ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

FELIZ NATAL


O mais bonito
Nivea Moraes Marques


“Hoje eu tive um sonho que foi o mais bonito
Que eu sonhei em toda a minha vida
Sonhei que todo mundo vivia preocupado
Tentando encontrar uma saída
Quando em minha porta alguém tocou
Sem que ela se abrisse ele entrou
E era algo tão divino, luz em forma de menino
Que uma canção me ensinou”

Roberto Carlos e Erasmo Carlos


Abre as carnes e as fibras que formam meu coração
Com mãozinhas pequenas
Mãos parteiras

E faz dali brotar água que jorra e cura
Me ensina a misericórdia
Me ensina um jeito de criança crescente

Toca tudo que tem chave
E abre sem saber o segredo
(não quer saber o segredo)

Informa um conteúdo novo
E quando acaba a faxina

Tenho um coração sagrado
Um coração trançado
Um coração de açucar e melado

Tenho um coração de Deus

E tudo é tão parecido com
Uma vida pequena
Uma vida imatura
Uma vida indefesa

E tudo é tão parecido com
Um dom que se aprende
Com um mar que se rende
Com um fio que tece
Tantos nomes

Dormir nunca é igual
Acordar nunca é diferente
Sonhar é sempre um bocado
De água de rio (doce e sal)

Sei que agora luto com o menino
Para não ser mais somente eu
Para ser mais de um
Para ser infinitamente só
O mais bonito enfeite:
Um dentinho em pingente de ouro
No peitinho do menininho que

Caminhando é caminho
Que iluminando é luz
Que cantando é toda a verdade
Que apenas à Palavra não cabe
Dizer.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

SEMEADURA

Pedra
Nivea Moraes Marques

É preciso semear o chão com pedras

Dar a cada uma delas o direito
de ser muda

É preciso semear o chão com chuvas

Dar a cada gota a vastidão da
lágrima

É preciso semear o chão com estrelas

Dar a cada flor uma galáxia sem nome,
um caminho-luz que nasce

Mas, ainda é preciso semear o chão
com pedras

Para dar ao homem pelo menos uma
chance de tropeçar

E inventar a queda.

domingo, 24 de outubro de 2010

SOLITUDE II

Solidão
Nivea Moraes Marques


Uma única rosa num feixe embrulhado para presente, que se desprende.

Ao redor, as pessoas gravitam e interagem num balé de muitos atos, mas falta um...

A minha solidão não despede as pessoas sem palavras, sem bom dia...

Minha solidão não é uma alma que sofre ausências e se descobre una, minha solidão é a falta de alguma coisa que em mim pereceu e eu preciso no outro.

Experimento muitos sentimentos e muitos encontros de todas as espécies, na vida, no trabalho, na família, com Deus... Mas me falta...

Minha solidão é uma parte de mim que sabe a laranjas e suas metades, queria experimentar o amor humano, uma espécie de amor que não existe no céu, um amor sexuado e puro, um amor de resguardos e cumplicidades, um amor do tempo do gênesis, um amor do qual nascem frutos.

Frutos de delicadeza e de acompanhar, frutos de fraternidade e de paixão contida, frutos de carne e osso (na descendência de mil grãos de areia).

Eu não queria partir sem viver esse amor e ainda gozar da misericórdia de Deus pela tentativa que se desfez, que não se deu, que foi em vão.

Em vão vazei os engradados do sagrado e se hoje já não posso mais inaugurar o nada, quero tudo, e preso às minhas duas mãos maduras:

Um amor que seja por inteiro são... mesmo nos meus dias de cachorra.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

NOS BRAÇOS DO RIO

Solitude
(Nivea Moraes Marques)



“(...)
Um chopp gelado em Copacabana
andar pela praia até o Leblon”

(...)

e quando você me envolver
nos seus braços serenos eu vou me render”
Tom Jobim e Chico Buarque



“É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar
(...)”
Chico Buarque


“Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta”
Hilda Hilst





Por acaso nessas ruas do Rio, feitas de pedra e areia, é que encontro o amor
Como se fosse o amor uma boneca
de porcelana descascada.

Ainda que um hospital de boneca seja necessário à reabilitação...
Bastava seu sol, seus ares de sal
Encontro no Rio o que falta em mim
Como se faltasse um coração que pulsasse
Ou melhor, tivesse um ritmo a se impor
a tudo que houvesse ou fosse razão
Para ser inteiramente tua
(Como é minha, agora, esta solidão.)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

ANIVERSARIANTES DO MÊS

EDIÇÃO COMEMORATIVA DOS MEUS 35 ANOS E DOS 3 ANOS DO BLOG


“A celebração de mais um ano de vida é a celebração de um desfazer, um tempo que deixou de ser, não mais existe. Fósforo que foi riscado. Nunca mais acenderá. Daí a profunda sabedoria do ritual de soprar as velas em festa de aniversário. (...)”

