ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

MEU CÉU

Três Marias
Nivea Moraes Marques


Acordo às madrugadas
suspeitando do meu amor
ele não mora em minha boca
mas sempre se esconde no meu céu.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

PALAVRA

O poder da palavra
Nivea Moraes Marques



A palavra entra no meu corpo e habita espaços sem nome, provocando e calando dores (todas minhas velhas conhecidas).
Costura sob a minha pele um passeio em que ninguém caminha (só eu sei aonde a palavra me habita).
Quando a natureza construir em mim uma pequena vida, sei que ela só verá a luz se a palavra deitar pontes para esse nascimento.
Meu corpo se abre à palavra.
Se abre fisicamente à palavra. Não é um jogo erótico em que vulgaridades se amontoam para causar o efeito da excitação. Não. A palavra exata, branca, sem apoios no cenário, em instrumentos, só a austeridade da voz de quem a profere e a precisão das suas sílabas alterando fisicamente o estado de músculos, ossos, pele.
A palavra habita também os espaços nomeados do meu corpo. E como poderia dar a ela a senha do meu pulso? A entrada (por dentro) às paisagens do meu sono?
Nada pode a palavra sem que permitam meus olhos e ouvidos (suas soleiras). Sem que eu permita esse Império de mil Reis.
Mas quase nada pode a palavra quando vem e fica e não se reproduz. Uma palavra quer a outra.
É preciso ouvir. É preciso falar. Sempre mutuamente.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

PIRATARIA

Cara de abóbora
Nivea Moraes Marques


Quando prometeram os piratas
Invadir as terras da minha infância
Meu tio Mi tratou de construir para mim
Uma caveira esculpida numa moranga
Era quase noite
E para ficar mais viva a minha cabeça
Implantou velas acesas nos olhos na boca
No recheio oco da abóbora
Ela abria e fechava a boca
Mas não cantava canções de ninar
A caveira amarela
Invadiu os meus piratas
E a perna de pau e o olho de vidro
Ficaram temerosos
Quem pode com cabeça à luz de velas?
Os piratas invasores olhavam pelas frestas
E coravam
Puxavam seus próprios cabelos...
Na mesma tardinha
Invadiram foi a quitanda
Agora à procura de um outro tesouro.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

CINTURÃO AGRESTE

Descentralizada
Nivea Moraes Marques


Abre um pedaço da tua cara e esvazia vapor, sal e aroma
Abre um pedaço da tua carne e expõe meu cinturão agreste
Fecha pra sempre dentro um meu sorriso esgarçado
Não toque uma valsa vienense...!,
Encosta toca fere derruba
mais essa minha murada.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

MENSALINHO CORAÇÃO

Mensalinho Coração
Nivea Moraes Marques



“Coração é o quintal da pessoa”
(Milton Nascimento e Fernando Brant)


Para que inventar um coração
se o nosso país ainda não conheceu
a abundância em tão grande território?

Meu peito é um pequeno sítio
mas Deus insiste em querer
seja ele templo urdido de barro
trabalho e eco

Meu peito é um pequeno sítio
portada de abismos gastos e recorrentes

Meu peito é um pequeno sítio
e meu país ainda que tão grande
território
quer a sua desapropriação

Meu país quer o meu peito
e dele aquilo que invento

Há segredos secretos dentro do
meu peito
que vão me ensinando a ser homem

Meu país não sabe se registros há
das descobertas
apenas procura pelo corte que lhe falta
presença amiúde no meu peito
que abre e fecha cicatrizes
(ora com sangue, ora com perfumes)

sábado, 24 de novembro de 2007

YMAGUARÉ

Ymaguaré
Nivea Moraes Marques


Existe uma lenda na floresta de que há um deus para cada coisa que vive.

Existe uma lenda na floresta de que o rio vive, de que a flor é bela, e de que a água pertence à mãe d’água.

A água doce tem Iara e a água salgada tem Janaína.

Essas mães têm sempre os cabelos compridos e ambas gostam muito de espelho.


Ymaguaré é o nome do filho dessas águas que se encontram bem no ponto onde o doce é sal e o sal é doce.

O peixe do mar encontra o boto do rio, e eles dançam felizes de se encontrar.

Mas essa mistura de mães, a doce índia e a salgada africana, veio a dar em uma terceira mãe e numa terceira lenda:
Só existe um deus que se chama Deus e só existe uma mãe que se chama Maria.

