ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sexta-feira, 18 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO

Irmãos de Leite
Nivea Moraes Marques


“Nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas.”
José Saramago


Acabo de saber que tu te fostes para paraísos impensáveis enquanto vivias.

Sei que teu encontro com Jesus te revelou o que sempre soubestes, o que sempre criastes, o que sempre inventastes nesse sonho arrepiado que nominamos: palavra.

Penso-te à porta e que ela se abra! (rezo já por isso) Penso que por mais absurda que seja, a vida de quem contribui para alargar as margens do mundo sempre deve ser aproveitada por Deus (o que se há de ainda fazer por lá!).

Ou purgatório ou o céu, não deves te meter no inferno, as mui altas temperaturas não são propícias às palavras, que devem refrigerar pela amplitude de espaços e nunca enclausurar e sufocar com suas quermesses e panelas, suas cegueiras e planos de fuga, seus silêncios e viagens pela aldeia, sua busca de encantamento e sutil morada em algum pedaço de coração humano.

(Até os animais, quem sabe, possam também compreender-te o ponto.)

Acabo de saber que faleceu teu corpo. Que caminhos poderá seguir a tua alma, na companhia de quem até a presença Santa? Como te comportarás no tribunal?

Eu, tendo já passado a procuração para Maria, ela que diplomou-se à custa de sangue filial e espadas trespassadas no coração, conhecerá melhor todas as tuas saudades, todas as tuas indignidades, todas as tuas obras de paz e de alegria.

Mas acredito, que neste caso, o tribunal se dissolverá, e os atores cansados e surpresos com tua presença, deixarão para Jesus a tarefa desta inaugural conversa:

Jesus: Eu vivi o teu evangelho, à medida em que tu o ias construindo. (E o revivi sob os olhos de cada seu leitor...)

Saramago: Eu vivi o teu evangelho, lutando para dar voz ao que era sua voz em mim.

Hoje faleceu o idioma de Saramago, eu só pude me atrever até aqui, daqui em diante é um fazer saudade nessa pátria, nessa flor, nesse sistema uno e variável - o Português - que sempre nos fez irmãos de leite.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

UNIDADE

Trindade
(Nivea Moraes Marques)


Toda noite num gramado próximo a um conjunto de casas, encontram-se três pessoas: o Pai, o Filho e o ... Cachorro!

Eles se encontram ali para brincar e ensinar o Cachorro.

É muito silenciosa a tarefa dos três amigos e com que harmonia eles se comunicam apenas por olhares.

O Pai joga o bastão de madeira e o Cachorro corre para alcançá-lo; o Filho, na retaguarda, espera o Cachorro para abraçá-lo como prêmio e incentivo ao cumprimento da tarefa.

Dentro da relação, que empresta unidade aos meus três personagens, é a simplicidade que confere o nó do laço que os aperta.

Dentro da relação, que confere apenas uma vida aos meus três personagens, é nítida a tarefa de cada um: O Pai deflagra a ação, o Filho tem o contato físico que acompanha aquele que se envia e o Cachorro obedece ao comando e vai exercer a tarefa.

No meu coração, esses três personagens compreendem a Trindade Santa (um Deus que ao mesmo tempo é três).

Um Deus que ao mesmo tempo é três: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo (o Cachorro, dócil à vontade do Pai, próximo ao contato do Filho, presto a ser enviado).

Toda noite num gramado próximo a um conjunto de casas, encontram-se três pessoas e eu, que entendo o meu Deus na comunidade tão bonita do Pai, do Filho e do Cachorro em sua simples tarefa de conviver com afeto de pai de filho e de cachorro.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

SOBTUDO

Colcha de Areia
Nivea Moraes Marques


“Se eu apagasse a fina linha
do horizonte
será que o céu cairiano mar?
E as estrelas e a lua
começariam a navegar?”
Roseana Murray

Para cobrir-me com uma colcha bordada de areia e dormir sob um teto invisível, é porque trabalho incessantemente, tanto os dias quanto as noites.

Penhoro salários e futuros, penhoro o mapa da minha mão às ciganas e pago os seus olhos videntes para visionarem meu sorriso sem dentes.

Para comer o almoço que planejo é inútil dentes. Para dormir os sonhos que me acalmem, uns algodãozinhos azuis dentro dos ouvidos mocos.

Para abraçar o moço que me aguarda sob o sol ou sob a neve, dadas as paredes estéreis desse pequeno caso, confeitos dourados sob os casacos, constituindo corpos e lastros para o que nunca caberia em si.

Saber-nos abraçados e cobertos por tão bonita colcha, aí começaríamos o que sem fim nos espera, e esperou por tanto tempo:
notas de música cuja partitura é silêncio, lágrima e açúcar.

O milagre da vida não passa pela porta estreita de tijolos, minha colcha bordada de areia, dentro da casa que em mim passeia, é salvação para duas almas solitárias, sobtudo.