ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sexta-feira, 24 de abril de 2009

PORQUE A VIDA NÃO É SEM O DEPOIS

MATÉRIA DE AMOR
Nivea Moraes Marques


“O coração que desaba
Não esmaga o amor”
Paulinho da Viola


Sem explicação, tudo que acaba
deixa um sinal

Sem o estrondo de um milagre
Sem o barulho dos pés no assoalho dos salões

Meu corpo, mesmo em profundo silêncio
tece meu filho entre as manhãs

Meu corpo, mesmo em profundo silêncio
sente a presença pura e humilde
do corpo daquele que vem

Há sinais que nunca desaparecem
No entanto, a vida que será
sabe se impor a esses acontecimentos
Como a madeira que queima,
sabe que também será cinzas,
mais ainda, é a matéria que alimenta o fogo.

terça-feira, 7 de abril de 2009

SEMANA SANTA

CRISTO MORTO
Nivea Moraes Marques


“Ali vai o filho
de Nossa Senhora da Anunciação!”

Hoje seu rosto vermelho de sangue
Redime as minhas memórias, o que ainda nem sei
Mas sou ou serei.

Hoje seus pés rachados, suas chagas sagradas
Sinalizam meu único caminho:
meu caminho para o céu.

De longe ou de perto os anjos me olham
E se perguntam até quando e onde ainda trairei meu Senhor.

Há duras pedras e paus para jogar-lhe no lombo
Há duras mentiras e tropeços para atirar-lhe no rosto

Cumprem-se as horas...

Mas Arimatéia, Maria de Magdala e tantos outros souberam
acolher o Seu corpo santo, neste santo mistério.

Ressuretos com Ele, salvam-se a si mesmos
Transfundindo seu sangue no d’Ele
(e costuraram margaridas em Suas brancas vestes)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

HABITANIA

Habitania
Nivea Moraes Marques

"(...)
pensaria que encomendo minha alma, não que digo teu nome."
Atencia

Dentro do meu rosto habitam
sete aves
nove mulheres
e 33 expressões
O suor que exuda o meu rosto
molda varandas, janelas, luvas nessa pele
quase jovem
Existiam dias para perceber outras
faces (quase as mesmas)
mas hoje, agora, ultimamente só observo
paisagens, bois e nuvens
Dentro do meu rosto habitam
sete véus
nove mulas
e 33 escravos
Por meus olhos avisto casas caiadas, jarro de
flores e frutas de vez
não há móveis e couros curtidos
nem remédios para dores que não perecem
há pasto para coisas inúteis
e velas para viagens ao redor do nada.
Dentro do meu rosto habitam
habitam e desabitam
chovem e secam
derrubam e constróem
Dentro do meu rosto habitam
livros traças e bichos
delicadas selvagerias delicadas verdades
delicadas hospitalidades
E habito o que tem dentro da minha
face, não como um hóspede,
mas como dona
mas como quem tem vida plena
mas como um caleidoscópio doce
e desde ontem pude me responder:
não é seu nome que habita o
meu corpo,
apenas suas mãos.