E que dentro desse Deus e dessa mãe Maria caberiam todos os outros e outras que possivelmente existam.
Às vezes mais, às vezes menos que Deus e Maria.

Ymaguaré criou, por assim dizer, uma nação Portuguesa para a qual depositou-se o sagrado degredo de conjugar e destruir todas as lendas.

Ymaguaré, povo sábio que marca o encontro, pede pra elas, as mães dos povos e dessa nação inundista, venham ajudar criaturas claras a terem e serem mães, pois o que importa na verdade é a acolhida que uma boa mãe tem pra dar e conquistar em cada um filho seu, o seu santo lugar de Mãe.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

LA POLONESA

La polonesa


Nivea Moraes Marques















Minha mãe teve uma cachorrinha


chamada Camponesa


Seu corpo era uma bolinha


Seu olhar de leve altivo


A camponesa seguia de perto


o passo dos donos


e nunca soube dizer adeus


No céu dos cachorros ela


abana seu rabo pra mim


e eu guardo


trancada no meu peito


a lembrança de um dia ter querido


ser criança


como a minha mãe foi

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

CONSTELAÇÃO

Constelação
Nivea Moraes Marques


Minha boca não sabe as rezas
e as promessas
minhas mãos não sabem o que é penitência
e reconciliação
Eu confesso que tenho medo do escuro.
Já aprendi que cardume é o coletivo de peixes
mas ainda não sei de que são feitas as estrelas
que colei no teto do meu quarto...
Minha imitação é como um rebanho
(vão tangendo meus sonhos)
enfim durmo
e ensino ao escuro o que é constelação.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

DOCE SUOR

Esmola
Nivea Moraes Marques


Cabe em minha mão
toda a esmola que
recolho e a
que posso
ofertar
São gotas
de um doce suor:
o exudar das folhas
que secam feridas.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

TEMPERANÇA AMOROSA

Tango à maneira de Masoch
Anibal Beça


Mesmo que me negues
a umedecida boca
ainda sim te amo

Mesmo que me traias
na espiral do fumo
ainda sim te amo

Mesmo que me subjugues
às pálpebras da noite
ainda sim te amo

Mesmo que me açoites
com teu carinho de relva
ainda sim te amo

Mesmo que me afastes
e mansamente me rejeites
ainda sim te amo

Amo-te assim e ainda
desconcertado fico e te amo
entre a palavra e o gesto
(no previsível canto da solidão)
resta o ato em que completo:
porto oportuno do gozo
ferrão de vespa na pele da paixão.







Marujo
Nivea Moraes Marques

Dentro do teu barco,
seixo de muitas pontas,
não me reveles os segredos do mar,
do sol, das tempestades
Dentro do teu barco
pousa tuas mãos e teus calos
no meu colo silente
não simules sinfonias e golfinhos
finja-te alpendre de poucas tardes
economiza o sim
ritualiza o não

Dentro do teu barco
me navegues como se dedilhasses
bíblias em aramaico
Procura entender a minha língua
que é a mesma
língua materna de Jesus

Dentro do teu barco aprofunda
as nossas distâncias
aprofunda as nossas certezas
aprofunda as raízes que buscam
nos construir um lar
lar de pedra
encaixada uma sobre a outra
sem ventos
sem argamassa
sem desabamentos

Dentro do teu barco
sou Helena
sou jibóia
sou tua pequena porta-bandeira

Sou o teu atrevido fio do fim.


pintura de Gilliatt


segunda-feira, 19 de novembro de 2007

FANTASIA DE CRIANÇA


CORSO DE PINHEIRAL
Nivea Moraes Marques



Pelas estreitas ruas de chão batido de Pinheiral passavam em procissão os carros, carroças e carruagens.

À medida que as marchas dos carros iam ficando cada vez mais lentas, melhor a voz das mulheres e dos homens se decodificavam pelos alto-falantes e se ouvia sem cessar o “Abre-alas que eu quero passar”.

Júlia era uma menina pequena, cor-de-bombom de caramelo cariado, seus péizinhos estavam protegidos por pequenas e delicadas sapatilhas e a mãe havia preparado com cuidado os pompons e babados de sua fantasia de bailarina.

Davi era um menino menor ainda, do tipo branco amarelo-envelhecido (barroco), Usava sandálias de Romano e estava abraçado ao pescoço de seu pai.

Ambos olhavam o desfile, quando começaram a achar tão curioso o vestir de cada qual.

