportar, não quero chegar...)

Parto com força de navegante, parto com força de pescador, parto para não mais retornar (mas sei que é destino retornar, sei que é destino...)

Retornar é nunca. E nunca é tempo. E tempo é mar. E mar é água. E água é tudo. E tudo é Deus.

Meu significado secreto é uma flor que nunca murcha. Meu significado sagrado é uma rocha que nunca rola. Meu significado é um hoje amarelo, é um sol que emerge de meus lábios, que mesmo em silenciosa solidão, sabe que a flor é tudo (e que tudo é Deus...)