ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

GRAVIDEZ DE RISCO

Livres no erro
Nivea Moraes Marques

Seus olhos eram livres, mas dentro do corpo de uma presidiária. Dentro
do ventre não livre, uma criança crescia. Crescendo como um fruto
proibido. Crescendo como fruto de vez sem mãos pra colher.

Seus olhos livres aconchegariam aquela criança algumas vezes, depois
partiriam distantes. E os olhos não passariam de olhos de sogra. Olhos
a pingar colírios, olhos a chorar os dias. Olhos a clamar aos céus
pequenos natais para ver o rebento correr nos pátios da alegria de ter
mãe por perto.

Nada a consolaria, a pena de sofrer as demoras de ser mãe, quando não
seria, ou quando fosse, já o cuidado de mãe não se fizesse mais tão necessário.

Chora por dentro esses dias, não os dias de espera, mas os dias de
próxima separação.

Quantos laços de fita a apertar estes laços de sangue... Sangue
pisado, retido e talhado no erro, no desvio, no lado amargo do fazer e
ser descoberto.

Quantas noites em claro, sem velar o sono febril deste filho distante.
Noites contando dias, os dias da liberdade em que correndo pros braços
deste filho, ele a reabilitaria: MÃE.

Mãe para todo o sempre e em todas as horas, sem que a sirene tocasse e
lhes lembrassem serem duas criaturas filhas da vida perdida no erro
desfeito... e filhos também da vida encontrada, oportunidade para ser livremente mãe ou filho (um no colo do outro).

terça-feira, 10 de agosto de 2010

ARIDEZ

Um lugar num interior
Nivea Moraes Marques



Piso com segurança as ruas de minha terra.

Tenho um amor rancoroso pelas ruas de minha terra.

Sou fortaleza de pedra nessas ruas de minha terra.

E se me aparece um palhaço com laço no pescoço e uma lágrima azul
pingando maquiagem na bochecha flácida fugido de uma terça-feira de carnaval

Respondo com aceno e nunca quero ir com o circo que ele integra
mambembando pelo país

Para mim, só existe uma casa
só existe um rio
só existem estes carros e essas ruas

Minha cidade é de pedra e me faz forte e ainda me arranca um sorriso
dentro de tardes sem expressão
quando trancada numa torre ao trabalho me entrego corriqueiramente
avisto do outro lado da calçada uma árvore em flor,
que minha terra inventa pra mim,
só pra não sermos somente tão a aridez de ocupar um lugar num interior.

domingo, 1 de agosto de 2010

AMANTE DO VERBO

Amor Prometido
Nivea Moraes Marques

“Do lado de lá o amor prometido caía sobre mim como cai
a complacente delicadeza sobre a brutalidade dos dias”
Leda Guerra


Às vezes eu penso que é tolice minha
esperar o amor

O que esperar enquanto esperando?

A ilusão do grande amor
quase me levou a vida
ou me trancou num manicômio
para sempre

(Graças a Deus sobrevivi)

Às vezes eu penso que é tolice minha
não esperar o amor

A desilusão do amor
me deu um palco
me encheu de palavras
me fez um com vocês

Às vezes eu penso que vou envelhecer
demais enquanto espero
e aí vai ser ridículo demais
tantas palavras colecionadas à espera

Às vezes eu penso que se é função
do tempo passar
que ele passe
e eu continue

Porque o amor brinca comigo
e se ele se esconde tanto
ou trapaceia tanto
é pra que eu diga essas tantas
palavras

E viva amante do meu próprio alfabeto.