ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

segunda-feira, 28 de abril de 2008

MURALHA

Muralha
Nivea Moraes Marques

Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas.
Ferreira Gullar


Com a boca cheia da palavra esperança
dançam homens bonitos e sãos

com palavras cheias de graminhas
e margaridas azuis
construímos corpos inteiros
que nutrem sóis para o céu

quando chove nossos olhos choram
e de mãos dadas
nem queremos um observatório para o futuro

dentro do dia de hoje
apenas damos graças
e sujos de fabricar os nossos próprios pães
rezamos para que não acabe nunca a nossa tarefa.

sábado, 26 de abril de 2008

CLARISSA II

Clarissa (no princípio...)
Nivea Moraes Marques


“Sobre um sentimento assim não se põe uma pedra
e se segue em frente.
Mesmo que eu siga, sem olhar pra trás
a pedra
florescerá
secretamente.”
Affonso Romano de Sant’anna


Secretamente florescia em Clarissa memoráveis histórias românticas que deveriam para sempre ser esquecidas e para sempre Clarissa colheria desse jardim as flores geradas desse esquecimento.

Miguel nunca faria parte dessa história, porque entre eles selou-se o “para sempre”, mas o “para sempre” próprio dos contos-de-fadas.

Miguel não era a flor mais bela dentre as todas cultivadas (com e sem memória de sua razão de ser), mas com certeza era a flor mais resistente e a que mantinha suas cores por todas as estações, apesar do frio e da queda das folhas das árvores; Miguel era a flor que tinha constantemente sua terra revolvida por mãos delicadas, adubado e regado com lágrimas, água de chuva e água de mina.

Clarissa não ocultava sua crença na ordem do matrimônio, pacificada há tanto tempo pela castidade, entendia o corpo de Miguel como o seu próprio corpo e alternava esse entendimento por todos os estados de desejo, vontade, piedade, solidão por que passaram e passavam ao longo de todo contínuo “para sempre”.

Miguel guardava bilhetinhos nos bolsos de Clarissa e sempre a sua palavra (como que ganhando poderes de Deus) criava em Clarissa um berço propício. “Faça-se!”

Clarissa confiava no Deus que morava em Miguel, mas muito mais no Deus que os criou e decifrando as mensagens bíblicas, seu trabalho era conservar as virtudes de esposa, no contínuo bordar e cerzir as camisas de Miguel.

Junto com as miçangas e pitangas, discretamente pingam umas palavras. No entanto, Clarissa não espera criar coisa alguma em Miguel, apenas manter a temperatura das coisas como eram no princípio.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

CLARISSA

Clarissa
Nivea Moraes Marques


“Sou selvagem na selva do meu peito a chama que se chama coração.”
Geraldo Carneiro



Traduz na minha pele
os teus sorrisos
nas manhãs extintas
Sê em mim a extinção
dos animais
Retruca cada pernada
com balaios e tocas
Traduz na minha pele
a força que não quer exercer
Nas manhãs que virão
impede o sol do vir a ser
com as reprises dos beijos
e das línguas estrangeiras
que arduamente aprendemos
só para a nossa saudação.

Sou selvagem na selva
dos meus pelos
Mas meu coração permanece
resfriado a temperaturas muito lúcidas
e calmamente se destrói e se refaz
à distância de tuas mãos

Ser bicho nessa selva
hoje em dia é muito mais caro
e exigiria de você mais do que todas as manhãs
Mas se não exigisse, se apenas pedisse
seria completamente intangível para
as algibeiras de um pobre poeta.