ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

CACO DE SONHO

Cacos com que a gente ainda se corta
Nivea Moraes Marques

Para Patrick Castro


"Mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
até hoje
a gente se corta"
Alex Polari

Piso as pedras da rua com segurança. Não quero olhar para trás. Sem estátuas de sal, sem testemunhas, sigo o caminho que tem pra ser meu.
Dentro do meu coração os sinos soam e o meu Deus olha pra mim, um tanto quanto interrogativo... Onde foi que guardei seus ensinamentos.
Construir uma nova família é um desafio, construir é um desafio.
Dentro do meu coração existe um lugar pra meu Deus e para os meus. Não há conflitos de competência, nem de hierarquia.
Eu preciso ter tudo, porque conheci o lugar em que jaz o não ter nada.
Quero bênçãos e flor de laranjeira, a castidade da fidelidade e colchas de crochê.
Piso as pedras da rua e já então um novo sonho brota feito água boa de mina e já tem nome, e já tem olhos, e já tem história, e já faz festa no céu da minha boca.
Posso ouvir aquelas músicas e me lembrar de como éramos lindos enquanto adolescíamos...
Presa a revoluções por minuto ou sentindo o céu cinzento de uma tão próxima"London London", era capaz de nada e por isso mesmo queria ter o dobro da minha idade.
Chegamos ao dobro e sinto (na brisa virtual que chega), que não perdemos aquela inocência, que guardamos uma ternura e uma maneira amorosa de ver o mundo.
Posso estar irremediavelmente certa, assim como irremediavelmente a nossa breve conversa me trouxe à pele tantos cacos de vidro.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

RECOMEÇO

"(...)se multipliquei a minha dor,
Também multipliquei a minha esperança."

Paulo Mendes Campos

De volta ao começo
Nivea Moraes Marques

Minha língua tocou num susto a tua
e de repente eu inteira já não conhecia outro caminho
que não o teu

E sonhei os campos de trigo
em que nossos pés descalços pisariam
(cúmplices de todas as caminhadas)

Foi um sonho sem alento
e de noite e meia
tudo ficou pela metade
menos a tua lembrança
o cheiro do teu corpo
a voz das tuas palavras...

Agora que entendo
o que foi a sua covardia
aceito completamente o que foram
aqueles dias e todos os imensos anos
que os sucederam

Agora peço-te calma
peço que aproveite bem
a vida que escolheste
porque seria tão mais doloroso pra mim,
saber que aquele sonho todo
se perdeu por muito pouco
e que esse pouco ainda foi muito mais
que aquele susto, que aquele beijo...

domingo, 16 de novembro de 2008

PARA DIZER TODAS AS SÍLABAS DO TEU NOME

Idioma
Nivea Moraes Marques


"uma lição de sangue te concedeu o fogo,
da farinha aprendeste a ser sagrada,
e do pão o idioma e o aroma."

Pablo Neruda


As minhas palavras
são guerreiros armados
dentro de tuas mãos fechadas

Em cárcere privado,
sussuram cânticos bélicos
buscam asas (para nunca voar).

Quisera um campo aberto
aonde pusesse em gritos
todas as minhas vogais

Mas contidas, doloridas
e quase invisíveis
só falam através de consonantais sobras e urros

Carpideiras, violentas tradutoras
não esperam a chance das emboscadas
não esperam um descuido do carcereiro
só repetem, em baladas, as frases com que
cuidadosamente as ensino mês a mês

Mês a mês têm uma espada
que abre um combate a sangue frio
(não menstruam mais)
mas sabem bem o gosto do sangue que as sustenta
e rola na veia inimiga

Beijo, beijo, beijo
viajam infinitas águas e estrelas
procurando a cena fatal:
abre-se uma portinhola por onde todas
saídas pensam em dizer tudo,
mas já então estão mudas.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

EDIÇÃO COMEMORATIVA

I ano de vida do blog Retratada



"O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."
João Cabral de Melo Neto


O que venho publicando neste blog (nesta gaveta aberta como quer meu amigo Fabrício) são poemas e escritos que na verdade fazem figuração sobre o mesmo tema: o amor... São cantigas de amigo ou cantigas de amor, mas mesmo quando são palavras dirigidas aos pequenos, recorro ao mesmo tema.
Mário Quintana já dizia que todos os poemas são de amor. E eu concordo com ele.
Por isso agradeço a todos os visitantes que aqui se detiveram um pouco, agradeço mais ainda aos que deixaram os seus comentários (retirando de cena aquela velha companheira do escritor que é a solidão). Espero sinceramente que retornem muitas vezes e se agradem do que possam ver e sentir por aqui.
Comemoro com vocês também a graça de estar completando 33 anos, no mesmo mês de aniversário do blog!
Agora termino esta edição de aniversário, como não podia deixar de ser, com um poema de amor.
Abraços em todos, Nivea.

AMOR COTIDIANO
Nivea Moraes Marques


Quando toca de leve o meu rosto
e sei que o cansaço já não pode mais nada
deito minha cabeça no seu colo
e caem, discretas, duas lágrimas dos meus olhos

(Uma em cada lado da face)
Não deixo você perceber
que já me é impossível
ser mais feliz do que sou

Então seguro-me em tuas mãos
e torço para que a gravidade
ou os ventos (que são muitos)
nos empurrem a uma intimidade
cada dia mais visível

Para que não sejamos mais tão
alicerçados nesse sentimento
tão indeciso como é a felicidade

Seguro-me em tuas mãos
para estar certa de que existimos
e estamos tão fisicamente juntos
pro que der e vier.

sábado, 20 de setembro de 2008

TEMPOS CONJUGADOS

CONJUGAÇÃO
Nivea Moraes Marques





Dentro do meu coração, construí ilhotas e praias mansas.

Houve dias em que tudo estava mudo e morto.

Houve dias para incessante pranto.

Nunca chorei tanto, nunca rezei tanto para recuperar em três dias aquilo que nunca foi.

Houve dias convertidos em noites em que a morte era a minha única vizinha.

Mas dentro do meu coração moram vermelhos de todas as cores.

E dentro do meu coração construí ilhotas e praias mansas.

Minha mãe me diz que estou conformada com a vida que levo. Eu penso que a vida que levo me transforma cada dia.

Cada dia sou mais menina e olho a vida como a força daquilo que é.

Cada dia aceito mais todas as minhas impossibilidades e aposto cada dia mais nas minhas possibilidades.

Não aceito desperdiçar um nada de vida, embora minha própria vida seja já em si um grande desperdício.

E por isso ela se torna mais bela e por isso eu me torno mais livre e mais responsável. Pois sei que é presente e que é neste mesmo tempo que eu vou entregar cada ilhota e praia mansa que suja meu corpo no corpo daquele homem: meu presente e meu futuro.

Porque o passado nunca me pertenceu e esse tempo já não tem mesmo a menor importância.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

CASAMENTO

O sol do casamento
Nivea Moraes Marques


Entro pacata no meu próprio solo.

Confiro no espelho umas rugas decrescentes e um colo sete quilos mais magro.

Ainda não emagreci tudo. Ainda não envelheci nada.

A noite cai devagar e tão sensata. Tudo em harmonia com a minha abstinência alcoólica.

A vida não tem a mesma graça de antes, mas eu aprendi a gostar de uma bela gelada sem álcool.

Tudo respira em tranqüilidade e eu pouso minha cabeça num justo e fofo travesseiro no final do dia.

Cheguei num momento certeiro onde tudo o que eu preciso é por novas coisas no lugar das velhas.

Preciso viver uma vida nova, uma novidade gostosa como os sorvetes que eu tomo com minha mãe nas tardes de sábado observando vitrines e modas.

Adquiri gestos mais femininos e um perfil quase maternal.

Mas é preciso por coisas novas no lugar das velhas.

Ter uma chance de começar tudo de novo, agora com o pé direito.

