ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

MINEIRO DO CAOS


Sale the moon
Nivea Moraes Marques





Para Waly Salomão



Uma arcada de criança
Magnífica e magnetizada
Pelos arabescos de tua
Língua petalada em
Sílabas sem
H
(todos os sons te percebem)
Numa aposta de mel
Recebe o santo
(que desponta
o rabo do chicote)
Excitado nessa festa de dentes,
Tua boca escarrada:
Brasil, Brasil – Meu pandeiro.

Quando árcade criança, eu tramo o teu silêncio
numa arca de ciranda:

Não tenho saudades de nada
Vizinha do sobreposto
Reciclo todos os rostos
E brilho em abandono
Rastro cheio de mundo
faceira em pontas de pé
só me lembro de longe
que você tinha dois olhos
e um coração de rapadura.

Maciço
Seixo
Contralto
Remelexo
Sombra sem sono
Não é um substantivo

Sem nome, a espécie
é dada como anômala
imortal
indecifrável.
amplamente redemoída
em félix,
mineira
do caos,
Sub-urdido.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

CARPINTARIA DE CARNE

Geratriz
Nivea Moraes Marques

Carpintaria de carne
nenhuma curva
se vê
há um discreto gosto de sangue
e o mistério da forma.

Inauguro novos métodos,
mas como é escasso o verão...!
O pássaro que plasmo em meu ventre
não é feito de prata
nem é revestido de plumas

Como um anzol,
fisga-me:
sou a isca
desconheço a amplidão.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

ANTÍLOPE

Antílope
Nivea Moraes Marques







Pequeno ambiente de musgo e caule
que corre pequeno
pelas terras de África

Encontrará por mim Dirceu?

Encontrará por mim o meu amor?...

Tens nesse corpo um abrigo para o frio
(afasta o calor do chão que é seu piso)

Arrosta o medo com a força oca de chifres
(nunca vi suas formas, mas quero crer frágil artefato
de voraz apetite)

Pequeno ambiente, gostaria de fazê-lo pequeno objeto
Broche para meu enfeite.

domingo, 28 de outubro de 2007

ENDOMINGADA

ENDOMINGADA
Nivea Moraes Marques

Quanta alegria quando ouvi: “Nós vamos
à casa do Senhor!”
(Saudação a Jerusalém, Salmo 121 (122))


Eis que nossos pés chegam às Tuas portas, tantas vezes sem vontade de percorrer o único, mesmo caminho semanal que para aí me leva. O mundo me oferta suas paisagens aos domingos. Embora engomadas de horror e de tédio, quase me têm cativa. Imã da inércia.Ventre do nada.

Se me entrego a essa boca estreita e viciante, desertifico o meu coração. Escavadora que é do que já é tão escasso em nós. Desprovida, sorrio o sorriso do comercial, revela-se então tudo o que é estéril dentro de mim.

Eis que nossos pés chegam às Tuas portas, hoje é difícil saber qual a roupa de domingo. As pessoas mudaram muito as suas rotinas, a liturgia das horas se confunde, se complica, a disciplina do fazer se abre à uma liberdade sem tradição. (Ainda que meu corpo não envergue as cores que são Tuas, coberto que está pelas roupas de sempre, como é acolhedor o Teu abraço. É mais para nosso conforto esse cuidado, é preciso preparar o corpo para que a alma receba. Nosso corpo é a veste inseparável da nossa alma nesse mundo.)

As tribos do Senhor tatuam em seus olhos a pureza, renovando costumes, se adaptando à vida que se move com as molas do mundo, que a todos pertence. Deus nos pôs nesse mundo para o convívio com todos e as experiências se tocam para a constante transformação, eu necessito transformar-me todos os dias. Converter-me no que não sou para ser o que Deus quer que eu seja, contudo, não posso me perder nesse caminho. Domingo é dia de missa. Toco o meu irmão com tudo o que sou, e é meu corpo que toca o seu corpo, mas é minha alma que recebe o seu pão.

