ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

RUBAIYAT

Rubaiyat
Nivea Moraes Marques


Melífluas bailarinas requebram para Rubaiyat em seus quadris desenraizados. (mas ele não olha pra elas.)

As cabras dão a Rubaiyat o seu primeiro leite. (mas ele nem experimenta).

O encantador de cobra toca sua flauta encantada para ver sorrir Rubaiyat. (mas ele dorme na presença do mágico).

Rubaiyat quando criança era muito inquieto e voraz por todas essas e muitas outras novidades. Mas um dia se pegou a perguntar o para quê de cada coisa e com muito insatisfatórias respostas, perdeu o visgo da vida.

Dentro de suas coloridas cortinas, deitado numa cama gigante, sonha sonhos encantados e descansa a sua sina filosófica.

Os pais de Rubaiyat morreram há muito tempo, mas deixaram amas para o acalentar em sua tristeza. Rubaiyat é grato, mas não as detêm um instante que fosse para prantear os seus colos solares.

Rubaiyat sofre sozinho e também não toca em qualquer tabaco ou ingere qualquer álcool, como que seguindo secreta religião, sofre de sóbria lucidez.

Menos nos sonhos, os sonhos de Rubaiyat envenenam seu tempo alerta, porque no sonho além da liberdade de não querer resposta, Rubaiyat confeita bolos e os rifa em concorridos leilões.

Tanta tarefa para as mãos distrai a inteligência. Cumpre seus rituais de doces, coberturas e confeitos e descobre tantas e tão boas respostas nos sorrisos dos que arrematam seus doces (apenas antevendo a gula da sedução das massas nascidas de suas mãos).

O problema mesmo reside na hora em que esses sonhos despertam e Rubaiyat acorda para o seu reino e só tem perguntas e gente para satisfazer um seu desejo do novo que ele na verdade nem tem.

A virgem do lago azul manda beijos pra Rubaiyat, mas ele não corresponde.

O engolidor de facas espeta o próprio estômago e não morre, tão trespassado na frente de Rubaiyat, mas ele definitivamente não se incomoda com extravagâncias de cutelaria.

No entanto, em período vespertino, o mico da juba de ouro se enrolou no cangote de Rubaiyat, ele faz que sim, ele faz que não. O mico encara Rubaiyat de frente e nesse mesmo momento Rubaiyat faz baixar um decreto: “Aberta a temporada de caça ao mico da juba de ouro”.

É que Rubaiyat aceita o desafio, mas num único desafeto.

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