ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

domingo, 2 de agosto de 2009

POROROCA

rio e mar
Nivea Moraes Marques

“Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar”
Chico Buarque


Nos meus olhos as marés fazem
seu incansável trabalho de partir e chegar
o mar é o meu berço, meu alimento, minha terra
meu partido, minha embarcação, meu cansaço, minha realidade
meu companheiro, minha audácia, minha vida, meu tempero
minha maravilha, minha angústia, minha amargura

um rio fino de lágrimas escorrem dos meus olhos,
e é o rio que passa pela minha cidade, e é o rio da minha infância
e é o rio que devotamente cuida agora de mim, e é o rio que me procura
e é o outro rio também, é o rio da minha desgraça, é o rio que me mata,
é o rio que me abandonou, é o rio que me perdeu o caminho, é o rio do não posso,
é o rio do não quero mais, é o rio do não dá, e é o rio doce que mais amargura assentou no meu olhar
que vive ainda e viverá, mansamente, as marés do partir e chegar.