ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

domingo, 25 de abril de 2010

LUXO

Objeto de luxo
Nívea Moraes Marques


“Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.”
Adélia Prado

Acorda, é bem cedo.

Acorda, ainda é bem cedo.

Acorda será que há tempo?

Procuro homem que ainda vive para ser pai de filhos.

Moço ainda e que suporte bem o choro de crianças pela casa, a mão embrulhada em fraldas e as despesas do final do mês.

Que guarde a calculadora na gaveta e tenha controle da dispensa e não me pergunte tanto o porquê de comprar isso ao invés daquilo.

Procuro homem que volte do trabalho com uma sacolinha cheia de mixiricas, ou que traga de volta a maçã que não comeu no lanche, para a dividir com quem ficou.

Procuro homem que saiba cantar no chuveiro um roque dos anos oitenta e que ainda torça a coluna num jogo cambeta de futebol no domingo.

Procuro homem que use chinelas e durma de pijama. Procuro homem que não se surpreenda com as minhas olheiras, com a minha falta de humor para certas manias ou o meu desejo de solidão entre os dias.

Procuro homem que não tenha tantos vícios e saiba rezar, procuro homem que saiba, sobretudo, beijar e deixar-se beijar.

Procuro homem desembaraçado e que ainda sonhe com tantas inúteis idéias sobre vida em comum, que não se decepcione tanto com meus bom-dias surdos de rádio antigo.

Procuro homem que me compre presentes, procuro homem que se lembre do meu vestido azul do primeiro dia em que nem sequer sonhávamos em nos conhecer.

Procuro homem que cultive em mim uma mocidade que vá além da alvura dos meus cabelos, que sob a tintura morrem.

Procuro homem que não seja um incômodo ao lado, mas que me ensine a dividir o leito, como quem reparte um único sorvete, comprado com as últimas e escassas moedas do final do mês.

sábado, 3 de abril de 2010

Janauacá
Nivea Moraes Marques

Para o meu querido amigo Aníbal Beça


Guardo tua voz num saquinho de risadas
(para sempre me esquecer...)

Poeta que me ensinou a cor da mata
com palavras tão bonitas e inaugurais
na minha boca-nauta

Sei que não reinventaste a pólvora
mas à roda pregaste mais uma porca
e a fez, pra mim, mais firme

Quase não consigo chorar, porque meu rio ultimamente
corre para um leito mudo

Quase não consegui publicar uns restos tão
apodrecidos dos nossos ridículos segredos

Mas o que me importa dizer
é que eu preciso me vingar de tua morte
assim
tão calada.

Eu preciso me vingar a punhaladas e goles fortes
de uma bebida que poucos podem
a língua numa gota
à prova, não desintegrar:

A pureza dos que se colocam na presença de Deus e com
Ele, em versos, conversam ritmos em flauta doce.