Rubem Alves


Desfaço-me da bagagem e dos badulaques que fui acumulando nesse tempo que passou.

Ao contrário de minha rotina diária (de acúmulo de papéis, de roupas, de pertenças úteis e inúteis – dependo do auxílio de minha mãe para me desfazer de tanto treco que se acumula...) eu não tenho dificuldades para me decidir por recomeços, por entender o fim de um ciclo e buscar novas realidades.

O que pra mim é insuportável é a ausência de sentido. Sentido mesmo pra vida. Saio então garimpando novas esperanças e tarefas, ainda que o cansaço me informe que talvez fosse melhor me atirar ao vício sempre à espreita que é a preguiça.

Coube tanta coisa nesses trinta e cinco anos, coube tanta coisa nesses três anos de blog. Mas é hora de me despedir desse tudo que passou e já não existe.

Eu preciso inventar uma nova fruta, eu preciso correr outras velocidades, eu preciso ganhar novos combates, eu preciso aproveitar o que já foi concluído, eu preciso ganhar novo idioma, eu preciso compreender novas descobertas, eu preciso habitar a palavra numa casa nova, eu preciso amar o amor que se me apresentará, eu preciso experimentar tantos sentidos, eu preciso dizer com outras palavras, eu preciso dizer o que não foi contado, eu preciso dizer o que já se falou, mas eu preciso como se fosse eu sempre e eu a outra, a que agora põe uma pedra (inaugural) na vida que nada mais faz que se prolongar ao finito.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

ESBATAMENTO

Enigma de cedro
(Nivea Moraes Marques)



“Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.”
Clarisse Lispector


Enigma-flor
apodrece meu coração
de leite e pedra
debulhado

Enigma-mãe
como se eu acabasse
de nascer pra dentro
e arrebentasse o meu próprio
sangue
em mil pastagens consumidas
pelo fogo de estações secas

Enigma-tarde
amadureço como uma tarde tingindo
de azul anil
promessas e
esperanças

Assim como tu és meu, assim como eu sou tua, o enigma não é essa pertença, sutil e de tempos finitos e infinitos, enigma é sabermos cada um como nos chamarmos neste tempo,
Tempo de desencontro, tempo de descalabro, tempo de bravatas e abotoaduras, tempo em que conjugo verbos distantes e você sonha com dias melhores. Ao vento... Vamos ao vento!, até um esbatamento.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

BEIJO DE TRÊS CORES

Casinha
Nivea Moraes Marques



“Planta beijo de três cores ao redor da casa”

Adélia Prado


A casa esperada não terá a petulância
de bárbaros ou a imponência de nobres

A casa tão sonhada terá apenas uma porta

E graminhas rasteiras tudo em volta

A casa trancada, será aberta ao som de palmas

A casa onde esperamos viver não terá telhados

Dormiremos sob lua, sob chuva, sob estrelas

Contudo, a casa terá paredes, terá quadros, terá tapetes

Quando tudo perder a cor, nos cobriremos com cobertas de ponto de cruz

E rezaremos terços em homenagem aos tons do amor

É bom que de tudo prescindamos menos do amor, que será farto, arte, pesadelo

de acordar suando. (para nunca termos a paz dos sentidos, a paz dos sorrisos, a paz da solidão).

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

TEMPO QUE DORME AO LADO DO MEU LEITO

Signo Arbitrário
Nivea Moraes Marques


"eu devoro o meu amor,
arbitrário como um cinco."

Antônio Carlos Secchin


Guarda as tardes em teu nome ungidas
e pendura as minhas camisolas na janela
de teu quarto

Perguntei a Deus quando viria
e Ele não me esclareceu datas
mas me confortou com as preces
de Tobias e Sara

Pede ao tempo para acompanhar meus passos
e vir dormir ao lado do meu leito
e me sorrir sorrisos de manhãs que acordam
tão simplesmente

Como uma pomba que evita correios
serei eu mesma toda a mensagem
um espírito santo que te acompanha
em qualquer jornada

Para dentro da rocha que fundamos
os aromas todos são quentes
como café acabado de cuar

Para dentro dos meus lábios
inteiros envolvidos os teus
nunca será tanta a realidade
quanto os beijos que nos daremos
e eu sei que sabemos
sempre estaremos por um triz
(pois há muito perigo na vida de quem
tão simplesmente
ama).

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

GRAVIDEZ DE RISCO

Livres no erro
Nivea Moraes Marques

Seus olhos eram livres, mas dentro do corpo de uma presidiária. Dentro
do ventre não livre, uma criança crescia. Crescendo como um fruto
proibido. Crescendo como fruto de vez sem mãos pra colher.

Seus olhos livres aconchegariam aquela criança algumas vezes, depois
partiriam distantes. E os olhos não passariam de olhos de sogra. Olhos
a pingar colírios, olhos a chorar os dias. Olhos a clamar aos céus
pequenos natais para ver o rebento correr nos pátios da alegria de ter
mãe por perto.