Júlia mirou cada pedaço da fantasia de Davi e Davi foi direto aos olhos de Júlia, como eram lindos e negros, tão negros a mel.

Júlia fingia não perceber o interesse de Davi e prestava uma atenção de rabo de olho nas mãozinhas e nos pequenos braços tão apertados ao pescoço do pai. O pai de Davi era um moço lindo, olhos cor-de-amêndoa. A mãe de Júlia era uma verdadeira princesa do Zaire, negra, negra, negra quase marrom.

Os carros não cessavam o passa-passa e a multidão aplaudia uma Senhora de melindrosa com as pernas à mostra. Outra hora, eram as variadas buzinas as vedetes do passeio. E outras ainda eram os palhaços e suas golas e laçarotes enormes. (Graças a Deus já havia palhaços naquele tempo!)

Naquele tempo mamãe disse-lhe assim: “Júlia vá oferecer um pouco das pipocas que acabo de te trazer, veja como o pequeno Romano olha pra cá, deve gostar também de pipocas!”

Com muito receio de machucar aquele encontro de almas infantis, Júlia foi ao encontro dele e disse: “Você quer?”, Davi levemente corado falou: “Papai eu posso aceitar?”, no que seu pai respondeu: “Nada se deve negar a uma bailarina” e sorriu comovido pela cena singular que acabara de presenciar.

Davi, mesmo quase da altura de Júlia, esticou os bracinhos e entregou-lhe umas pipocas na boca, num gesto inesperado, ao que Júlia nem teve como recusar tão meiga oferta, mastigou com bastante força as pipoquinhas que iam fazendo estalinhos nos risos nervosos dos dois. Depois, então ela fez o mesmo com Davi e Davi repetiu o gesto e ela fez a mesma coisa novamente. Desse jeito, os dois curtiram o carnaval de 22 e aquele quase primeiro desfile de carros em alas e alas.

Carnavais como esse nunca mesmo, embora Júlia nunca mais tirasse a sua fantasia de bailarina e Davi nunca mais se esquecesse de como conquistar em sendo conquistado.

Talvez na Praça Onze as histórias fossem as mesmas, mas aquela cor cariada, aqueles olhos quase a mel, aquelas sandálias improvisadas por mãe e as palavras do pai só mesmo em Pinheiral, pontualmente às 19 horas de uma segunda-feira gorda de carnaval.




foto de Augusto Malta

domingo, 18 de novembro de 2007

SAUDADE





















pintura de Gilliatt

Maresia...
Nivea Moraes Marques


a saudade descreve um arco sem barco
sem traço sem nada,
tanta lágrima que pula tanta vida que simula
tanto que tanta, nem sei mais...
queria porque queria
era dizer nem mais nem menos
uma palavra a tal palavra aquela palavra...
só que não tenho só que não sei só que não possuo dicionário...
nem bula nem remédio nem pajelança pra salvar Werther desenganado.









sábado, 17 de novembro de 2007

CHINESINHA MODERNA

Chinesinha moderna
Nivea Moraes Marques



Não cabem todo o negro e amêndoa
Dentro dos olhos da chinezinha
Quando ela chora, respingam feito fossem nanquim.

Chocolate, chega a chamuscar o chão
Chama incandescente e intensa
Chafariz dentro dos olhos da chinezinha

Cantata, cânfora, casca de cortiça
Chispa choro chuvinha
Chegança, teatro de novos temas

E a chinesinha chora e ri
Desenha outros contornos pra seus próprios olhos
(sonhando em línguas estranhas)
contém chororô e choramingos,
a tinta pode acabar...

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

SUPORTAR O SOL

O corpo não basta
Nivea Moraes Marques


O corpo não basta pra me levar aonde não quero ir mais
O corpo não basta pra causar o cansaço que o sono não refaz
O corpo não basta
e não se desfaz na ponta da faca
de quem não tem coragem pra matar o corpo que basta

Reflito em espelhos o corpo que me dá asas,
ele não é mau,
ele é apenas só, o corpo que me basta

Se me atravessasse a quadra
Se me derrubasse a porta
Se me pendurasse em janelas
eu poderia dizer que tenho o corpo que pesa
que tenho o corpo que pende
que tenho o corpo que abisma

Mas o corpo não basta pra levantar
esteiras
pra preparar estradas
pra suportar o sol

Mas o corpo não serve pra navegar
esquadras
pra castigar os medos
pra suplantar o sal

O corpo que basta não carrega pedras
nem serve de água à sede

O corpo que basta definha em redes
O corpo que basta não se defende
da tarde
não compreende as falas
nem pede beijo ou se cala

O corpo que basta reprisa,
em voz rouca, “Todos os nomes”
de um personagem sem nome
O corpo que basta não insinua
ele é apenas, só o corpo que me basta.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

RUBAIYAT

Rubaiyat
Nivea Moraes Marques


Melífluas bailarinas requebram para Rubaiyat em seus quadris desenraizados. (mas ele não olha pra elas.)

