ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sábado, 20 de setembro de 2008

TEMPOS CONJUGADOS

CONJUGAÇÃO
Nivea Moraes Marques





Dentro do meu coração, construí ilhotas e praias mansas.

Houve dias em que tudo estava mudo e morto.

Houve dias para incessante pranto.

Nunca chorei tanto, nunca rezei tanto para recuperar em três dias aquilo que nunca foi.

Houve dias convertidos em noites em que a morte era a minha única vizinha.

Mas dentro do meu coração moram vermelhos de todas as cores.

E dentro do meu coração construí ilhotas e praias mansas.

Minha mãe me diz que estou conformada com a vida que levo. Eu penso que a vida que levo me transforma cada dia.

Cada dia sou mais menina e olho a vida como a força daquilo que é.

Cada dia aceito mais todas as minhas impossibilidades e aposto cada dia mais nas minhas possibilidades.

Não aceito desperdiçar um nada de vida, embora minha própria vida seja já em si um grande desperdício.

E por isso ela se torna mais bela e por isso eu me torno mais livre e mais responsável. Pois sei que é presente e que é neste mesmo tempo que eu vou entregar cada ilhota e praia mansa que suja meu corpo no corpo daquele homem: meu presente e meu futuro.

Porque o passado nunca me pertenceu e esse tempo já não tem mesmo a menor importância.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

CASAMENTO

O sol do casamento
Nivea Moraes Marques


Entro pacata no meu próprio solo.

Confiro no espelho umas rugas decrescentes e um colo sete quilos mais magro.

Ainda não emagreci tudo. Ainda não envelheci nada.

A noite cai devagar e tão sensata. Tudo em harmonia com a minha abstinência alcoólica.

A vida não tem a mesma graça de antes, mas eu aprendi a gostar de uma bela gelada sem álcool.

Tudo respira em tranqüilidade e eu pouso minha cabeça num justo e fofo travesseiro no final do dia.

Cheguei num momento certeiro onde tudo o que eu preciso é por novas coisas no lugar das velhas.

Preciso viver uma vida nova, uma novidade gostosa como os sorvetes que eu tomo com minha mãe nas tardes de sábado observando vitrines e modas.

Adquiri gestos mais femininos e um perfil quase maternal.

Mas é preciso por coisas novas no lugar das velhas.

Ter uma chance de começar tudo de novo, agora com o pé direito.

Ter uma chance de olhar pela janela e esperar o melhor... Esperar que ele venha. Que ele volte de seus afazeres e nada mais tenha importância. Só as nossas mãos unidas.

Às vezes eu penso que encontrei a chance de mudar o fim dessa história, mas não sou eu que me navego é meu Deus que vive em mim.

Deixo que Ele decida por me dar essa chance. Chance de viver um amor humano e que este amor não se alimente de migalhas, de pecados, de desilusões, partidos e perdidos passados.

Quero tudo novo.

E no meu colo sete quilos mais magro tatuei não o nome da minha tão sonhada chance, mas o sol que iluminará todos os nossos amanhecimentos conjugais.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A BARRIGA DO BICHO PAPÃO

A barriga do bicho Papão
Nivea Moraes Marques


Dentro da barriga do bicho Papão
Moram exércitos de formigas
Tampas plásticas e
Bolas de soprar

Não cabem crianças lá!

Dentro da barriga do bicho Papão
Quando a fome nasce
Dá um grito
E ocupa de vazio
Todo o espaço

(Não cabem crianças lá)

Dentro da barriga do bicho Papão
Tem galocha velha
Meia furada
Bico de mamadeira e chupeta gasta

Mas não cabem crianças lá!

Quando vejo um bicho papão bem gordão
Cheio de marra e pronto pra pegar a gente
Penso logo no raio x
Que fiz :

Bagunça cabe
Nariz de palhaço cabe
Regador empenado cabe
Bicicleta com pneu esvaziado cabe
E... não cabem crianças lá!