Nada a consolaria, a pena de sofrer as demoras de ser mãe, quando não
seria, ou quando fosse, já o cuidado de mãe não se fizesse mais tão necessário.

Chora por dentro esses dias, não os dias de espera, mas os dias de
próxima separação.

Quantos laços de fita a apertar estes laços de sangue... Sangue
pisado, retido e talhado no erro, no desvio, no lado amargo do fazer e
ser descoberto.

Quantas noites em claro, sem velar o sono febril deste filho distante.
Noites contando dias, os dias da liberdade em que correndo pros braços
deste filho, ele a reabilitaria: MÃE.

Mãe para todo o sempre e em todas as horas, sem que a sirene tocasse e
lhes lembrassem serem duas criaturas filhas da vida perdida no erro
desfeito... e filhos também da vida encontrada, oportunidade para ser livremente mãe ou filho (um no colo do outro).

terça-feira, 10 de agosto de 2010

ARIDEZ

Um lugar num interior
Nivea Moraes Marques



Piso com segurança as ruas de minha terra.

Tenho um amor rancoroso pelas ruas de minha terra.

Sou fortaleza de pedra nessas ruas de minha terra.

E se me aparece um palhaço com laço no pescoço e uma lágrima azul
pingando maquiagem na bochecha flácida fugido de uma terça-feira de carnaval

Respondo com aceno e nunca quero ir com o circo que ele integra
mambembando pelo país

Para mim, só existe uma casa
só existe um rio
só existem estes carros e essas ruas

Minha cidade é de pedra e me faz forte e ainda me arranca um sorriso
dentro de tardes sem expressão
quando trancada numa torre ao trabalho me entrego corriqueiramente
avisto do outro lado da calçada uma árvore em flor,
que minha terra inventa pra mim,
só pra não sermos somente tão a aridez de ocupar um lugar num interior.

domingo, 1 de agosto de 2010

AMANTE DO VERBO

Amor Prometido
Nivea Moraes Marques

“Do lado de lá o amor prometido caía sobre mim como cai
a complacente delicadeza sobre a brutalidade dos dias”
Leda Guerra


Às vezes eu penso que é tolice minha
esperar o amor

O que esperar enquanto esperando?

A ilusão do grande amor
quase me levou a vida
ou me trancou num manicômio
para sempre

(Graças a Deus sobrevivi)

Às vezes eu penso que é tolice minha
não esperar o amor

A desilusão do amor
me deu um palco
me encheu de palavras
me fez um com vocês

Às vezes eu penso que vou envelhecer
demais enquanto espero
e aí vai ser ridículo demais
tantas palavras colecionadas à espera

Às vezes eu penso que se é função
do tempo passar
que ele passe
e eu continue

Porque o amor brinca comigo
e se ele se esconde tanto
ou trapaceia tanto
é pra que eu diga essas tantas
palavras

E viva amante do meu próprio alfabeto.

terça-feira, 27 de julho de 2010

ENCONTRO MARCADO

Terça-feira em Barra Mansa
Nivea Moraes Marques

Apito do trem
Licor de Jabuticaba
Pinga Rochinha
Ponte de arcos
Vila Mury
Estação de trem
Parque da preguiça
Igreja da matriz
Orquestra Sinfônica
Rua do comércio
Colégio de irmãs
Rio Paraíba do Sul
Ponte velha
Pracinha do Santa Rosa
Morros sobre a planície
Coro Jovem
Metalurgia
Fazendas centenárias
Café
Leite
Folia de Reis
Cooperativa
Bordadeiras
Colônia
Churrasco
Telão
Chopp Center
Costelão
Ponto de Ação Cultural
Café Capital
Barão de Aiuruoca
Joaquim Leite
Ponce de Leon
Movimento de sábado
Crianças na escola
Linha do trem
Centro Universitário
Viola caipira
Associação dos Sertanejos
Academias ao ar livre
Liquidação da Pavan

Caminho de volta a minha terra,
meu solo de combate,
plataforma do meu sonho.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

APROPRIADAMENTE

3D
Nivea Moraes Marques


A cara do mar se abre em aromas
salobres
Nesta segunda-feira gorda
tudo é distante
(meu sonho navega num barquinho
dentro da barriga do peixe de Jonas)
A minha realidade é maior
A minha realidade é maior
(e é tão bom viver assim sem saber
em que dimensão...)

sábado, 24 de julho de 2010

RIO ABERTO


Samba arrumado
Nivea Moraes Marques

Minha ideia primeira era escrever um texto cheio de metáforas, muito poético, alguma coisa bela, muito bela, conforme o prometido, mas só consigo falar do que estamos vivendo por aqui...

