ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

terça-feira, 27 de julho de 2010

ENCONTRO MARCADO

Terça-feira em Barra Mansa
Nivea Moraes Marques

Apito do trem
Licor de Jabuticaba
Pinga Rochinha
Ponte de arcos
Vila Mury
Estação de trem
Parque da preguiça
Igreja da matriz
Orquestra Sinfônica
Rua do comércio
Colégio de irmãs
Rio Paraíba do Sul
Ponte velha
Pracinha do Santa Rosa
Morros sobre a planície
Coro Jovem
Metalurgia
Fazendas centenárias
Café
Leite
Folia de Reis
Cooperativa
Bordadeiras
Colônia
Churrasco
Telão
Chopp Center
Costelão
Ponto de Ação Cultural
Café Capital
Barão de Aiuruoca
Joaquim Leite
Ponce de Leon
Movimento de sábado
Crianças na escola
Linha do trem
Centro Universitário
Viola caipira
Associação dos Sertanejos
Academias ao ar livre
Liquidação da Pavan

Caminho de volta a minha terra,
meu solo de combate,
plataforma do meu sonho.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

APROPRIADAMENTE

3D
Nivea Moraes Marques


A cara do mar se abre em aromas
salobres
Nesta segunda-feira gorda
tudo é distante
(meu sonho navega num barquinho
dentro da barriga do peixe de Jonas)
A minha realidade é maior
A minha realidade é maior
(e é tão bom viver assim sem saber
em que dimensão...)

sábado, 24 de julho de 2010

RIO ABERTO


Samba arrumado
Nivea Moraes Marques

Minha ideia primeira era escrever um texto cheio de metáforas, muito poético, alguma coisa bela, muito bela, conforme o prometido, mas só consigo falar do que estamos vivendo por aqui...

Um diário não é nada tão interessante, mas como sou uma escritora que vive da escrita, tem agenda pra cumprir nos próximos quatro meses, vou apostar na minha rede de leitores e pedir licença para trazê-los todos comigo.

Acordamos sete da matina e rumamos pro centro da cidade de carro. Tomamos o café da manhã na Cafeteria Municipal, fomos mimados pelo garçon, pessoa simpatissíssima que inaugurou nosso dia com bola cheia (aliás ficamos comentando como as pessoas no Rio, em geral, tem bom humor, todos os que estavam ali, tomando café para pegar no batente ou já trabalhando, estavam com uma cara boa sem ligar, ou sem demonstrar chateação por estar de pé tão cedo num sábado chuvoso).

Depois do café, uma pequena pausa para admirar a reforma do Teatro Municipal (não pudemos tirar uma fotografia nas escadarias do teatro, pois uma turma de formandos ocupou todo o local com fotógrafos e parafernalha, mas nada nos abalou, achamos tão pitoresco e dividimos com eles o gosto da última foto com a turma ainda de estudantes).

Feito isso, ponto de encontro com os alunos da minha irmã da Oficina de Escrita do SESC/Niterói: Bondinho pra Santa Tereza. Novo encontro com pessoas bonitas e carinhosas, dividimos o Bonde e os ensinamentos do nosso guia Edson e mais um banho de simpatia carioca fazia cosquinhas nas minhas bochechas: o professor de fotografia, Fábio.

A paisagem humana ia se formando tão favoravelmente (mesmo a pobreza pegada nos cantos da rua, gritando socorro sem voz). Tudo me amparava como ser humano, tudo.

A paisagem geográfica e arquitetônica não destoaram, que maravilha de Parque das Ruínas, a casa de Laurita Lobo com seus tijolos aparentes, forradas por avencas choronas, com altitude, latitude, um mundo onde foi possível Vila Lobos, onde foi possível Isadora Duncan (senti o cheiro de todos eles lá), onde Laurita acordava e dormia, senhora de tudo isso (como até hoje é, me recebeu com bênçãos e lágrimas, o sol abriu devagar e dourou nossos perfis, tiramos uma fotografia para guardar embrulhada em papel de seda).

Também a Chácara do Céu (com seus livros e Debret em gavetinhas, me apresentando um Rio que veio a ser o que hoje é). Também as escadarias dividindo comigo Santa e Lapa (com seus gatos de esguelha): tapete de azulejo persa, estendido a nos despedir de tantos encantamentos.

Tudo me humanizava ainda, até as janelas cheias de ofendículas, a guardar a pureza das irmãs. (Para cada vida os seus cuidados e os seus propósitos.)

Completou a pintura o fim de tarde na praia, sozinhos novamente os cinco primeiros nautas, Maria Clara me abundou de gritinhos e corridinhas frenéticas para ir ao encontro ou fugir da água salgada (sua casa universal de caiçara).

Tudo isso teve uma trilha sonora, que poderia ser o som da viola renascentista do espanhol que tentou tocar na Casa das Ruínas, mas não, a trilha sonora escuto até agora do meu escritório no Leblon, um
“samba arrumado” que é animação de algum aniversário aqui nas redondezas: é lógico alguém tinha que nascer hoje!

Mas isso não foi tudo, "samba arrumado" colhi das mãos generosas de minha irmã,na frente do prédio do aniversariante e na volta de pequenas compras onde encontramos a geléia de laranja que minha mãe tanto fala que provou e nunca esqueceu em sua lua de mel em Friburgo há exatos trinta e cinco anos.

