ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

ASTRO-NAUTA

Princesinha
Nivea Moraes Marques






Lucas pisou naquele solo, como costumeiramente fazia no solo que já conhecia, embora ali nunca estivesse estado antes.

Lucas pisou naquele solo e olhando para cima pensou que sempre reconheceria aqueles tons de azul, embora nunca os tivesse avistado antes.

Eram limpas as águas, ora revoltas ora em calmaria, embora ele nem se habilitasse em se misturar àquelas espumas que se formavam à beirinha.

Lucas vestia roupa de gente que ali habita desde sempre e quase as velhinhas lhe pediam que indicasse a direção de suas próprias casas, mas para sua sorte era quase mesmo, em razão de um semblante sempre contemplativo e ausente de qualquer direção do que é concreto, quanto mais do que é casa.

Lucas paria a cada momento um turbilhão de sensações inexploradas e inexplicáveis, lutando contra si para não se costurar agora mesmo aos carrocéis de tinta preta e blocos de concreto que desenhavam vida elegante àquele bairro que carinhosamente respondia por “Princesinha”.

Nos meus sonhos eu encontraria sim uma princesa, mas pra sempre estaria dela apartado, porque nem plebeu eu posso ser, travestido que sou em pierrô, estelionatário, fugitivo, ladrão, cretino, poeta...

Nunca tirei nada de ninguém, mas permiti que a vida fosse me entregando (não sem uma boa dose de malícia) seus tesouros.

Hoje prego os meus pés nesse imenso azul e preto transatlântico e sugo cada gota de sal e bruma e som e habitat.

Gostaria imensamente de plantar meus pés aqui, mas preguiça não combina com todos os atributos de um pierrô, estelionatário, fugitivo, ladrão, cretino, poeta... Só não avisto o Cristo, mas até as tuas pedras me dão vontades de viver sambando numa nota só, para estar rotineiramente aos teus pés, ouvindo essa tua música natural, olhando belezas que nem te conheciam antes que fosses inventada.

Recolhido num quarto de hotel, colo à noite meus olhos no branco do travesseiro e já não sou mais pierrô, estelionatário, fugitivo, ladrão, cretino, poeta... basta já somente recriar teu nome: ‘Princesinha’, para ser apenas teu astro-nauta.

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