ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

domingo, 28 de outubro de 2007

ENDOMINGADA

ENDOMINGADA
Nivea Moraes Marques

Quanta alegria quando ouvi: “Nós vamos
à casa do Senhor!”
(Saudação a Jerusalém, Salmo 121 (122))


Eis que nossos pés chegam às Tuas portas, tantas vezes sem vontade de percorrer o único, mesmo caminho semanal que para aí me leva. O mundo me oferta suas paisagens aos domingos. Embora engomadas de horror e de tédio, quase me têm cativa. Imã da inércia.Ventre do nada.

Se me entrego a essa boca estreita e viciante, desertifico o meu coração. Escavadora que é do que já é tão escasso em nós. Desprovida, sorrio o sorriso do comercial, revela-se então tudo o que é estéril dentro de mim.

Eis que nossos pés chegam às Tuas portas, hoje é difícil saber qual a roupa de domingo. As pessoas mudaram muito as suas rotinas, a liturgia das horas se confunde, se complica, a disciplina do fazer se abre à uma liberdade sem tradição. (Ainda que meu corpo não envergue as cores que são Tuas, coberto que está pelas roupas de sempre, como é acolhedor o Teu abraço. É mais para nosso conforto esse cuidado, é preciso preparar o corpo para que a alma receba. Nosso corpo é a veste inseparável da nossa alma nesse mundo.)

As tribos do Senhor tatuam em seus olhos a pureza, renovando costumes, se adaptando à vida que se move com as molas do mundo, que a todos pertence. Deus nos pôs nesse mundo para o convívio com todos e as experiências se tocam para a constante transformação, eu necessito transformar-me todos os dias. Converter-me no que não sou para ser o que Deus quer que eu seja, contudo, não posso me perder nesse caminho. Domingo é dia de missa. Toco o meu irmão com tudo o que sou, e é meu corpo que toca o seu corpo, mas é minha alma que recebe o seu pão.

Eis que nossos pés chegam às Tuas portas, para a alegria que experimento ao receber o Teu pão. A dor pode ser mesmo insuportável, mas a gente suporta essa dor e não é porque a gente suporta essa dor que ela vai deixar de ser insuportável. A todos os ouvidos que a Ele se dispõem será dito: “Reine a paz sobre ti!” E a paz do Senhor é tão delicada dentro de nós, que ela vai construindo pontes, revelando então tudo o que é fecundo dentro de mim.

Por isso, mesmo sem vontade de percorrer o único, mesmo caminho semanal que para aí me leva, gestada que estou no ventre do nada. Mundão que me péla pela pele, que me faz livre ser cativa da inércia, comendo com dentes podres uma liberdade sem tradição. Toca a Tua mão em mim, me transformando, me convertendo. Pai da delicadeza, não me impõe a Sua santa presença, reaviva apenas a tatuagem impressa nos meus olhos. Sou eu que quero a Tua paz.

Eis que meus pés chegam às Tuas portas, endomingada.

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