As cabras dão a Rubaiyat o seu primeiro leite. (mas ele nem experimenta).

O encantador de cobra toca sua flauta encantada para ver sorrir Rubaiyat. (mas ele dorme na presença do mágico).

Rubaiyat quando criança era muito inquieto e voraz por todas essas e muitas outras novidades. Mas um dia se pegou a perguntar o para quê de cada coisa e com muito insatisfatórias respostas, perdeu o visgo da vida.

Dentro de suas coloridas cortinas, deitado numa cama gigante, sonha sonhos encantados e descansa a sua sina filosófica.

Os pais de Rubaiyat morreram há muito tempo, mas deixaram amas para o acalentar em sua tristeza. Rubaiyat é grato, mas não as detêm um instante que fosse para prantear os seus colos solares.

Rubaiyat sofre sozinho e também não toca em qualquer tabaco ou ingere qualquer álcool, como que seguindo secreta religião, sofre de sóbria lucidez.

Menos nos sonhos, os sonhos de Rubaiyat envenenam seu tempo alerta, porque no sonho além da liberdade de não querer resposta, Rubaiyat confeita bolos e os rifa em concorridos leilões.

Tanta tarefa para as mãos distrai a inteligência. Cumpre seus rituais de doces, coberturas e confeitos e descobre tantas e tão boas respostas nos sorrisos dos que arrematam seus doces (apenas antevendo a gula da sedução das massas nascidas de suas mãos).

O problema mesmo reside na hora em que esses sonhos despertam e Rubaiyat acorda para o seu reino e só tem perguntas e gente para satisfazer um seu desejo do novo que ele na verdade nem tem.

A virgem do lago azul manda beijos pra Rubaiyat, mas ele não corresponde.

O engolidor de facas espeta o próprio estômago e não morre, tão trespassado na frente de Rubaiyat, mas ele definitivamente não se incomoda com extravagâncias de cutelaria.

No entanto, em período vespertino, o mico da juba de ouro se enrolou no cangote de Rubaiyat, ele faz que sim, ele faz que não. O mico encara Rubaiyat de frente e nesse mesmo momento Rubaiyat faz baixar um decreto: “Aberta a temporada de caça ao mico da juba de ouro”.

É que Rubaiyat aceita o desafio, mas num único desafeto.

domingo, 11 de novembro de 2007

FOSSE EU O TEU PAÍS

Fosse eu o teu país...
Nivea Moraes Marques

Nem imensa nem vasta
Sou o caminho perfeito de um frasco de perfume evaporando
Pura e verde e abandonando fronteiras
Nem frondosa nem ourivesaria
Nem só feita de céus azuis de abril
Mas estrelada, noite quente, manto de todos os teus estados
Fosse eu o teu país...
Milharina em tigela fumegante,
Sem colher, direto nos lábios: queimando, deixando exposta a carne viva da tua garganta
Não ousarias pousar na terra roxa ribeirinha
Teus pés nus, esses sim... atolados até!
Fosse eu o teu país...
Reabastecido estarias na dobrinha de minhas contradições.
Rasgando o meu sotaque português,
Te apertando em minha negra taça,
Nascerias de novo: herói sem nenhum caráter.
E se eu não te conduzisse a parte alguma?
Fosse eu o teu país...
Sempre estaríamos num futuro próspero,
Paixão que multiplica nossos corpos suados em estádios lotados
(Ninguém enxergaria nosso abraço mais colado, quando do grito de gol)
Fosse eu o teu país...
Pagaria as dívidas todas e assumiria compromissos e fingiria ser capaz da independência
Devotamente, acenderia velas... só porque é lindo o jantar em mesa assim iluminada!
Rezaria em romarias, aprenderia os cordéis, as vaquejadas, o boi-bumbá, fôlego no berrante e me acabaria, colombina em quarta-feira de cinzas sambando, ainda em pleno carnaval...
Fosse eu o teu país...
Era de luta que eu precisava...
Era de luta todo dia espada em punho, São Jorge em minhas sete luas...
Espada túrgida flor aberta, Espada embainhada coxa com coxa...
A nossa guerra era a mais tola era a mais torpe era a mais suicida...
Desativar a bomba suja a bomba rota a bomba solta...
Fosse eu o teu país...
Eu sabia era de amar amor de meretriz amor que cola amor que gruda e apavora
Quando longe, sentado choras... saudade... Dias em que as aves não gorjeiam...
Fosse eu o teu país...
Nunca mais ia querer morar em outro lugar...

