ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

domingo, 24 de outubro de 2010

SOLITUDE II

Solidão
Nivea Moraes Marques


Uma única rosa num feixe embrulhado para presente, que se desprende.

Ao redor, as pessoas gravitam e interagem num balé de muitos atos, mas falta um...

A minha solidão não despede as pessoas sem palavras, sem bom dia...

Minha solidão não é uma alma que sofre ausências e se descobre una, minha solidão é a falta de alguma coisa que em mim pereceu e eu preciso no outro.

Experimento muitos sentimentos e muitos encontros de todas as espécies, na vida, no trabalho, na família, com Deus... Mas me falta...

Minha solidão é uma parte de mim que sabe a laranjas e suas metades, queria experimentar o amor humano, uma espécie de amor que não existe no céu, um amor sexuado e puro, um amor de resguardos e cumplicidades, um amor do tempo do gênesis, um amor do qual nascem frutos.

Frutos de delicadeza e de acompanhar, frutos de fraternidade e de paixão contida, frutos de carne e osso (na descendência de mil grãos de areia).

Eu não queria partir sem viver esse amor e ainda gozar da misericórdia de Deus pela tentativa que se desfez, que não se deu, que foi em vão.

Em vão vazei os engradados do sagrado e se hoje já não posso mais inaugurar o nada, quero tudo, e preso às minhas duas mãos maduras:

Um amor que seja por inteiro são... mesmo nos meus dias de cachorra.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

NOS BRAÇOS DO RIO

Solitude
(Nivea Moraes Marques)



“(...)
Um chopp gelado em Copacabana
andar pela praia até o Leblon”

(...)

e quando você me envolver
nos seus braços serenos eu vou me render”
Tom Jobim e Chico Buarque



“É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar
(...)”
Chico Buarque


“Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta”
Hilda Hilst





Por acaso nessas ruas do Rio, feitas de pedra e areia, é que encontro o amor
Como se fosse o amor uma boneca
de porcelana descascada.

Ainda que um hospital de boneca seja necessário à reabilitação...
Bastava seu sol, seus ares de sal
Encontro no Rio o que falta em mim
Como se faltasse um coração que pulsasse
Ou melhor, tivesse um ritmo a se impor
a tudo que houvesse ou fosse razão
Para ser inteiramente tua
(Como é minha, agora, esta solidão.)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

ANIVERSARIANTES DO MÊS

EDIÇÃO COMEMORATIVA DOS MEUS 35 ANOS E DOS 3 ANOS DO BLOG


“A celebração de mais um ano de vida é a celebração de um desfazer, um tempo que deixou de ser, não mais existe. Fósforo que foi riscado. Nunca mais acenderá. Daí a profunda sabedoria do ritual de soprar as velas em festa de aniversário. (...)”

Rubem Alves


Desfaço-me da bagagem e dos badulaques que fui acumulando nesse tempo que passou.

Ao contrário de minha rotina diária (de acúmulo de papéis, de roupas, de pertenças úteis e inúteis – dependo do auxílio de minha mãe para me desfazer de tanto treco que se acumula...) eu não tenho dificuldades para me decidir por recomeços, por entender o fim de um ciclo e buscar novas realidades.

O que pra mim é insuportável é a ausência de sentido. Sentido mesmo pra vida. Saio então garimpando novas esperanças e tarefas, ainda que o cansaço me informe que talvez fosse melhor me atirar ao vício sempre à espreita que é a preguiça.

Coube tanta coisa nesses trinta e cinco anos, coube tanta coisa nesses três anos de blog. Mas é hora de me despedir desse tudo que passou e já não existe.

Eu preciso inventar uma nova fruta, eu preciso correr outras velocidades, eu preciso ganhar novos combates, eu preciso aproveitar o que já foi concluído, eu preciso ganhar novo idioma, eu preciso compreender novas descobertas, eu preciso habitar a palavra numa casa nova, eu preciso amar o amor que se me apresentará, eu preciso experimentar tantos sentidos, eu preciso dizer com outras palavras, eu preciso dizer o que não foi contado, eu preciso dizer o que já se falou, mas eu preciso como se fosse eu sempre e eu a outra, a que agora põe uma pedra (inaugural) na vida que nada mais faz que se prolongar ao finito.