ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

ALGODÃO DOCE

UM CORPO A OLHO NU
Nivea Moraes Marques


Visto meu corpo para ainda lembrar que tenho braços, pernas, mãos, tato, olhos, umbigo.

Houve um tempo em que ignorava tudo isso e as estrelas dormiam em paz sob os meus pés.

Hoje eu não sonho em ter um corpo, embora habite um.

Vivo me insinuando em cima das balanças, querendo a todo custo diminuí-lo, amputá-lo, esquecer-me de suas funções e intenções.

Lembro que a castidade dos solitários deve ser honesta, sem qualquer tentativa de burla.

Seria melhor se me enfeitasse mais, chamando a atenção para aquilo que me é externo. Externo a olho nu.

Mas como fosse uma beterraba, há açúcar dentro, escasso e roxo.

Não percebo mais como meu corpo me habita e nem sei por onde eu habito o meu corpo.

Só sei que de repente as asas dos meus pés criam lodo e mesmo quando danço não sinto meu corpo dançar.

A honestidade da minha castidade deixou mudo e surdo os contornos dos meus pés, das minhas mãos, só sinto um pequeno e brando prazer quando estico o meu corpo sobre a minha cama e sinto os lençóis soterrando-o, sepultando-o, é o sono apaziguador o soldado de toda a minha unidade.

Unidade conquistada no dia-a-dia, no delicado descaminho dos escombros em que me encontrava, tão devotada a tantos homens e hoje devotada ao meu Senhor. Não sinto falta de longas noites e de tantas desencontradas mãos. Entrego agora o meu destino às mãos de Deus e durmo tão pacificada, com uma constelação inteira de nuvens a me resguardar à direita à esquerda em cima em baixo na frente atrás e dentro de mim.

Meu corpo é feito de nuvens, como fosse um algodão doce.

Nenhum comentário: