ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

CUMPRIMENTOS DE MOISÉS

Faço minhas as saudações de despedidas de Moisés:
"O vento sopre leve em teus ombros
Que o sol brilhe cálido sobre a face,
As chuvas caíam serenas em teus campos
E até que eu de novo te veja
Deus te guarde na palma de sua mão."
Dentro da noite de natal Jesus nasceu
numa grutinha há dois mil e sete anos,
Será que quando Ele voltar encontrará fé na terra?
Para viver um feliz natal
basta um coração puro.
Ninguém morreria por mim
como Jesus morreu e eu sou
grata por sua vida.
Quero para todos que por aqui estiverem
que pelo menos um de seus grandes sonhos se realize em 2008 e
que também um dos grandes sonhos de quem está ao seu lado se realize
com a sua participação.
FELIZ NATAL !!!!!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

LIA

Ciranda sem fim pra Lia
Nivea Moraes Marques


Quando eu fito os pés nus de Lia, penso em como seria tão mais belo se ao invés de trocarmos palavras (às vezes ríspidas palavras) ela apenas dançasse comigo. Como seria tão mais acertado deixar que esses pés tão belos de Lia me comandassem os passos (e toda a vida) numa mansa e cadente ciranda.

Quando eu fito os pés calçados de Lia, tenho tantos outros pensamentos (como os têm com certeza as sapatilhas nos pés esbeltos de sua dona bailarina). Os pés calçados de Lia são mais atentos e espertos, traçam caminhos pelo ventre oco das ruas e me conduzem mesmo de olhos fechados.

Houve um tempo em que uma blindagem de afeto me transportava para o mesmo metro quadrado que Lia. Onde Lia, também eu. Nesse tempo todas as nossas tarefas se conjugavam como nossos pequenos corpos. Nos esbarrávamos levemente e trocávamos tantos e imensos dóceis sorrisos.

O rio de Lia passava dentro do meu e como paisagem de Pessoa, observávamos aqueles cursos como se não observássemos, um ao pé do outro. Se me ausentava ou se ausente Lia, não importava tanto, bastavam os rios entruncados.

Mas houve um tempo também em que o rio secou, e aos pés de Lia, chorei como se fosse eu mesmo o maior algoz dos nossos rios e risos. O rio secou como vaticínio de ONG´s ambientalistas videntes futuristas do terror compreendido em ações humanas bárbaras.

Nesse tempo quis inventar pra Lia uma canção que fizesse o trabalho de reconstituir todo o leito, toda a mata ciliar, toda a água daqueles dois benditos rios. Não se pode inventar música que tenha força motriz de reconstituição? Ainda não sei inventar música, portanto nem sei se há músicas desta espécie...

Mas Lia, eu sei que o afeto corrói desatinos, e que seus pés nus merecem dançar para sempre. Então sem fim, desejaria soletrar muitas lindas sílabas para uma margem onde em seu ventre oco ou profundo viessem morar nossos pés, os seus os mais lindos que vi... Os meus, cegos e orantes por mais uma contra-dança, certamente diriam:

“I fear for my eyes
(…)

To not contemplating, I prefer
Eternal blindness.

Not like blind men,
But like the feet of children,Which, when walking, too are blind".[1]

[1] I fear for my eyes – Thiago de Mello, traduzido por R. Kelly Washbourne

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

SOÇOBRAR

O menino e o barco
Nivea Moraes Marques


Para Erlon, irmão da Leidia


Avô fez um barquinho de madeira para o menino.
O mastro irredutível enganava a vontade do menino
Ele embarcava em seu sonho de neto
e pedia pro vento:
"_ Zarpar! Zarpar!"
O menino queria ser menor para sonhar
com mais força
e se lançar no mar.
Nesse mar que é sempre do mesmo tamanho
(não importam os olhos que nele soçobrem)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

EPISÓDIO DA LUA

Episódio da Lua[1]
Nivea Moraes Marques


Num movimento de saias
concertei minha busca: noturna

Os beijos de sua boca,
as mãos gotejando mirra...

Desvelava o mistério
da beleza masculina,

Quanto mais despontava
como aurora
como o sol terrível

Desfraldando esquadrões e bandeiras,
Beija-me com os beijos de sua boca![2]

Grave e forte,
pôs-me o selo do amor:
paisagem que não nego.

