ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

LIA

Ciranda sem fim pra Lia
Nivea Moraes Marques


Quando eu fito os pés nus de Lia, penso em como seria tão mais belo se ao invés de trocarmos palavras (às vezes ríspidas palavras) ela apenas dançasse comigo. Como seria tão mais acertado deixar que esses pés tão belos de Lia me comandassem os passos (e toda a vida) numa mansa e cadente ciranda.

Quando eu fito os pés calçados de Lia, tenho tantos outros pensamentos (como os têm com certeza as sapatilhas nos pés esbeltos de sua dona bailarina). Os pés calçados de Lia são mais atentos e espertos, traçam caminhos pelo ventre oco das ruas e me conduzem mesmo de olhos fechados.

Houve um tempo em que uma blindagem de afeto me transportava para o mesmo metro quadrado que Lia. Onde Lia, também eu. Nesse tempo todas as nossas tarefas se conjugavam como nossos pequenos corpos. Nos esbarrávamos levemente e trocávamos tantos e imensos dóceis sorrisos.

O rio de Lia passava dentro do meu e como paisagem de Pessoa, observávamos aqueles cursos como se não observássemos, um ao pé do outro. Se me ausentava ou se ausente Lia, não importava tanto, bastavam os rios entruncados.

Mas houve um tempo também em que o rio secou, e aos pés de Lia, chorei como se fosse eu mesmo o maior algoz dos nossos rios e risos. O rio secou como vaticínio de ONG´s ambientalistas videntes futuristas do terror compreendido em ações humanas bárbaras.

Nesse tempo quis inventar pra Lia uma canção que fizesse o trabalho de reconstituir todo o leito, toda a mata ciliar, toda a água daqueles dois benditos rios. Não se pode inventar música que tenha força motriz de reconstituição? Ainda não sei inventar música, portanto nem sei se há músicas desta espécie...

Mas Lia, eu sei que o afeto corrói desatinos, e que seus pés nus merecem dançar para sempre. Então sem fim, desejaria soletrar muitas lindas sílabas para uma margem onde em seu ventre oco ou profundo viessem morar nossos pés, os seus os mais lindos que vi... Os meus, cegos e orantes por mais uma contra-dança, certamente diriam:

“I fear for my eyes
(…)

To not contemplating, I prefer
Eternal blindness.

Not like blind men,
But like the feet of children,Which, when walking, too are blind".[1]

[1] I fear for my eyes – Thiago de Mello, traduzido por R. Kelly Washbourne

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