ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sábado, 3 de novembro de 2007

MEU FILHO

ME ABRAÇA E ME DÁ UM BEIJO
FAZ UM FILHO COMIGO
Nivea Moraes Marques



escultura de Rodin

No abraço inicio a construção de meu filho. Todos os abraços, em todas as pessoas.

Há abraços em que coração com coração se pegam num pulso cadente e igual, é quando todo o meu corpo se abre, evapora-se o cansaço, meu filho pula dentro de mim e me pede: “mãe, nasce!”

Há abraços, que mesmo não sendo protocolares, parece o encontro de duas montanhas. Choca, brutamente, monte com monte e fim. Meu corpo retorna intacto, meu filho dorme dentro de mim.

Não dispenso abraço de jeito nenhum. Até as ursadas me desafiam o contato. Meu filho é que pede: “mãe, eu quero nascer!”

O início da construção é assim, como que uma empreitada coletiva, para o bem de toda coletividade, porque mesmo sem a certeza do para quê, a ordem da natureza é a perpetuação.

Parece atividade promíscua a procriação. Mas ao contrário. Inumeráveis abraços delineiam os seus olhinhos, a sua boquinha, seus finos cabelos, sua pele inocente... é preciso contato humano para essa criação.

No beijo a profundidade se verticaliza. Também se trata de um nome incontável, experiência coletiva e alastrada que vai desde os dois beijinhos ao beijo de língua.

Beijo é dispensável. Ao contrário do abraço, que é indiscriminado. É difícil o beijo do traidor. É difícil beijo que se encaixe. É um pouco mais difícil encontrar aquele a quem se deve beijar. Beijo é sinal de intimidade.

Apesar de criterioso, beijo é imprescindível. Meu filho cresce dentro de mim e defini-se o seu sexo.

Isso é uma aprendizagem. Meu filho é gerado dentro de mim desde que nasci. Ele ganha dimensão e significado a cada dia, em cada encontro, em cada abraço, em cada beijo. Em todas as pessoas. Mas seu nascimento físico, tão mais importante para ele do que para mim, só vai acontecer se esse abraço e esse beijo, tão experimentado na humanidade coletiva, se especificar um pouco mais.

Especificar, espécie, especial.

E o trabalho coletivo se resume a duas pessoas de sexos distintos, biblicamente, cientificamente. Ainda não há outra possibilidade para se gerar um filho.
Propositadamente, chega-se à parte mais estreita do funil. A experiência feita de mil pedaços se desfaz em unidade e há que se suportar a bordoada, um por dentro do outro.

“Me abraça, me dá um beijo,
faz um filho comigo.”
(Rappa)

Desejo que reduz a minha e a tua criação a um nada nunca antes navegado. A uma terra por descobrir para sempre não descoberta. É um desejo que merece um próximo passo. No abraço inicio a construção de meu filho, no beijo a profundidade se verticaliza, a razão concorda com todos os meus sentidos. Especificamente, nesse instante, só haverá uma única pessoa na terra capaz de pisar o meu passo. Eu quero dançar a dança do fogo. (Meu filho dentro de mim só espera um mandado de Deus.)

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