Eis que nossos pés chegam às Tuas portas, para a alegria que experimento ao receber o Teu pão. A dor pode ser mesmo insuportável, mas a gente suporta essa dor e não é porque a gente suporta essa dor que ela vai deixar de ser insuportável. A todos os ouvidos que a Ele se dispõem será dito: “Reine a paz sobre ti!” E a paz do Senhor é tão delicada dentro de nós, que ela vai construindo pontes, revelando então tudo o que é fecundo dentro de mim.

Por isso, mesmo sem vontade de percorrer o único, mesmo caminho semanal que para aí me leva, gestada que estou no ventre do nada. Mundão que me péla pela pele, que me faz livre ser cativa da inércia, comendo com dentes podres uma liberdade sem tradição. Toca a Tua mão em mim, me transformando, me convertendo. Pai da delicadeza, não me impõe a Sua santa presença, reaviva apenas a tatuagem impressa nos meus olhos. Sou eu que quero a Tua paz.

Eis que meus pés chegam às Tuas portas, endomingada.

sábado, 27 de outubro de 2007

ADVOCACIA X POESIA

ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO
Nivea Moraes Marques



Tenho medo do trabalho prazeroso.

O dia tem todas as horas e em seus rituais é preciso entender o sossego, o descanso, a ausência de tarefas para a reconciliação do sono, do amor, da criatividade e dos dias novos que precisam nascer.

Meu trabalho me incomoda um tanto e agradeço por não suporta-lo à exaustão. Traço limites rígidos para os seus domínios e não arredo pé da teimosia de abandoná-lo nesse limite, como se deixasse do outro lado da rua um filho que não vou alimentar nunca mais.

Me concentro na tarefa de observar o meu rosto, de observar as pessoas em suas tarefas, de construir meus porões, de pintar amarelinhas no chão do meu quarto.

Cultivo bonecas e as batizo com bolo, padre e convidados. Nomeio os meus seres com a devida formalidade e no dia seguinte ninguém nota o tamanho do ônibus espacial que tomei.

Astronauta de espaços interiores, cada astro é cadente e não importa o quanto necessite de sua luz, nada é mais precioso que a minha necessidade de policromia, de vários detalhes, de mudança de temperatura.

Não é bom que o trabalho seja tão prazeroso quanto o prazer de se dedicar ao que mesmo não sendo essencial, é imprescindível.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

ANJO-ÍNDIO-LEÃO


Anjo-índio-leão
Nivea Moraes Marques

Para meu segundo sobrinho e afilhado Pedro



“Eu queria dar ao menino
umas asinhas de arame e algodão.
Mas ele diz que não pode ser anjo,
Pois todos já sabem que ele é índio e leão.”
Cecília Meireles


Esse indiozinho falta pouco faz um ano
Ele ri de mansinho e
Com as mãozinhas abrindo e fechando
Ora diz tchau, ora diz vem!

É leãozinho da tia
E quase nem sabe chorar
Ruge um pouquinho na hora da fome
E come tudinho
Pra ter força de homem

Meu anjinho se fez rocha
E ampara meus sonhos
Com suas asas no ar

Pedro, Pedrinho
Tem dois dentinhos

Pedro, Pedrinho
é tão gordinho

Indiozinho, leãozinho, anjinho
Cresce bem devagarinho
e deixa pelo avesso a costura de suas fantasias
Quando Pedro nasceu,
graças a Deus eu já estava curada da depressão,
e ele é como uma aliança de Deus comigo para a felicidade.
Ele é o arco-íris depois do dilúvio.
Pedro é uma jóia rara e a tia também te ama muito Pedroca!!!!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

DOZE MODELOS DE MENINAS

Doze modelos de meninas
Nivea Moraes Marques

Pequeniníssimas guloseimas
Cobertas de açúcar
Coloridas

Juntas, reunidas
para a baderna, a bagunça, a barafunda

Gomos da mesma fruta,
Oscilam á toa
Merengue do bel-prazer

Malote de belezocas
Brincam o carnaval
Transpirando benjoim.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

MULHER NUA

MULHER NUA
Nivea Moraes Marques


“a branca de neve não usa colgate
e não grita de felicidade como dentro das maçãs.”
Lobão




Maculado de azul, o tecido que cobria seu corpo. Também cobriu o corpo de seu filho e por isso se tornou sagrado.

