ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sábado, 24 de julho de 2010

RIO ABERTO


Samba arrumado
Nivea Moraes Marques

Minha ideia primeira era escrever um texto cheio de metáforas, muito poético, alguma coisa bela, muito bela, conforme o prometido, mas só consigo falar do que estamos vivendo por aqui...

Um diário não é nada tão interessante, mas como sou uma escritora que vive da escrita, tem agenda pra cumprir nos próximos quatro meses, vou apostar na minha rede de leitores e pedir licença para trazê-los todos comigo.

Acordamos sete da matina e rumamos pro centro da cidade de carro. Tomamos o café da manhã na Cafeteria Municipal, fomos mimados pelo garçon, pessoa simpatissíssima que inaugurou nosso dia com bola cheia (aliás ficamos comentando como as pessoas no Rio, em geral, tem bom humor, todos os que estavam ali, tomando café para pegar no batente ou já trabalhando, estavam com uma cara boa sem ligar, ou sem demonstrar chateação por estar de pé tão cedo num sábado chuvoso).

Depois do café, uma pequena pausa para admirar a reforma do Teatro Municipal (não pudemos tirar uma fotografia nas escadarias do teatro, pois uma turma de formandos ocupou todo o local com fotógrafos e parafernalha, mas nada nos abalou, achamos tão pitoresco e dividimos com eles o gosto da última foto com a turma ainda de estudantes).

Feito isso, ponto de encontro com os alunos da minha irmã da Oficina de Escrita do SESC/Niterói: Bondinho pra Santa Tereza. Novo encontro com pessoas bonitas e carinhosas, dividimos o Bonde e os ensinamentos do nosso guia Edson e mais um banho de simpatia carioca fazia cosquinhas nas minhas bochechas: o professor de fotografia, Fábio.

A paisagem humana ia se formando tão favoravelmente (mesmo a pobreza pegada nos cantos da rua, gritando socorro sem voz). Tudo me amparava como ser humano, tudo.

A paisagem geográfica e arquitetônica não destoaram, que maravilha de Parque das Ruínas, a casa de Laurita Lobo com seus tijolos aparentes, forradas por avencas choronas, com altitude, latitude, um mundo onde foi possível Vila Lobos, onde foi possível Isadora Duncan (senti o cheiro de todos eles lá), onde Laurita acordava e dormia, senhora de tudo isso (como até hoje é, me recebeu com bênçãos e lágrimas, o sol abriu devagar e dourou nossos perfis, tiramos uma fotografia para guardar embrulhada em papel de seda).

Também a Chácara do Céu (com seus livros e Debret em gavetinhas, me apresentando um Rio que veio a ser o que hoje é). Também as escadarias dividindo comigo Santa e Lapa (com seus gatos de esguelha): tapete de azulejo persa, estendido a nos despedir de tantos encantamentos.

Tudo me humanizava ainda, até as janelas cheias de ofendículas, a guardar a pureza das irmãs. (Para cada vida os seus cuidados e os seus propósitos.)

Completou a pintura o fim de tarde na praia, sozinhos novamente os cinco primeiros nautas, Maria Clara me abundou de gritinhos e corridinhas frenéticas para ir ao encontro ou fugir da água salgada (sua casa universal de caiçara).

Tudo isso teve uma trilha sonora, que poderia ser o som da viola renascentista do espanhol que tentou tocar na Casa das Ruínas, mas não, a trilha sonora escuto até agora do meu escritório no Leblon, um
“samba arrumado” que é animação de algum aniversário aqui nas redondezas: é lógico alguém tinha que nascer hoje!

Mas isso não foi tudo, "samba arrumado" colhi das mãos generosas de minha irmã,na frente do prédio do aniversariante e na volta de pequenas compras onde encontramos a geléia de laranja que minha mãe tanto fala que provou e nunca esqueceu em sua lua de mel em Friburgo há exatos trinta e cinco anos.

O título desse texto me deu minha irmã (que é áries, meu horóscopo complementar, segundo me revelou uma de suas alunas em nossa excursão de hoje) a geléia vamos provar no café da manhã de amanhã. Será que o no hoje cabe mais? (bola murcha só mesmo o chuveiro que não esquenta muito, mas a temperatura aqui é tão agradável... eu tô muito boba, nunca tinha vindo ao Rio antes como uma escritora de responsa rsrsrsrs)

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