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

DE CAVAQUINHOS SAEM VIOLAS

De Cavaquinhos Saem Violas[1]
Nivea Moraes Marques



Cavaquinhos conduzem violas,
retomam carnavais
e transformam: milênio em querubins
viúvas em cães
poderosos em crianças
recém-nascidas
caridade em tristeza
solidão em mulheres paridas

Cavaquinho soa à viola,
ainda somos capazes de ouvir.

A noite, debaixo da cama,
ri das pessoas:
acendemos velas à mesa.

Deuses do amor,
como guardas-noturnos,
passeiam à janela
pensando no mundo.

Duas garrafas de vinho
aos que fazem serenata
e está pronto:
De cavaquinhos saem violas!


[1] Inspirado em texto de Ana Miranda: “Novo Milênio”

Desenho de Gilliatt

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

ASTRO-NAUTA

Princesinha
Nivea Moraes Marques






Lucas pisou naquele solo, como costumeiramente fazia no solo que já conhecia, embora ali nunca estivesse estado antes.

Lucas pisou naquele solo e olhando para cima pensou que sempre reconheceria aqueles tons de azul, embora nunca os tivesse avistado antes.

Eram limpas as águas, ora revoltas ora em calmaria, embora ele nem se habilitasse em se misturar àquelas espumas que se formavam à beirinha.

Lucas vestia roupa de gente que ali habita desde sempre e quase as velhinhas lhe pediam que indicasse a direção de suas próprias casas, mas para sua sorte era quase mesmo, em razão de um semblante sempre contemplativo e ausente de qualquer direção do que é concreto, quanto mais do que é casa.

Lucas paria a cada momento um turbilhão de sensações inexploradas e inexplicáveis, lutando contra si para não se costurar agora mesmo aos carrocéis de tinta preta e blocos de concreto que desenhavam vida elegante àquele bairro que carinhosamente respondia por “Princesinha”.

Nos meus sonhos eu encontraria sim uma princesa, mas pra sempre estaria dela apartado, porque nem plebeu eu posso ser, travestido que sou em pierrô, estelionatário, fugitivo, ladrão, cretino, poeta...

Nunca tirei nada de ninguém, mas permiti que a vida fosse me entregando (não sem uma boa dose de malícia) seus tesouros.

Hoje prego os meus pés nesse imenso azul e preto transatlântico e sugo cada gota de sal e bruma e som e habitat.

Gostaria imensamente de plantar meus pés aqui, mas preguiça não combina com todos os atributos de um pierrô, estelionatário, fugitivo, ladrão, cretino, poeta... Só não avisto o Cristo, mas até as tuas pedras me dão vontades de viver sambando numa nota só, para estar rotineiramente aos teus pés, ouvindo essa tua música natural, olhando belezas que nem te conheciam antes que fosses inventada.

Recolhido num quarto de hotel, colo à noite meus olhos no branco do travesseiro e já não sou mais pierrô, estelionatário, fugitivo, ladrão, cretino, poeta... basta já somente recriar teu nome: ‘Princesinha’, para ser apenas teu astro-nauta.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A PRESSA DOS PEIXES

Desenho de Francis Marques

A Pressa dos Peixes
Nivea Moraes Marques

A pressa dos peixes
se acaba na boca.

A carne branca
desfaz a fome (com a farinha)
os dedos não ousam tocá-la
e a pressa dos peixes
logo se cala
logo é orvalho na língua da fome.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

GIRASSÓIS NOTURNOS

Noturno
Nivea Moraes Marques


Para Izabella Marinho Brant e José Lino de Oliveira


Gira em meus dedos
essa cor que se chama noite.
Noite fatigada
Anciã de olhos azuis
escurecidos

Pérola negra
Girassóis retintos
Planta-me no ventre
a permuta com o sol....