Um diário não é nada tão interessante, mas como sou uma escritora que vive da escrita, tem agenda pra cumprir nos próximos quatro meses, vou apostar na minha rede de leitores e pedir licença para trazê-los todos comigo.

Acordamos sete da matina e rumamos pro centro da cidade de carro. Tomamos o café da manhã na Cafeteria Municipal, fomos mimados pelo garçon, pessoa simpatissíssima que inaugurou nosso dia com bola cheia (aliás ficamos comentando como as pessoas no Rio, em geral, tem bom humor, todos os que estavam ali, tomando café para pegar no batente ou já trabalhando, estavam com uma cara boa sem ligar, ou sem demonstrar chateação por estar de pé tão cedo num sábado chuvoso).

Depois do café, uma pequena pausa para admirar a reforma do Teatro Municipal (não pudemos tirar uma fotografia nas escadarias do teatro, pois uma turma de formandos ocupou todo o local com fotógrafos e parafernalha, mas nada nos abalou, achamos tão pitoresco e dividimos com eles o gosto da última foto com a turma ainda de estudantes).

Feito isso, ponto de encontro com os alunos da minha irmã da Oficina de Escrita do SESC/Niterói: Bondinho pra Santa Tereza. Novo encontro com pessoas bonitas e carinhosas, dividimos o Bonde e os ensinamentos do nosso guia Edson e mais um banho de simpatia carioca fazia cosquinhas nas minhas bochechas: o professor de fotografia, Fábio.

A paisagem humana ia se formando tão favoravelmente (mesmo a pobreza pegada nos cantos da rua, gritando socorro sem voz). Tudo me amparava como ser humano, tudo.

A paisagem geográfica e arquitetônica não destoaram, que maravilha de Parque das Ruínas, a casa de Laurita Lobo com seus tijolos aparentes, forradas por avencas choronas, com altitude, latitude, um mundo onde foi possível Vila Lobos, onde foi possível Isadora Duncan (senti o cheiro de todos eles lá), onde Laurita acordava e dormia, senhora de tudo isso (como até hoje é, me recebeu com bênçãos e lágrimas, o sol abriu devagar e dourou nossos perfis, tiramos uma fotografia para guardar embrulhada em papel de seda).

Também a Chácara do Céu (com seus livros e Debret em gavetinhas, me apresentando um Rio que veio a ser o que hoje é). Também as escadarias dividindo comigo Santa e Lapa (com seus gatos de esguelha): tapete de azulejo persa, estendido a nos despedir de tantos encantamentos.

Tudo me humanizava ainda, até as janelas cheias de ofendículas, a guardar a pureza das irmãs. (Para cada vida os seus cuidados e os seus propósitos.)

Completou a pintura o fim de tarde na praia, sozinhos novamente os cinco primeiros nautas, Maria Clara me abundou de gritinhos e corridinhas frenéticas para ir ao encontro ou fugir da água salgada (sua casa universal de caiçara).

Tudo isso teve uma trilha sonora, que poderia ser o som da viola renascentista do espanhol que tentou tocar na Casa das Ruínas, mas não, a trilha sonora escuto até agora do meu escritório no Leblon, um
“samba arrumado” que é animação de algum aniversário aqui nas redondezas: é lógico alguém tinha que nascer hoje!

Mas isso não foi tudo, "samba arrumado" colhi das mãos generosas de minha irmã,na frente do prédio do aniversariante e na volta de pequenas compras onde encontramos a geléia de laranja que minha mãe tanto fala que provou e nunca esqueceu em sua lua de mel em Friburgo há exatos trinta e cinco anos.

O título desse texto me deu minha irmã (que é áries, meu horóscopo complementar, segundo me revelou uma de suas alunas em nossa excursão de hoje) a geléia vamos provar no café da manhã de amanhã. Será que o no hoje cabe mais? (bola murcha só mesmo o chuveiro que não esquenta muito, mas a temperatura aqui é tão agradável... eu tô muito boba, nunca tinha vindo ao Rio antes como uma escritora de responsa rsrsrsrs)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

RIO DE JULHO

Vida de Escritora
Nivea Moraes Marques


Vim passar quatro dias com meus pais, minha irmã e minha sobrinha no Rio.

A viagem foi tranqüila, passeamos pela orla até chegar ao Leblon (ao apartamento que gentilmente nos emprestou Fábio e Afonso- respectivamente o namorado e o pai do namorado de minha irmã).

Passeando pelas ruas tranqüilas do bairro, decidi, aqui por esses poucos dias viver a vida que me caberia estando aqui, uma advogada de férias e uma escritora em seu habitat.

Nesses dias (evidentemente as contas todas pagas) poderei prestar atenção ao tempo, ao mar, aos casais, às crianças, poderei sair com um caderninho de anotações recolhendo títulos interessantes para novos textos e sobretudo escrever, saborear a vida e escrever.

Serei nesses quatros dias uma escritora interessante e interessada, terei público leitor, terei agenda para daqui quatro meses, viverei enfim a fantasia de ser literária e literal.