Ela disse sim à maternidade porque essa era a sua função pessoal.

Ela disse sim à maternidade e gritou de felicidade dentro da maçã. Dentro da maçã, há polpa e serpente, descendentes e descendentes. Essa mulher pariu sem dor.

O milagre da vida transtornado em divindade, seu filho precisava da sua humilde humanidade mais do que qualquer outra criança precisa aprender a humanidade de seus pais.

Ele ia apertando, com pontos bem firmes, várias pedrinhas coloridas naquele pano azul e impreciso, cujas formas ocultadas pela castidade, revelariam a certeza de seus pés peregrinos: Misericóridia, pedrinha amarela; Esperança, pedrinha azul-piscina; Caridade, pedrinha verde; Prudência, pedrinha cor-de-rosa; Fortaleza, pedrinha branca; Modéstia, pedrinha magenta; Piedade, pedrinha laranja; Sabedoria, pedrinha vermelha; Paciência, pedrinha topázio; Culto, pedrinha lilás; Benignidade, pedrinha preta.

Os filhos são mesmo um enfeite para suas mães. E pelas mãos desse filho único recebeu em seu colo para sempre as multidões.

Titular de tantos nomes, todos recolhidos aos pés do corpo morto de seu único filho. Obediente à consumação dos fatos, ciosa da sua força-mãe, absoluta até para aquele que tudo criou, tornou-se depois disso advogada e filha do seu próprio filho.

Alçada ao céu, mais brilhante que o sol. Aparecida na terra, de seus olhos, às vezes vertem lágrimas de sangue, de suas mãos, às vezes vertem azeites curativos.

Seu canto Magnificat despe o seu corpo de mulher. Visível, é igual ao de todas as outras mulheres do planeta. Nascida dentro da maçã. Embora macio rochedo e inseparável, seu manto sagrado, maculado de azul, revelaria então a certeza de suas formas: mulher, como eu sou mulher. Mas, bem-aventurada entre todas as mulheres, porque o sim que viera de seus lábios, apenas porque viera dela, engrandeceu a alma do Senhor.



segunda-feira, 22 de outubro de 2007

COLOMBINA & PIERRÔ

Sexta-feira da paixão
Nivea Moraes Marques



"Que a terra pra chegar à primavera
mudou três vezes de estação."
Beto Guedes e Ronaldo Bastos

















pintura de Rosina Becker do Valle



Colombina antes do carnaval chegar


Para que um pássaro maior
pudesse se atirar sobre o meu colo
era preciso, então, que eu me calasse?
Rezasse muda os desígnios que eram
pra ser meus...

Acontece num sorriso distraído,
meu decote desaba em cascata multicor
meu peito exala uma delicada chuva de confetes
Descosturam-se de minhas extremidades
vários passarinhos de papel

Não caminho pelas ruas
Não moro numa casa
Meus acenos, sem lenço e pranto e despedida,
é como um sol precipitado: natimorto.