Beija-me com os beijos de tua boca:
porque melhor é o teu amor do que o vinho.
Suave é o aroma dos teus ungüentos,
Como ungüento derramado é o teu nome.[3]



[1] Composição de Villa Lobos
[2] Cântico dos Cânticos, Capítulo I - Versículo 2
[3] Cântico dos Cânticos, Capítulo I - Versículo 2-4

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

CHUVA

Oração
Nivea Moraes Marques


Quase rezava pelos olhos
mas os olhos não dizem
Amém.
os olhos falam como as
chuvas
Como as chuvas:
Seus trovões e suas águas.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

ALGODÃO DOCE

UM CORPO A OLHO NU
Nivea Moraes Marques


Visto meu corpo para ainda lembrar que tenho braços, pernas, mãos, tato, olhos, umbigo.

Houve um tempo em que ignorava tudo isso e as estrelas dormiam em paz sob os meus pés.

Hoje eu não sonho em ter um corpo, embora habite um.

Vivo me insinuando em cima das balanças, querendo a todo custo diminuí-lo, amputá-lo, esquecer-me de suas funções e intenções.

Lembro que a castidade dos solitários deve ser honesta, sem qualquer tentativa de burla.

Seria melhor se me enfeitasse mais, chamando a atenção para aquilo que me é externo. Externo a olho nu.

Mas como fosse uma beterraba, há açúcar dentro, escasso e roxo.

Não percebo mais como meu corpo me habita e nem sei por onde eu habito o meu corpo.

Só sei que de repente as asas dos meus pés criam lodo e mesmo quando danço não sinto meu corpo dançar.

A honestidade da minha castidade deixou mudo e surdo os contornos dos meus pés, das minhas mãos, só sinto um pequeno e brando prazer quando estico o meu corpo sobre a minha cama e sinto os lençóis soterrando-o, sepultando-o, é o sono apaziguador o soldado de toda a minha unidade.

Unidade conquistada no dia-a-dia, no delicado descaminho dos escombros em que me encontrava, tão devotada a tantos homens e hoje devotada ao meu Senhor. Não sinto falta de longas noites e de tantas desencontradas mãos. Entrego agora o meu destino às mãos de Deus e durmo tão pacificada, com uma constelação inteira de nuvens a me resguardar à direita à esquerda em cima em baixo na frente atrás e dentro de mim.

Meu corpo é feito de nuvens, como fosse um algodão doce.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

120 ANOS

"Amor, com a esperança já perdida
Teu soberano templo visitei;
Por sinal do naufrágio que passei,
Em lugar dos vestidos, pus a vida."
Camões


Amante
Nivea Moraes Marques


Como se mordesse toda doçura minha, em subcutânea morada
Plantada e cultivada como os bordados para o enxoval

Nunca de sua sede sai para passeios distantes
É quem diz do que sou sem palavras (apenas com leques)

Sujo o meu verbo ideal em tolices para namorados
Escondo a verdade que sei, nunca soube ser namorada

Ferro demais entre os ossos
Gênio demais sob os pelos
Rancores infundidos pelo sim e pelo não

Sou essa polida mulher que espera
Sem nunca compreender seu próprio estado ou governo

Espero ver-te um dia beijando a planta doce que aqui está
Há quase cento e vinte anos, só porque sabia que virias.

sábado, 8 de dezembro de 2007

JARDIM DAS BONECAS ÁRABES

Arabian Garden´s dolls
Nivea Moraes Marques


Arábico, arabesco, árabe. Moram bonecas árabes no meu jardim. Seus olhos pintados lembram paisagens egípcias nunca vistas. Pintam seus pés com tinta jaspe e cobrem-se de panos magenta e carmim. Dançam com pejo infantil umas danças que os jasmins podem reconhecer. Jardinando esses quadros, circundada por córregos espessos, mas rasos, sobram bananas, abacaxis e maçãs que a noiva oferece nas núpcias nababescas que logo se realizarão ente ela e o noivo.

Todas as meninas árabes estão em jejum e dormem sonhando com o mágico que maneja malabares e imita o engatinhar do jaguar. Há jaguares por todo o jardim e eles também dormem, encantados pela novena das meninas.