Diante de todo esse quadro favorável (apenas uma convalescência de dor de garganta me perturba um pouquinho) que textos maravilhosos serei capaz, que aventuras me sobrevirão, esbarrarei num novo amor? (quem sabe no Museu Chácara do Céu ou no Planetário ouvindo estrelas...)

O Rio sempre me abre portas, sempre me abre janelas... Até quando nos despedimos um tanto quanto decadente (eu) sabíamos que haveria volta. E esta volta, hoje, passados dez anos é um reencontro de amor.

Ainda que nada aconteça (o que é praticamente impossível), o Rio me fez ter a imensa felicidade de apenas estar aqui, experimentando a maravilha de ser uma escritora que apenas vive da escrita, no quadrante mais bonito (e blasé – rsrsr) do mundo.

domingo, 18 de julho de 2010

ÁRVORES QUE ANDAM

Trilha vegetal
Nivea Moraes Marques.

“(Ah! Não ter asas!...) estendeis os ramos
À esperança e ao mistério do horizonte.”
Olavo Bilac

Preciso dizer a vocês que nunca troquei palavra com uma planta. De tantas esquisitices que cercam qualquer ser humano normal, a esta ainda não me entreguei.

Mas acredito ser muito salutar tanto para a planta, quanto para o homem o dedicar-se a ouvir e dizer em palavras vegetais.

Tenho quase que uma geleira no peito quando o assunto são plantas. Aguando demais ou deixando secar, me distraio com a vida e esqueço que elas existem (não deixem suas plantinhas de estimação sob meus cuidados...)

De repente elas forçam entrada no meu campo de visão e é um milagre, ainda que silencioso, uma cerejeira branca, ou uma acácia amarela, ou as patas-de-vaca do outro lado da janela da Prefeitura. Elas se derramam sobre mim e começo a existir com elas.

As árvores convencem o céu de coisas (expostas que são ao horizonte), tais coisas para mim são incompreensíveis.

De repente elas forçam entrada no meu entendimento e é um alfabeto vegetal inteiro dentro da minha língua mãe (não que travemos diálogos e planos de conquista), mas já então posso dizer: toda noite as árvores percorrem as ruas, estradas, caminhos e se elas estão paradas quase todo o tempo é para nutrir de experiências a sua trilha secreta.

terça-feira, 13 de julho de 2010

VARIAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA

Aquário de estrelas
Nivea Moraes Marques


Guardo noites próximas
nas palmas de minhas mãos

Pequenas estrelas bordam
meus destinos,
azuis em tons escuros
matizam as cores da minha pele,
dos meus cabelos, dos meus olhos

Tudo quanto toco, envolve-se de noite
anoitecendo

(meu amor beija minha face, e cumprem-se
em procissões mil estrelinhas nascendo a noite
noitecendo meus destinos.)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

FUTURO NAMORADO

Lá fora está chovendo
Nivea Moraes Marques

“Venha sem guarda-chuva - mesmo se estiver chovendo -”
Adélia Prado

Venha sem guarda-chuva por favor e se for estação em que chove, melhor ainda.

Venha com camisa azul, venha sorrindo verdades, venha planejando ternuras, venha como quem já conhece o caminho até mim.

Venha às tardes, venha à noite, venha de manhã, toda hora seja feita para que você venha.

Se meu sorriso não te convencer que tuas viagens foram necessárias, me convença do contrário, ou do avesso, ou do nada disso, eu quero conhecer os teus argumentos.

Quando for chegando o sono, vá do mesmo modo simples como veio, usando as pernas, caminhando sobre pedras e asfalto, caminhando sobre a minha vaidade boba (quero ter que dar o braço a torcer e descobrir que é chegado o tempo propício, apenas é chegado o tempo).

Não quero que a minha e sua mão se unam porque é para se unirem é que foram feitas, eu quero que elas se unam porque justamente elas não tinham que se unir, elas se unam porque só nesse o tempo esperado para que fizessem isso.

Mas um tempo esperado não por nós, mas pelo Pai, que colabora com meus sonhos, que colabora com meus sonos, que colabora com tudo aquilo que não é óbvio, mas que é o mais certo, o mais seguro, o mais singelo e o mais puro.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO

Irmãos de Leite
Nivea Moraes Marques


“Nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas.”
José Saramago


Acabo de saber que tu te fostes para paraísos impensáveis enquanto vivias.

Sei que teu encontro com Jesus te revelou o que sempre soubestes, o que sempre criastes, o que sempre inventastes nesse sonho arrepiado que nominamos: palavra.

Penso-te à porta e que ela se abra! (rezo já por isso) Penso que por mais absurda que seja, a vida de quem contribui para alargar as margens do mundo sempre deve ser aproveitada por Deus (o que se há de ainda fazer por lá!).