Ignoro o que me faz ter dentes
Ignoro a hemorragia que desmilingüe
meu coração

Sob a pele,
as estrelas da noite queimam
Calam-se
(habituadas à escuridão)















Pierrô apaixonado

Os peixes, submersos, ignoravam nossa vigília

Como passarinhos de papel
Suas mãos modelavam o meu canto

O mar, num trabalho exaustivo e permanente,
Riscava todo o meu corpo de espuma e sal

Minhas tuas mãos amassavam a areia
Traduziam os gritos
Que meu folêgo afogado em tua boca
silenciava

domingo, 21 de outubro de 2007

ARRECIFES, TANGO E BUQUÊ

pintura de Guignard




Vôo Noturno

Eduardo Alves da Costa


Fecho os olhos, respiro, ganho

altura e sinto a maresia

no reverso do rosto.

Há estrelas pressentidas,

mas não posso vê-las porque

mergulho, para dentro.


Reencontrar os amigos de infância:


Arrecifes

Nivea Moraes Marques


Dentro do silêncio dos seus rostos,
samambaias
cactos
e estrelas.

Só quero estar entre vocês

presa entre ombros tão bem desenhados

parede de titãs

asas de sabiás

Nunca poderia decifrar nossos velhos hábitos

Monges conquistados pelo dia

e se me perguntarem por seus segredos noturnos

Não digo uma palavra

Só relembro que os carnavais em bananal jamais serão os mesmos.

Mergulho para dentro

nessas horas passadas juntos

e me pergunto há quanto tempo eu não sabia o que é ter um amigo.



A dança dos noivos:


Em tango

As pernas trançam os passos
Os pés desenham os riscos no chão
O corpo ereto dá à ginga o compasso
A face expressa os muitos amores carmins
A flor no cabelo engomado é detalhe e desfecho

A sanfona, em tango, traduz o sotaque das cardiopatias.





Dia 20/10/07 foi o casamento da noiva (marroquina sim!) Patrícia, ela e Francisco desenharam num tango bem dançado o seu futuro de amor. Conquistados pelo clima, quase fui eu quem pegou o buquê (onde andará o meu portenho?), mas o tiraram das minhas mãos, uma outra noiva arrepiada que teme ser abandonada no altar, será minha sorte indo pelos ares? Mas o mais importante não foi isso, foi comer e beber ao lado dos meus velhos e velhacos (Gê) amigos.
Távola redonda de tantos sonhos e pensamentos vãos compartilhados. Como é bom estar ao pé deles. Como é bom despir-me aos seus olhos e sermos crianças de novo. Aos olhos de Jesus nós somos sempre crianças. De mãos dadas apenas dançávamos louvando a alegria, enquanto os milagres aconteciam, principalmente o da multiplicação do Proseco.

Foi muito bom, beijos Lê e Leandro, Camila e Jader, Iza e Renato, Jordana e Carlos, Gê, Simone. Amo muito todos vocês.

(Breve no Blog as fotos)

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

GALAR






O galo e o catavento
Mauro Mota



Pousa no topo da haste como peça
branca do cata-vento, na cumeeira
da casa. O cata-vento gira, e o galo
mudo, esculpido em folha, só, no aéreo
poleiro, também gira, gira, gira.
Ventos catados pelo cata-vento
tentam levá-lo. O galo, todavia,
não vai. (Come as rações da ventania.)
Permanece trepado no mirante.
Estica, às vezes, o pescoço de aço
para onde? Cego e preso, pelo espaço
continua trepado no mirante o que procura? Espreita a madrugada
em que lhe possam rebentar o canto
e o vôo metalúrgico das asas.







Galar
Nivea Moraes Marques




Imóvel galo
deixou-me como herança
meu bisavô português

Negro, em detalhes vermelhos
cuida que a língua só não baste
para afiar meus bigodes

A louça fria de que é feito
engole, a cada manhã,
seu canto inaugural

Meu galo não dorme...