O título desse texto me deu minha irmã (que é áries, meu horóscopo complementar, segundo me revelou uma de suas alunas em nossa excursão de hoje) a geléia vamos provar no café da manhã de amanhã. Será que o no hoje cabe mais? (bola murcha só mesmo o chuveiro que não esquenta muito, mas a temperatura aqui é tão agradável... eu tô muito boba, nunca tinha vindo ao Rio antes como uma escritora de responsa rsrsrsrs)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

RIO DE JULHO

Vida de Escritora
Nivea Moraes Marques


Vim passar quatro dias com meus pais, minha irmã e minha sobrinha no Rio.

A viagem foi tranqüila, passeamos pela orla até chegar ao Leblon (ao apartamento que gentilmente nos emprestou Fábio e Afonso- respectivamente o namorado e o pai do namorado de minha irmã).

Passeando pelas ruas tranqüilas do bairro, decidi, aqui por esses poucos dias viver a vida que me caberia estando aqui, uma advogada de férias e uma escritora em seu habitat.

Nesses dias (evidentemente as contas todas pagas) poderei prestar atenção ao tempo, ao mar, aos casais, às crianças, poderei sair com um caderninho de anotações recolhendo títulos interessantes para novos textos e sobretudo escrever, saborear a vida e escrever.

Serei nesses quatros dias uma escritora interessante e interessada, terei público leitor, terei agenda para daqui quatro meses, viverei enfim a fantasia de ser literária e literal.

Diante de todo esse quadro favorável (apenas uma convalescência de dor de garganta me perturba um pouquinho) que textos maravilhosos serei capaz, que aventuras me sobrevirão, esbarrarei num novo amor? (quem sabe no Museu Chácara do Céu ou no Planetário ouvindo estrelas...)

O Rio sempre me abre portas, sempre me abre janelas... Até quando nos despedimos um tanto quanto decadente (eu) sabíamos que haveria volta. E esta volta, hoje, passados dez anos é um reencontro de amor.

Ainda que nada aconteça (o que é praticamente impossível), o Rio me fez ter a imensa felicidade de apenas estar aqui, experimentando a maravilha de ser uma escritora que apenas vive da escrita, no quadrante mais bonito (e blasé – rsrsr) do mundo.

domingo, 18 de julho de 2010

ÁRVORES QUE ANDAM

Trilha vegetal
Nivea Moraes Marques.

“(Ah! Não ter asas!...) estendeis os ramos
À esperança e ao mistério do horizonte.”
Olavo Bilac

Preciso dizer a vocês que nunca troquei palavra com uma planta. De tantas esquisitices que cercam qualquer ser humano normal, a esta ainda não me entreguei.

Mas acredito ser muito salutar tanto para a planta, quanto para o homem o dedicar-se a ouvir e dizer em palavras vegetais.

Tenho quase que uma geleira no peito quando o assunto são plantas. Aguando demais ou deixando secar, me distraio com a vida e esqueço que elas existem (não deixem suas plantinhas de estimação sob meus cuidados...)

De repente elas forçam entrada no meu campo de visão e é um milagre, ainda que silencioso, uma cerejeira branca, ou uma acácia amarela, ou as patas-de-vaca do outro lado da janela da Prefeitura. Elas se derramam sobre mim e começo a existir com elas.

As árvores convencem o céu de coisas (expostas que são ao horizonte), tais coisas para mim são incompreensíveis.

De repente elas forçam entrada no meu entendimento e é um alfabeto vegetal inteiro dentro da minha língua mãe (não que travemos diálogos e planos de conquista), mas já então posso dizer: toda noite as árvores percorrem as ruas, estradas, caminhos e se elas estão paradas quase todo o tempo é para nutrir de experiências a sua trilha secreta.

terça-feira, 13 de julho de 2010

VARIAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA

Aquário de estrelas
Nivea Moraes Marques


Guardo noites próximas
nas palmas de minhas mãos

Pequenas estrelas bordam
meus destinos,
azuis em tons escuros
matizam as cores da minha pele,
dos meus cabelos, dos meus olhos

Tudo quanto toco, envolve-se de noite
anoitecendo

(meu amor beija minha face, e cumprem-se
em procissões mil estrelinhas nascendo a noite
noitecendo meus destinos.)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

FUTURO NAMORADO

Lá fora está chovendo
Nivea Moraes Marques

“Venha sem guarda-chuva - mesmo se estiver chovendo -”
Adélia Prado

Venha sem guarda-chuva por favor e se for estação em que chove, melhor ainda.

Venha com camisa azul, venha sorrindo verdades, venha planejando ternuras, venha como quem já conhece o caminho até mim.

Venha às tardes, venha à noite, venha de manhã, toda hora seja feita para que você venha.

Se meu sorriso não te convencer que tuas viagens foram necessárias, me convença do contrário, ou do avesso, ou do nada disso, eu quero conhecer os teus argumentos.

Quando for chegando o sono, vá do mesmo modo simples como veio, usando as pernas, caminhando sobre pedras e asfalto, caminhando sobre a minha vaidade boba (quero ter que dar o braço a torcer e descobrir que é chegado o tempo propício, apenas é chegado o tempo).

Não quero que a minha e sua mão se unam porque é para se unirem é que foram feitas, eu quero que elas se unam porque justamente elas não tinham que se unir, elas se unam porque só nesse o tempo esperado para que fizessem isso.

Mas um tempo esperado não por nós, mas pelo Pai, que colabora com meus sonhos, que colabora com meus sonos, que colabora com tudo aquilo que não é óbvio, mas que é o mais certo, o mais seguro, o mais singelo e o mais puro.