Ou purgatório ou o céu, não deves te meter no inferno, as mui altas temperaturas não são propícias às palavras, que devem refrigerar pela amplitude de espaços e nunca enclausurar e sufocar com suas quermesses e panelas, suas cegueiras e planos de fuga, seus silêncios e viagens pela aldeia, sua busca de encantamento e sutil morada em algum pedaço de coração humano.

(Até os animais, quem sabe, possam também compreender-te o ponto.)

Acabo de saber que faleceu teu corpo. Que caminhos poderá seguir a tua alma, na companhia de quem até a presença Santa? Como te comportarás no tribunal?

Eu, tendo já passado a procuração para Maria, ela que diplomou-se à custa de sangue filial e espadas trespassadas no coração, conhecerá melhor todas as tuas saudades, todas as tuas indignidades, todas as tuas obras de paz e de alegria.

Mas acredito, que neste caso, o tribunal se dissolverá, e os atores cansados e surpresos com tua presença, deixarão para Jesus a tarefa desta inaugural conversa:

Jesus: Eu vivi o teu evangelho, à medida em que tu o ias construindo. (E o revivi sob os olhos de cada seu leitor...)

Saramago: Eu vivi o teu evangelho, lutando para dar voz ao que era sua voz em mim.

Hoje faleceu o idioma de Saramago, eu só pude me atrever até aqui, daqui em diante é um fazer saudade nessa pátria, nessa flor, nesse sistema uno e variável - o Português - que sempre nos fez irmãos de leite.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

UNIDADE

Trindade
(Nivea Moraes Marques)


Toda noite num gramado próximo a um conjunto de casas, encontram-se três pessoas: o Pai, o Filho e o ... Cachorro!

Eles se encontram ali para brincar e ensinar o Cachorro.

É muito silenciosa a tarefa dos três amigos e com que harmonia eles se comunicam apenas por olhares.

O Pai joga o bastão de madeira e o Cachorro corre para alcançá-lo; o Filho, na retaguarda, espera o Cachorro para abraçá-lo como prêmio e incentivo ao cumprimento da tarefa.

Dentro da relação, que empresta unidade aos meus três personagens, é a simplicidade que confere o nó do laço que os aperta.

Dentro da relação, que confere apenas uma vida aos meus três personagens, é nítida a tarefa de cada um: O Pai deflagra a ação, o Filho tem o contato físico que acompanha aquele que se envia e o Cachorro obedece ao comando e vai exercer a tarefa.

No meu coração, esses três personagens compreendem a Trindade Santa (um Deus que ao mesmo tempo é três).

Um Deus que ao mesmo tempo é três: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo (o Cachorro, dócil à vontade do Pai, próximo ao contato do Filho, presto a ser enviado).

Toda noite num gramado próximo a um conjunto de casas, encontram-se três pessoas e eu, que entendo o meu Deus na comunidade tão bonita do Pai, do Filho e do Cachorro em sua simples tarefa de conviver com afeto de pai de filho e de cachorro.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

SOBTUDO

Colcha de Areia
Nivea Moraes Marques


“Se eu apagasse a fina linha
do horizonte
será que o céu cairiano mar?
E as estrelas e a lua
começariam a navegar?”
Roseana Murray

Para cobrir-me com uma colcha bordada de areia e dormir sob um teto invisível, é porque trabalho incessantemente, tanto os dias quanto as noites.

Penhoro salários e futuros, penhoro o mapa da minha mão às ciganas e pago os seus olhos videntes para visionarem meu sorriso sem dentes.

Para comer o almoço que planejo é inútil dentes. Para dormir os sonhos que me acalmem, uns algodãozinhos azuis dentro dos ouvidos mocos.

Para abraçar o moço que me aguarda sob o sol ou sob a neve, dadas as paredes estéreis desse pequeno caso, confeitos dourados sob os casacos, constituindo corpos e lastros para o que nunca caberia em si.

Saber-nos abraçados e cobertos por tão bonita colcha, aí começaríamos o que sem fim nos espera, e esperou por tanto tempo:
notas de música cuja partitura é silêncio, lágrima e açúcar.

O milagre da vida não passa pela porta estreita de tijolos, minha colcha bordada de areia, dentro da casa que em mim passeia, é salvação para duas almas solitárias, sobtudo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

INFOMARÉ

NELA INTERNET
(Nivea Moraes Marques)


“Que veleje nesse informar”
Gilberto Gil



As teclas que pressiono foram criando um mundo que dormita num blogue. Bordo as letras que a máquina não sabe desenhar. Nesse mar velejado, espaço amplo da democracia descrente, ferramenta larga do informatizar, do infonetizar, do informar.

Mais que informação é uma alma espontânea entregue à arte das palavras, dos vocábulos, dos fones, dos sons, das sílabas a pétalas iludidas de uma flor de aço.