Mesmo calado, insone,
imóvel
(as patas unidas, imperceptíveis
numa base arredondada, igualmente negra)
meu galo, quase um doce típico,
todos esses dias
amanhece galar
perpetuando em mim
a minha própria espécie.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

A PERMUTA DOS SANTOS

Em ceres anoitece.
Nos píncaros ainda
Faz luz.
Sinto-me tão grande
Nesta hora solene
E vã
Que, assim como há deuses
Dos campos, das flores
Das searas
Agora eu quisera
Que um deus existisse
De mim.
Ricardo Reis - Fernando Pessoa
------------------------------------------------------------------
A permuta dos santos
Nivea Moraes Marques

Agora eu quisera que um Deus existisse em mim. E que tudo em mim refletisse as suas lições, que cada braço e cada perna se movesse em razão dessa única força motriz.
Agora eu quisera que um Deus existisse em mim, não para me tornar como Ele um Deus, não para acolher a sua face em mim. Quisera que um Deus existisse em mim apenas para confundir minha humanidade, que decrescente, não se confundiria tanto.
Se Deus quisesse existir em mim, agradeceria por minha face, por meus olhos, pela minha voz. Mais que um mensageiro, aceitaria seus cacoetes para me assemelhar em seus comandos a tudo quanto Ele quisesse e eu então quereria também.
Se Deus florescesse em mim, nunca os meus sorrisos seriam indignos, nem minha voz se exaltaria em vão. Teria tudo de meu, mas só existiria porque Ele existe em mim.
Quando Deus se comovesse, deixaria Ele chorar as minhas lágrimas, e assim eu sentiria o sabor (salgado) de sua misericórdia.
Gostaria que um Deus consentisse em mim a tarefa de levar adiante o Seu nome, a tarefa da santidade em tarefas muito mais que essa mesma: humana.
Se Deus revestisse as minhas mãos e tatuasse o meu coração noite e dia, ser Santo seria uma simples adesão de vontade. Mas Deus adormece, Deus envelhece, Deus adoece e precisa ainda mais e mais da minha voluntariedade, dos meus braços, das minhas pernas, das minhas mãos.
E se eu fosse forte o suficiente, experimentaria por dias a virtude desses santos que obtiveram êxitos em suas tarefas, transformando o que é corpo em unção.
E se eu fosse forte o suficiente, entre a miséria e a coragem, optaria pelas duas e santificaria os meus traços, na beleza santa de tantos santos e santas desconhecidos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O BARCO DE DAVI

pintura de Márcio Camargo





O barco de Davi
Nivea Moraes Marques


Das velas, despregadas
estrelas,
seu barco é Davi.
Davi canta e dança
para o Senhor
seus belos papéis
as horas descansam
preso apenas pelas
setas das estrelas tantas
e se vedava os olhos do Senhor
para com morte
cultivar um amor
que não podia ser
seu
despregado de estrelas
limpava seu rosto
num arrependimento
profundo
cobria a cabeça
com cinzas
e um dia voltaria
a dançar
seus passos em nuvens
glorificavam os espaços
enquanto corriam boatos
de que Davi não era mais o
mesmo.
Seu barco pendurado
de estrelas por
despregar
seguia seu rumo
imprevisto
tantas águas que suas
lágrimas sentidas
confirmavam
Davi é o barco de Davi.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

MANHÃ, QUANDO INVERNO















pintura de Monet

Moldura
Nivea Moraes Marques

Faze uma daquelas
de que eu era feita

Faze e acaba.

Mistura de um só barro
varanda de todos os meses
eucaliptos redondos
velas derretidas...
E os umbrais sempre a nossa volta

Umbrais estabelecidos e partidos
pelo tempo que já conquistei.








Lume
Nivea Moraes Marques




Faísca eu não me basto.

Rendo-me,
madeira
fogo
e
reta
pra me curvar em teus espaços
lentamente.