Noite
(espaço entre
o pôr-do-sol e o amanhecer)
planta-me no ventre
a permuta com o sol.

Gestada em barriga humana
Nascida noutra noite, negra pagã
(Nasci noutra noite, negra, pagã)
Nega, neguinha,
negra, negona,nigérrima
Fala de novo pra mimque a noite é apenas escuridão e paz.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

O ANZOL DA PALAVRA

O anzol da palavra (“Cadê o toucinho que tava aqui?”)
Nivea Moraes Marques


A água bebeu o boi
O boi subiu na cerca
A cerca espantou o dia
O dia despencou da escada
A escada suspeitou da esperança
A esperança julgou o tempo
O tempo pediu licença-prêmio
Licença-prêmio não é penico!
O penico mora debaixo da cama
A cama cola nas costas do preguiçoso
Preguiçoso é o colarinho do palhaço
O palhaço nunca vai cuspir marimbondo
Marimbondo roi a paciência do mundo
O mundo não tem fita métrica
A fita métrica não sabe tabuada de três
A tabuada de três é sinônimo de estrada
A estrada corre sentada
Sentada é a pose do Buda
O Buda inventou a barriga
A barriga atrai formiga
A formiga vai de sombrinha pra escola
A escola tem um trato com as férias
As férias constróem castelos de vento
O vento reclama da poeira
A poeira entope as lágrimas
As lágrimas corroem esterco
O esterco lambuza a rosa
A rosa é senhoria do espinho
O espinho não gosta de sangue
O sangue coagula tristeza
A tristeza aduba mangueira
A mangueira serve de balanço
O balanço fabrica o galo
O galo chupa gelo
O gelo gosta do roxo
O roxo não está na bandeira
A bandeira pede mastro
O mastro é parente dos piratas
Os piratas dão de presente a lua
A lua não brinca de pula-carniça
Pula-carniça é antiguidade
A antiguidade sabe das coisas
As coisas se guardam em baús
Os baús inventam ruídos
Os ruídos caçam fantasmas
Os fantasmas falam demais
Demais é verbo sem flexão
A flexão comunga com a diferença
A diferença é igual a existir
Existir fabrica passarinhos
Os passarinhos rabiscam as telhas
As telhas têm medo de altura
A altura foge de edifícios
Os edifícios nunca viram um caranguejo
O caranguejo dança ciranda
A ciranda é comadre de São João
São João prefere o inverno
O inverno caducou na primavera
A primavera arrasta grinalda
A grinalda é o coletivo de noiva
A noiva tem gosto de glacê
O glacê não comemora aniversário
O aniversário é sempre atual
Atual pede carona pro hoje
Hoje perdeu o relógio
O relógio não serve pra nada
Nada está sempre com fome
A fome foge da igualdade
A igualdade tem muitos irmãos
Os irmãos sobem a montanha
A montanha acredita em Deus
Deus não discute com a pressa
A pressa engole a língua
A língua quer ser cantora
A cantora belisca o coração
O coração gosta de ilusão
A ilusão não usa óculos
Os óculos têm fronteira
A fronteira reparte os cabelos no meio
Meio fica entre o começo e o fim
O fim se mete em tudo
Tudo não tem limites
Limites: utilidade das mães
As mães tecem o mar
O mar salgou a água
A água o boi bebeu.

domingo, 4 de novembro de 2007

3X Chagall

O Poeta
Nivea Moraes Marques

O poeta tem a cara verde e se veste de azul
O poeta bebe café e não sabe que gosto tem
O poeta tem pé de moleque e mãos de avestruz
O poeta inventa o sono da palavra.


A Queda do Anjo
Nivea Moraes Marques

Um anjo rubro despencou do céu
Caiu de cabeça pra baixo
A gente, que nunca reconheceu anjo,
preferiu o assombro.
Os Amantes nos lilases
Nivea Moraes Marques

Os enamorados nunca se abraçam
no espaço vão.
Uma mecha de flores acalanta
os motivos da felicidade.

sábado, 3 de novembro de 2007

MEU FILHO

ME ABRAÇA E ME DÁ UM BEIJO
FAZ UM FILHO COMIGO
Nivea Moraes Marques



escultura de Rodin

No abraço inicio a construção de meu filho. Todos os abraços, em todas as pessoas.