Nessas marés de estranhos nomes estrangeiros, magneticamente, vou me incluindo como um alfabeto guerreiro que quase nada se corrompe. Preservada tribo em meio incerto e incestuoso de uma rede que não foi trançada por mãos de homem, rede que não foi urdida em tear, mas pressupõe fome e ganas de ser o que não é novo, mas é novidade, natividade.

Busco informações para estar dentro dela, mas não sou informação, sou um coração aguado que é mais que isso: é quase dó de doação, é entrega de pão-lavras que se arranjam de forma a fazer cair pétala à pétala a flor de aço e fazer surgir cheiro de menina, sabor cítrico de laranja, contas de rosário, rezas de assunção, abraço de amigo, rio de remanso, coroa de dente, amor que não se mede, fitas de retalho, filhos que virão.

Tudo isso cabe nessa tal de rede e impressionante, você pode a tudo isso dar conta de conhecimento, pode tudo, menos segurar minha mão, que continua estendida.




quinta-feira, 6 de maio de 2010

COM CUIDADO DE ESCAMAS

À mão livre, marinha
Nivea Moraes Marques

“(...) tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas.”
Marina Colassanti


Pingo em meus pés uma gota de mar
e não sou uma ave salgada
nem uma instituição marinha

Sigo com gosto de sal nos lábios
cantando cânticos expostos

Com uma rede trançada há tempos,
capturo a espuma do que não é leite nem solo:
é verde amplitude

No roxo da areia jaz o meu sangue entre os músculos.
Com cuidado de escamas, meu extirpado coração
bate a favor
das marés

Talvez quando amanhã se descubra hoje
eu reine absolutamente sereia
nessa garrafinha artesanal
de sangue e sal desenhada.

sábado, 1 de maio de 2010

DITO DA BARRA

SAMBA DAS MOÇAS
Nivea Moraes Marques

Os pés delicados das moças, calçados em sapatilhas à moda sevilhana, guardam tantos passos de dança, que os braços em preciosa alavanca deslocam todo o corpo sem a precisão dos pés.

Sapato rasteiro não deixa os pés deslizarem, são saltos de baiana, são saltos de sereia, são saltos emprestados das mães, a estatura das moças que sambam.

Tenho comigo que as rosas se pudessem falar tramariam contra essas moças, que têm perfume de flor e saltos de pedra.

Fosse numa tarde qualquer a roda do Belico, a roda do Dário, a roda do Seu Dito da Barra, mas as moças em samba, sambam em qualquer piso e salão, apenas pela gostusura do bailar africano.

Rendas enfeitam seus colos e saias multicoloridas caem tranquilas sob seus quadris.

Seus cabelos em tranças de nonas negras, fazem um craquelê na pintura de monalisas atuais.

Brancos dentes sorriem para todos, o sorriso ganha do i um apoio e tocam o ritmo para a casa do som apurado.

É preciso ter classe no samba, é preciso ver esse samba das moças, e elas ainda cantam:

minha nega mudou o sol de lugar
cozeu o sol na panela
e toca que mexe e toca que mistura
a noite nunca é inteira
no prato branco do feijão sujo
que me espera no jantar.

domingo, 25 de abril de 2010

LUXO

Objeto de luxo
Nívea Moraes Marques


“Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.”
Adélia Prado

Acorda, é bem cedo.

Acorda, ainda é bem cedo.

Acorda será que há tempo?

Procuro homem que ainda vive para ser pai de filhos.

Moço ainda e que suporte bem o choro de crianças pela casa, a mão embrulhada em fraldas e as despesas do final do mês.

Que guarde a calculadora na gaveta e tenha controle da dispensa e não me pergunte tanto o porquê de comprar isso ao invés daquilo.

Procuro homem que volte do trabalho com uma sacolinha cheia de mixiricas, ou que traga de volta a maçã que não comeu no lanche, para a dividir com quem ficou.

Procuro homem que saiba cantar no chuveiro um roque dos anos oitenta e que ainda torça a coluna num jogo cambeta de futebol no domingo.

Procuro homem que use chinelas e durma de pijama. Procuro homem que não se surpreenda com as minhas olheiras, com a minha falta de humor para certas manias ou o meu desejo de solidão entre os dias.

Procuro homem que não tenha tantos vícios e saiba rezar, procuro homem que saiba, sobretudo, beijar e deixar-se beijar.

Procuro homem desembaraçado e que ainda sonhe com tantas inúteis idéias sobre vida em comum, que não se decepcione tanto com meus bom-dias surdos de rádio antigo.

Procuro homem que me compre presentes, procuro homem que se lembre do meu vestido azul do primeiro dia em que nem sequer sonhávamos em nos conhecer.

Procuro homem que cultive em mim uma mocidade que vá além da alvura dos meus cabelos, que sob a tintura morrem.

