ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

quarta-feira, 26 de maio de 2010

INFOMARÉ

NELA INTERNET
(Nivea Moraes Marques)


“Que veleje nesse informar”
Gilberto Gil



As teclas que pressiono foram criando um mundo que dormita num blogue. Bordo as letras que a máquina não sabe desenhar. Nesse mar velejado, espaço amplo da democracia descrente, ferramenta larga do informatizar, do infonetizar, do informar.

Mais que informação é uma alma espontânea entregue à arte das palavras, dos vocábulos, dos fones, dos sons, das sílabas a pétalas iludidas de uma flor de aço.

Nessas marés de estranhos nomes estrangeiros, magneticamente, vou me incluindo como um alfabeto guerreiro que quase nada se corrompe. Preservada tribo em meio incerto e incestuoso de uma rede que não foi trançada por mãos de homem, rede que não foi urdida em tear, mas pressupõe fome e ganas de ser o que não é novo, mas é novidade, natividade.

Busco informações para estar dentro dela, mas não sou informação, sou um coração aguado que é mais que isso: é quase dó de doação, é entrega de pão-lavras que se arranjam de forma a fazer cair pétala à pétala a flor de aço e fazer surgir cheiro de menina, sabor cítrico de laranja, contas de rosário, rezas de assunção, abraço de amigo, rio de remanso, coroa de dente, amor que não se mede, fitas de retalho, filhos que virão.

Tudo isso cabe nessa tal de rede e impressionante, você pode a tudo isso dar conta de conhecimento, pode tudo, menos segurar minha mão, que continua estendida.




quinta-feira, 6 de maio de 2010

COM CUIDADO DE ESCAMAS

À mão livre, marinha
Nivea Moraes Marques

“(...) tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas.”
Marina Colassanti


Pingo em meus pés uma gota de mar
e não sou uma ave salgada
nem uma instituição marinha

Sigo com gosto de sal nos lábios
cantando cânticos expostos

Com uma rede trançada há tempos,
capturo a espuma do que não é leite nem solo:
é verde amplitude

No roxo da areia jaz o meu sangue entre os músculos.
Com cuidado de escamas, meu extirpado coração
bate a favor
das marés

Talvez quando amanhã se descubra hoje
eu reine absolutamente sereia
nessa garrafinha artesanal
de sangue e sal desenhada.

sábado, 1 de maio de 2010

DITO DA BARRA

SAMBA DAS MOÇAS
Nivea Moraes Marques

Os pés delicados das moças, calçados em sapatilhas à moda sevilhana, guardam tantos passos de dança, que os braços em preciosa alavanca deslocam todo o corpo sem a precisão dos pés.

Sapato rasteiro não deixa os pés deslizarem, são saltos de baiana, são saltos de sereia, são saltos emprestados das mães, a estatura das moças que sambam.

Tenho comigo que as rosas se pudessem falar tramariam contra essas moças, que têm perfume de flor e saltos de pedra.

Fosse numa tarde qualquer a roda do Belico, a roda do Dário, a roda do Seu Dito da Barra, mas as moças em samba, sambam em qualquer piso e salão, apenas pela gostusura do bailar africano.

Rendas enfeitam seus colos e saias multicoloridas caem tranquilas sob seus quadris.

Seus cabelos em tranças de nonas negras, fazem um craquelê na pintura de monalisas atuais.

Brancos dentes sorriem para todos, o sorriso ganha do i um apoio e tocam o ritmo para a casa do som apurado.

É preciso ter classe no samba, é preciso ver esse samba das moças, e elas ainda cantam:

minha nega mudou o sol de lugar
cozeu o sol na panela
e toca que mexe e toca que mistura
a noite nunca é inteira
no prato branco do feijão sujo
que me espera no jantar.