Ter uma chance de olhar pela janela e esperar o melhor... Esperar que ele venha. Que ele volte de seus afazeres e nada mais tenha importância. Só as nossas mãos unidas.

Às vezes eu penso que encontrei a chance de mudar o fim dessa história, mas não sou eu que me navego é meu Deus que vive em mim.

Deixo que Ele decida por me dar essa chance. Chance de viver um amor humano e que este amor não se alimente de migalhas, de pecados, de desilusões, partidos e perdidos passados.

Quero tudo novo.

E no meu colo sete quilos mais magro tatuei não o nome da minha tão sonhada chance, mas o sol que iluminará todos os nossos amanhecimentos conjugais.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A BARRIGA DO BICHO PAPÃO

A barriga do bicho Papão
Nivea Moraes Marques


Dentro da barriga do bicho Papão
Moram exércitos de formigas
Tampas plásticas e
Bolas de soprar

Não cabem crianças lá!

Dentro da barriga do bicho Papão
Quando a fome nasce
Dá um grito
E ocupa de vazio
Todo o espaço

(Não cabem crianças lá)

Dentro da barriga do bicho Papão
Tem galocha velha
Meia furada
Bico de mamadeira e chupeta gasta

Mas não cabem crianças lá!

Quando vejo um bicho papão bem gordão
Cheio de marra e pronto pra pegar a gente
Penso logo no raio x
Que fiz :

Bagunça cabe
Nariz de palhaço cabe
Regador empenado cabe
Bicicleta com pneu esvaziado cabe
E... não cabem crianças lá!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

FLAMINGO

FLAMINGO
Nivea Moraes Marques


“Onde estavam os flamingos rosa,
dormindo o dia nos aquilinos bicos?
(...)
O incómodo da primavera dos homens,
sempre dispostos a perturbar a serenidade
dos belos mundos
que desconhece.”

Helder F. Raimundo



Essa estação que é o frio
está se prolongando
e me aborrece

Quando for embora
já terei um novo ano
e serei uma menina-velha.

Quanto tempo faz
que não notei
já não caber um simples beijo
no meu solo

minha seiva
desperta para grandes jornadas,
jorrando o sangue
das guerras

(nunca mais trarei o ruge nas faces
nem o corpo coberto por rosáceo açúcar:
Onde estavam os flamingos rosa
Quando resolvi doar meus bens em vida?)

Naturalmente,
as marcas de tantos instantes vividos
mais que denunciará
a minha imortalidade.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

MAÇÃS

Maçãs
Nivea Moraes Marques


“rouba-me as maçãs
do rosto”
Lorena Martins


Dentro de tuas mãos, colhidas as minhas maçãs do rosto.

Em silêncio, desfiguro-me para te doar um pedaço do que sou.

Como figura de Pablo, não me reconheço ao olhar-me no espelho.

Esta transfiguração abala minha língua, eu definho em silêncios seguidos de chuvas de letras, ou chuvas de letras seguidas de definhosos silêncios.

Dentro de tuas mãos minhas maçãs constroem asas e aeroplanos. Elas desejam um plano de fuga. Mas você as aperta com tanta e tão doce delicadeza, que o plano se aborta.

Meus olhos procuram essa face subjugada, mas só encontram paz.

Durmo parcialmente descarnada e acordo uma nova mulher.

(Dentro deste segredo mora um anjo, um anjo que se chama solidão.)

terça-feira, 3 de junho de 2008

A VELA DO MEU CORAÇÃO

A vela do meu coração

Nivea Moraes Marques




Minhas mãos conjugam meu silêncio.

Minha pele se submete aos desejos do tempo.

Durmo sonos que são verdadeiras jornadas, no escuro e de olhos fechados.

Houve dias para sorrir sem motivos. Hoje não há mais.

Lembro-me de coisas totalmente vãs, que gostariam de entender o que pode o amor, mas nunca poderiam...

Agora e adiante são calmos e claros todos os meus dias.

Minhas mãos conjugam meu silêncio.

Meu coração não está preparado para receber em casa o amor.

Meu coração está vivo num deserto de gelo, em meio a plantações esculpidas em icebergs.