Procuro homem que não seja um incômodo ao lado, mas que me ensine a dividir o leito, como quem reparte um único sorvete, comprado com as últimas e escassas moedas do final do mês.

sábado, 3 de abril de 2010

Janauacá
Nivea Moraes Marques

Para o meu querido amigo Aníbal Beça


Guardo tua voz num saquinho de risadas
(para sempre me esquecer...)

Poeta que me ensinou a cor da mata
com palavras tão bonitas e inaugurais
na minha boca-nauta

Sei que não reinventaste a pólvora
mas à roda pregaste mais uma porca
e a fez, pra mim, mais firme

Quase não consigo chorar, porque meu rio ultimamente
corre para um leito mudo

Quase não consegui publicar uns restos tão
apodrecidos dos nossos ridículos segredos

Mas o que me importa dizer
é que eu preciso me vingar de tua morte
assim
tão calada.

Eu preciso me vingar a punhaladas e goles fortes
de uma bebida que poucos podem
a língua numa gota
à prova, não desintegrar:

A pureza dos que se colocam na presença de Deus e com
Ele, em versos, conversam ritmos em flauta doce.

terça-feira, 2 de março de 2010

UMA BELA CHUVERADA

Um Deus tão triste
(Nivea Moraes Marques)

"Na eternidade, ninguém se julga eterno"
Fabrício Carpinejar


Quero aprender a incluir Deus no convite de alegria que a vida me faz.

Sempre lembro do meu Deus. Desse ombro, dessa testa, dessa mão de Pai que me ampara e observa, mas principalmente e em todas as horas de angústia.

Não se trata de um relacionamento mercadológico, ou de uma prateleira de mil livros de auto-ajuda, mas meu Deus é triste... se alimenta das lágrimas que eu não choro, cachoeiras internas tão pesadas que nem vale a pena dar vazão.

Mas esses dias aqui na Terra me parecem eternos, sinto que ainda sou jovem por experimentar essa sensação, ou é o peso da vida mesma que me faz sentir tão permanentemente atada a esses dias infindáveis.

Tantas novidades já me cercam nesse ano novo (imenso) e já me vejo no Natal de novo, sem saborear um nada do que me presenteou o meu Deus tão tristinho.

Quero saber que Ele venha dançar ciranda, que Ele tenha lapsos de memória em momentos cruciais e não fique chateado ou no prejuízo, que Ele cuspa tantas regras e boas maneiras num pires de mingau, que Ele pinte o rosto e saia pra festas bonitas, que Ele veja mais filmes poéticos, que Ele leia pelo menos um livro bom, que Ele sinta o sabor de uma bebida quente no inverno, que Ele emagreça uns quilinhos sem muito esforço, que Ele encontre enfim um namorado que valha a pena, aque Ele creia que ter um filho um dia é construir um sentido pra vida, que Ele trabalhe naquilo que é bom, que dos Seus lábios saiam palavras de bendição. Que o fim do ano não seja mais um acerto de contas, seja só o início e o fim. Sem se importar com efemérides ou datas, nem mais uma era de eternidade. Que tudo apenas seja visto como mais um bom-dia sincero de quem na verdade acabou de acordar ( e tomou já uma bela chuverada!)

domingo, 3 de janeiro de 2010

FELIZ ANO NOVO!

Esse ano de 2010
(Nivea Moraes Marques)

"precisão doce de flor"
João Cabral de Melo Neto


A minha visão dessa janela é o trem que passa e apita para eu ensurdecer a cada instante um pouco, como de ferro vai deixando as minhas vistas.

Há prédios velhos com a pintura descascada, um conjunto de morrinhos modestos, e um céu muito poluído por nuvens brancas.

Não há passagem para um poeta.

Quando me pedem para parar de lapidar palavras frias e criar um mundo de idéias dentro de um romance, uma novela, um conto, ou uma carochinha... Não xingo essa flauta que nasceu comigo. Antes espero que a qualquer hora qualquer um possa ver essa rocha que cultivo, esses minerais, esses líquidos, essas pedras subterrâneas que às vezes me servem de abrigo.

Penso que não há mesmo passagem, porque não há bilhete a ser comprado, ou combustível que a possa levantar do chão, mas os seus pés são tão polidos que até dá pra ver uma parte da anágua, ou os dedos escondidos.

Pudesse eu encontrar-me mais vezes nesse solo e a luz de Deus num fiat realmente se faria e para todos a precisão da flor seria um doce degustado, mas são poucos, talvez não raros, mas são muito poucos os que pertencem a essa lida e são menos ainda os que se importam com ela.


Para cada nada de ninguém está para nascer um e como me alegra ainda poder com este comungar!

No entanto, meu beijo é para todas as faces e aparo com algumas palavras a luz desse ano que teima e recomeça:


Os dias são os mesmos... as horas... os meses...,
mas juntos ganham um único número na existência
e já não é mais esse ano de 2010
é uma nova oportunidade de saber de que cor é
essa rosa que não morre no meu peito.