ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

segunda-feira, 1 de junho de 2009

HOMENAGEM A HEITOR VILLA LOBOS

Melodia Sentimental
(Nivea Moraes Marques)

Dentro do teu sorriso
guardei as ondas do
mar (em cujas águas
eu nunca me atrevi)

Aceno e mando beijos
pra tua miragem
de areia

Jamais poderei saber
se é invenção
esse amor-longitude
que mais e mais me afasta
daquelas águas
(temeroso de um afogamento
definitivo)
Como foi definitivo pra mim
o teu sorriso.

Plangente, agora mergulho
meus pés (nunca me
salvarias)
Embora eu sempre te esperasse.

* * *


Valsa-choro
(Nivea Moraes Marques)

Meu vestido de baile
em degradê lilás
prende minhas formas
aos meus 17 anos
e não me permite
novidades ao longo do tempo

Calço minhas luvas
meus sapatos
minhas simples jóias
debutantes

Contudo, nunca mais
usei o mesmo batom.
Conservo no espelho
daquelas horas
os lábios que não mais
terei como os tive
dentro de si, recortados

Quase chorando, o teu
terno branco manchei
e guardei sem uso o batom daquele dia

Para que nem
uma outra vez
você se desfaça
do que foi teu
em mim:

Meu lábio seco,
como secas flores
de árvores infrutíferas

* * *

Alma Brasileira
(Nivea Moraes Marques)


Meus peizinhos de Palmira a flor d’água ferem. Peixinhos verdes e azuis em cascata de cardume fazem ponte para que eu nade a céu aberto, à margem do mar.
Todas as fontes e olhos d’água secam quando Maíra chora.
Iracema também vê em chamas toda a mística de amor que vive num coração temente.
Jacy cora diante destas moças de cabelos escorridos e roupas coloridas, vestidas de prima-dona e com os pés descalços.
Flautas doces tocam suas suaves lendas ao comando daqueles que respiram e sopram, sopram e respiram. O fôlego do músico seca a cor das águas, azeita os cascos dos jabutis e enrola a ladainha das sogras.
Há quanto tempo? Diz dona Filha.
Há quanto tempo o Espírito Santo inventa em nós novas línguas, como um dom menor, para que Deus diga, usando nossas mesmas vozes, diga que é preciso guardar as pérolas pescadas pela alma.
Brejeiro esplende em panos de guardar confetes, dói dedilhar as suas modas.
E quando não mais doer? (Olha-me sapeca e questionadora dona Cininha)
Acho que vou desistir...
Moema morreu atracada àquele amor.
E também era sábado, e também não havia salvação...
“Boa tarde, sá Lica!”
Hoje me visto de esperança e observo meus antepassados, reciclei um traje todo feito de misérias, mas que a essas horas e com esse sol na garganta só poderiam servir para as minhas próximas e futuras bodas.
Brasil: Eu ainda vou amar!

* * *

O Chicote do Diabinho
(Nivea Moraes Marques)


Esse menino vermelho de raiva
Que cospe fogo
E foge da tabuada

Vem vindo em minha direção
Para dar em mim
Suas chicotadas

Cabeça dura
Pumba: duas chicotadas!!
Mentirinha pra rimar
Pimba: cinco chicotadas!!!!!
Boca dura pros pais
Pomba: oito chicotadas!!!!!!!!

Parece que faz justiça, mas disso ele não sabe nada...
Joga na cara da gente as nossas burradas
Mas no fundo queria ter asas
Tocar harpa
Vestir azul

Mas invejoso, só está feliz em vermelho
pregando fogo pelas ventas
e vadiando pelas estradas.

* * *


A manhã do Pierrete
(Nivea Moraes Marques)


Na noite do baile
O samba parou
Quando a lágrima negra
Brilhou
Nas bochechas brancas do Pierrete

Ausente aos sons e cores do carnaval
Era em preto e branco os sonhos deste brincante

Colombina, sempre o seu amor,
se deslindava do seu abraço como se fosse mais uma desconhecida
na multidão

Sua manhã era bela e triste era só e amarela (para fazer
Brilhar mais e mais sua lágrima negra).