Depois do jejum, como nutriz que se revela e se entrega a sua santa tarefa, serão servidos flores comestíveis de aromas almiscarados, água fresca e óleos jaspe para os pés enfeitados se reavivarem. A dança requer todos esses cuidados e a alegria será vestida, com vestidos de crepe e de cetim nácar.

As luminárias acesas esconderão a lua e o sol, o delicado da luz se esquecerá que a vida lá fora é muito, muito maior que esse jardim.

As jarras conterão um líquido da macadâmia que não sendo álcool (e não tendo as suas contra-indicações) manterá os que dele beberem em estado de sonho, estado de sonho bom, então estaremos todos preparados para ouvir aquilo que se tem pra ouvir num momento como esse.

As pedras que enfeitam o chão também já não dormem mais e aceitam as pegadas que se vão imprimindo em suas costas, jandaia cantará seu belo canto, e as palavras em arabescos renovarão todas as promessas, majorando a extravagante maravilha de celebrar, celebrar-se, celebrações para a vida, que sempre é a nossa verdadeira companheira.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

LÁGRIMA

Rap da mansidão
Nivea Moraes Marques


Lágrimas
são
lágrimas
e eu tento
esquecer
o gosto
que elas
têm
Lágrimas
são sonos
mal dormidos
são pérolas
caídas
de
algum
trem
Chóro
um
chôro
mais
que
sentido
quando
ele diz
vem
mas
não
vem

Lágrimas
são rosas
mal paridas
de uma
mãe que
já morreu
mas ainda
fértil
Lágrimas
são
lágrimas
e mesmo
as despedidas
já não pedem
mais lágrimas

Lágrimas
são rosas
mal nascidas
que mesmo
atiradas
sobre
a face
não convêm
Lágrimas
são
lágrimas
e
eu desejo
resguardar
as minhas
lágrimas

Para
ter
mais
uma
vez
o gosto
de
te ver
cair
em
lágrimas
ao me
ver
chorar
também

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

DUDU

Do Mini-vocabulário infantil de Maria Clara:


Dudu
Nivea Moraes Marques



Amo Brigite e seu jeito de espreguiçar
Puxo seus bigodes e domo seus pelos
Com jeito de menina que descobre
que a vida tem jeito
Ajeito meus cabelos, pretos, lisos, brilhantes
E arrasto Brigite pelos cantos
Brigite, como um tapete de pelos,
Repele esse meu jeito brincante
E quando penso que nenhum mal mais
posso impingir a Brigite
Grito baixinho o seu nome
Nobre chamego
a que empresto a minha última artimanha
Eles dizem: Bri-gi-te! Bri-gi-te! Bri-gi-te!
E eu replicando: Duduû! Duduû! Duduû!
A bichana com nome de bichano aceita o
meu doce chamado
Corre pra meus pés
E eu, delícia das delícias,
aperto aqueles pelos todos e começa a tortura
tudo de novo: Duduû!!!

sábado, 1 de dezembro de 2007

PREPARAÇÃO PARA O NATAL

Advento
Nivea Moraes Marques


Na primeira vinda de Jesus
Ele nasceu num coxinho
Junto os animaizinhos
Sua mãezinha
Cobria Jesus com paninhos azuis
São José velava o soninho do menino
Os anjos cobriam aquele rostinho com
Suas penas invisíveis e Ele ria com a cosquinha

Na primeira vinda de Jesus
Ele ensinou tudo o que podia para nós
De sua cruz, ao morrer, jorrava sangue bento
E deixou, como herança, o espírito santo para nos instruir
Quanto ao mais
Sempre, cotidianamente, está a meu lado
Ressuscitado, prometeu voltar um dia
Eu aguardo com cânticos e preces,
Lutando pela mansidão e humildade
A segunda vinda de Jesus

Na segunda vinda de Jesus,
Como numa grande colheita,
Recolherá para Si todos aqueles que
Morreram na amizade do Senhor
E os que vivendo ainda, se conservaram
Fiéis aos seus planos de amor

Na segunda vinda de Jesus
Os Seus eleitos ganharão um corpo glorioso,
E subirão em nuvens em Seu santo colo.

Quero cantar o céu
Quero merecer o céu
Quero viver já o céu
Quero esperar também pelo céu

Não gosto de pensar no que há de ser o seu contrário
Nem quero olhar para trás e avistar os que não foram colhidos.