Nunca mais vou te conquistar, nunca mais vou te convidar, nunca mais vou te enviar mensagens, nunca mais vou construir-te novos poemas, nunca mais vou sair primeiro, nunca mais.

Aprendi a querer ser a escolhida, ser uma fruta que pende no topo da copa das árvores.

Corro tantos riscos: amadurecer de podre e me estilhaçar num chão bem maior que o céu.

Ou também, de tão madura e por colher, posso servir para alimentar os pássaros, não pertencer a qualquer camponês, mas ser providência de Deus na vida de criaturas que nunca plantarão ou colherão seu próprio alimento e que são o Deus dará.

Há muita poesia na vida que levo. Ainda que muito diminuída estejam as minhas expectativas de que encontre o amor enfim o meu termo.

Sei e nunca me esqueci de que o amor sabe achar maravilhas. E penso e quase posso ouvir a voz suave do meu bem-amado, posso ver como mirando num caleidoscópio os seus encantos, posso tocar nas suas delicadas mãos (caladas como as minhas).

Espero por longas caminhas lado a lado, espero por tímidos abraços no meio da rua, espero secar suas lágrimas com os meus cabelos, espero trocar qualquer sonho por simultâneos sonos e um único e austero beijo de boa noite.

Contudo as estações que se revezam na minha vida brotam muito lentamente a fruta que serei.
Não guardo ainda em vigília os nossos dias santos.

Há muito o que ser feito, trabalho de restaurador, trabalho de construtor, trabalho de delicadeza, trabalho duro, trabalho tirano, trabalho diuturno.

Sei que é verdadeira a promessa de primícias, sei que é desafio para nós que queremos céu, mas há que se cumprir a eternidade de um amor pra mim.

Se para passarinhos ou se para um único e derradeiro homem, meu amor não morrerá em pecado.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

MURALHA

Muralha
Nivea Moraes Marques

Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas.
Ferreira Gullar


Com a boca cheia da palavra esperança
dançam homens bonitos e sãos

com palavras cheias de graminhas
e margaridas azuis
construímos corpos inteiros
que nutrem sóis para o céu

quando chove nossos olhos choram
e de mãos dadas
nem queremos um observatório para o futuro

dentro do dia de hoje
apenas damos graças
e sujos de fabricar os nossos próprios pães
rezamos para que não acabe nunca a nossa tarefa.

sábado, 26 de abril de 2008

CLARISSA II

Clarissa (no princípio...)
Nivea Moraes Marques


“Sobre um sentimento assim não se põe uma pedra
e se segue em frente.
Mesmo que eu siga, sem olhar pra trás
a pedra
florescerá
secretamente.”
Affonso Romano de Sant’anna


Secretamente florescia em Clarissa memoráveis histórias românticas que deveriam para sempre ser esquecidas e para sempre Clarissa colheria desse jardim as flores geradas desse esquecimento.

Miguel nunca faria parte dessa história, porque entre eles selou-se o “para sempre”, mas o “para sempre” próprio dos contos-de-fadas.

Miguel não era a flor mais bela dentre as todas cultivadas (com e sem memória de sua razão de ser), mas com certeza era a flor mais resistente e a que mantinha suas cores por todas as estações, apesar do frio e da queda das folhas das árvores; Miguel era a flor que tinha constantemente sua terra revolvida por mãos delicadas, adubado e regado com lágrimas, água de chuva e água de mina.

Clarissa não ocultava sua crença na ordem do matrimônio, pacificada há tanto tempo pela castidade, entendia o corpo de Miguel como o seu próprio corpo e alternava esse entendimento por todos os estados de desejo, vontade, piedade, solidão por que passaram e passavam ao longo de todo contínuo “para sempre”.

Miguel guardava bilhetinhos nos bolsos de Clarissa e sempre a sua palavra (como que ganhando poderes de Deus) criava em Clarissa um berço propício. “Faça-se!”