Há abraços em que coração com coração se pegam num pulso cadente e igual, é quando todo o meu corpo se abre, evapora-se o cansaço, meu filho pula dentro de mim e me pede: “mãe, nasce!”

Há abraços, que mesmo não sendo protocolares, parece o encontro de duas montanhas. Choca, brutamente, monte com monte e fim. Meu corpo retorna intacto, meu filho dorme dentro de mim.

Não dispenso abraço de jeito nenhum. Até as ursadas me desafiam o contato. Meu filho é que pede: “mãe, eu quero nascer!”

O início da construção é assim, como que uma empreitada coletiva, para o bem de toda coletividade, porque mesmo sem a certeza do para quê, a ordem da natureza é a perpetuação.

Parece atividade promíscua a procriação. Mas ao contrário. Inumeráveis abraços delineiam os seus olhinhos, a sua boquinha, seus finos cabelos, sua pele inocente... é preciso contato humano para essa criação.

No beijo a profundidade se verticaliza. Também se trata de um nome incontável, experiência coletiva e alastrada que vai desde os dois beijinhos ao beijo de língua.

Beijo é dispensável. Ao contrário do abraço, que é indiscriminado. É difícil o beijo do traidor. É difícil beijo que se encaixe. É um pouco mais difícil encontrar aquele a quem se deve beijar. Beijo é sinal de intimidade.

Apesar de criterioso, beijo é imprescindível. Meu filho cresce dentro de mim e defini-se o seu sexo.

Isso é uma aprendizagem. Meu filho é gerado dentro de mim desde que nasci. Ele ganha dimensão e significado a cada dia, em cada encontro, em cada abraço, em cada beijo. Em todas as pessoas. Mas seu nascimento físico, tão mais importante para ele do que para mim, só vai acontecer se esse abraço e esse beijo, tão experimentado na humanidade coletiva, se especificar um pouco mais.

Especificar, espécie, especial.

E o trabalho coletivo se resume a duas pessoas de sexos distintos, biblicamente, cientificamente. Ainda não há outra possibilidade para se gerar um filho.
Propositadamente, chega-se à parte mais estreita do funil. A experiência feita de mil pedaços se desfaz em unidade e há que se suportar a bordoada, um por dentro do outro.

“Me abraça, me dá um beijo,
faz um filho comigo.”
(Rappa)

Desejo que reduz a minha e a tua criação a um nada nunca antes navegado. A uma terra por descobrir para sempre não descoberta. É um desejo que merece um próximo passo. No abraço inicio a construção de meu filho, no beijo a profundidade se verticaliza, a razão concorda com todos os meus sentidos. Especificamente, nesse instante, só haverá uma única pessoa na terra capaz de pisar o meu passo. Eu quero dançar a dança do fogo. (Meu filho dentro de mim só espera um mandado de Deus.)

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

ARCANJO AJOELHADO



Arcanjo ajoelhado
Nivea Moraes Marques


Com cânticos de aleluia, socorrem-me os anjos
nesse mundo magoado

Haveria violência maior
mas ninguém a quer conhecer
ninguém quer

O combate, se há combate a dar
Tem que ser o das janelas abertas, o do sol que sangra um dia bobo
O tule cor de rosa da sainha das pequenas bailarinas

Quão delicada é essa voz
e essas vestes,
Arcanjo ajoelhado em prece

Enclina essa santa cabeça e pede, aleluia
Ainda é em paz que os homens esperam viver

E esperança maior não se vê em terras tão demolidas,
em pátios secos e infrutíferos.
Esse arcanjo ajoelhado e em prece
É o homem que já tendo nascido, não quer nunca voltar a morrer

Arcanjo ajoelha em prece e pede
a Deus Nosso Senhor
Ensinança pro homem, que precisa gostar da sua humanidade
e encontrar-se, nos caminhos, com o silêncio que é a paz.






quinta-feira, 1 de novembro de 2007

SERRANA

Serrana
Nivea Moraes Marques



"Tornar-te-ás só quem tu sempre foste"
Ricardo Reis - pseudônimo de Fernando Pessoa



Na terra afirma teus pés

para novas jornadas

e sai caminhando pelo mundo

afora

à procura de alguém

Dentro do corpo da pedra

mora o teu segredo

não quer destrui-la

para apropriar-se,

no entanto, floresce

(parecido com seu próprio nome)

o interior do corpo

da pedra

(quem sabe o coração)

trinca

escapando seus milagres e

perfumes.