Clarissa confiava no Deus que morava em Miguel, mas muito mais no Deus que os criou e decifrando as mensagens bíblicas, seu trabalho era conservar as virtudes de esposa, no contínuo bordar e cerzir as camisas de Miguel.

Junto com as miçangas e pitangas, discretamente pingam umas palavras. No entanto, Clarissa não espera criar coisa alguma em Miguel, apenas manter a temperatura das coisas como eram no princípio.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

CLARISSA

Clarissa
Nivea Moraes Marques


“Sou selvagem na selva do meu peito a chama que se chama coração.”
Geraldo Carneiro



Traduz na minha pele
os teus sorrisos
nas manhãs extintas
Sê em mim a extinção
dos animais
Retruca cada pernada
com balaios e tocas
Traduz na minha pele
a força que não quer exercer
Nas manhãs que virão
impede o sol do vir a ser
com as reprises dos beijos
e das línguas estrangeiras
que arduamente aprendemos
só para a nossa saudação.

Sou selvagem na selva
dos meus pelos
Mas meu coração permanece
resfriado a temperaturas muito lúcidas
e calmamente se destrói e se refaz
à distância de tuas mãos

Ser bicho nessa selva
hoje em dia é muito mais caro
e exigiria de você mais do que todas as manhãs
Mas se não exigisse, se apenas pedisse
seria completamente intangível para
as algibeiras de um pobre poeta.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

"COLHER DE CHÁ PRA POESIA"

No dia 08/03/08 às 16:30h
no PAC acontecerá
o primeiro
"Colher de chá pra poesia"
Recital acompanhado de chá colonial
Primeiro evento do ano no PAC
dará início às comemorações dos 29 anos do Ponto de Ação Cultural
O recital foi idealizado e está sendo coordenado pela poeta
e membro da comissão gestora do PAC, Nivea Moraes Marques.
Os recitadores serão poetas, atrizes e atores locais e o recital está dividido em três blocos
no primeiro momento serão mulheres recitando poemas de mulheres
após o primeiro bloco, haverá então um intervalo para o chá
e no terceiro bloco serão homens recitando poemas sobre as mulheres,
tudo numa homenagem ao dia internacional da mulher
Às mulheres que comparecerem ao evento será entregue um pequeno presente do PAC.
O ingresso individual está sendo vendido a cinco reais por meio de contato no e-mail nivea@barramansa.rj.gov.br ou no próprio PAC (Rua Pedro Vaz, n.1, centro, Barra Mansa/RJ) na parte da tarde.

domingo, 6 de janeiro de 2008

FLOR AZUL

Ave do Paraíso
Nivea Moraes Marques


No centro da rotunda
habita uma ave azul.
Suas penas pedem um pouco de
silêncio
e qualquer demora
que os passantes possam entregar a Deus.
Já que Deus não nos pede tempo
nem a vida nos despede sem tê-lo gastado
o quanto baste
para apenas dizermos: vivi o meu tempo!

Outras aves menores habitam
a rotunda
Embora pudessem ser mais lindas que a ave azul,
não são.
Suas penas
não reclamam tempo
mas desfazem os véus
do casamento que esperei e espero
ainda nessa vida.

Vida contraída na cauda desses
pássaros
que não sabem onde o vôo não permitido,
pelo menos por hora.
Hora em que o veterinário
ensina à platéia
os hábitos da natureza para com as aves
os hábitos das aves para com a natureza.

Imóveis nos pequenos passos
de asas tão recolhidas,
não me perguntam mais:
“Terá ele um nome?”

Eu até poderia pensar
fosse ele mesmo o veterinário
(pois minhas pulgas catou-as
uma a uma
a pele respira livre das marcas
sangue-suga desses bichos que
não mais me pontuam)


Rezo como se fosse ave
guardada em vida numa rotunda

Não peço que venhas ter comigo,
já sei como devo te amar

Não te peço o que já houve entre nós.

Exijo que acorde agora mesmo o nosso filho
batismo do batismo de Jesus,
João guardará nas asas que aprenderá ter,
um bem que nós nunca mais poderemos recolher:
a flor azul do próprio nome.