Manhã, quando inverno
Nivea Moraes Marques




Busca-me o braço
como se eu estivesse sempre ausente
Segura-me os pés
como se eu sentisse um caminho
(de verdade)
Restringe furor, perturbações
e aquele cansaço repetitivo
Expele em faringes abertas
uma gota
uma gotícula
uma prenda
nossos lugares,
Cadeiras espartanas
na saleta que é espinha.
As notas se soltam
e suntuosas, reprisam
ou repristinam
as nossas manhãs.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

AQUÁRIO DA NOITE


Aquário da noite
Nivea Moraes Marques



No aquário da noite os peixes dormem. Dormem de olhos abertos e enquanto o sonho passa seus filmes sem nexo eles registram a paisagem. Imutável às horas. A água e o ar não importam nada nessa noite em que os peixes no aquário dormem.
Dormir não passa perto da morte, aduba a vida. Dessas paisagens imutáveis e desses sonhos vãos nada que é de são é acrescentado. O que tem consistência é o descanso, o pensamento tranqüilo, quase nulo, os sentimentos restaurados a um lugar em que eles não podem nada. No sonho o coração habita grande as madrugadas, mas o seu conteúdo é um privilégio para bocas desdentadas.
Quando é o meu sono o habitante noturno do meu corpo, não me importo com o dia (nada aconselhável para o sono), mas me importo com a ausência da lua. Há que haver um ponto de luz, luminosamente pendurado, para o caso do acordar de repente. Acordar é enxergar, é ter certezas, é estar seguro.
A penumbra assusta mais porque esconde do que porque revela o perfil daquilo que não existe.
Eu gostaria de existir no sono, mas poucas pessoas sabem a cor dos dentes de Deus. Poucas pessoas se entregam a Ele enquanto dormem. Temem o não regresso e por isso O desconhecem mais e mais.
Dentro do aquário da noite não procuro refúgios para proteção contra o predador notívago, sei que nada pode destruir meu solo noturno. Terremoto? Arma de fogo? Dardos envenenados? Ausências involuntárias, inverídicas, palpáveis?
Nada disso abala meu solo noturno. Basta que feche meus olhos, não cante nem conte carneiros, basta que feche meus olhos, como meu mundo, fechados. A calma do corpo estendido, a mente delicada então.
Espero o sono todas as noites costurando minhas extremidades no aquário, sei que nada tira de mim o meu solo noturno, nem esse feixe de flechas, das tuas, que ainda nem experimentei.

DIA DO MESTRE

Tenho e sempre tive muito respeito e amor pelos meus professores. Muitos deles se tornaram grandes amigos como a Bia Pacheco, o José Lino de Oliveira e o Luís de Jesus Pacheco. Eu sempre procurei aprender mais do que eles pensavam me ensinar, aprendia um pouco o seu jeito de ser, o que entendiam além das ciências que ensinavam, o que refletiam suas almas. Agradeço por sua dedicação ao ensino e pela oportunidade que tive em conhecê-los.
Todos os meus professores mudaram a minha vida e o bem que me entregaram ninguém jamais poderá tomar.
Ensinar hoje é um desafio, porque eu não sei aonde as pessoas estão procurando seus tesouros.
Nas mãos dos nossos Mestres residem lindas bênçãos para nós, mas temos que segurá-las firme e com carinho para receber essas graças.
Para todos os meus professores, para todos os professores do mundo eu desejo paz e sempre melhores condições para o exercício de seu ministério.
Parabéns pelo dia do mestre!!!

domingo, 14 de outubro de 2007

CANARINHO DE MIM


Quando eu estive muito e muito triste, a ponto de desaparecer de tão triste, Maria Clara nasceu e com certeza muito do que eu sou e que se transformou em palavras foi pela vida, vida vida mesmo que existe dentro dessa pequena menina-bailarina. A tia te ama MC.




Brasil Meu Canarinho
Nivea Moraes Marques



Para Maria Clara



Quando eu calava, as tuas estrelas emudeciam.
Quando eu calava as tuas estrelas eu emudecia.
As estrelas costuravam-se à minha boca
E a voz se refletia nos olhos e nos braços de cada estrela
Nunca te falei esse infinito de coisas belas:
Apenas nadava investigando o amor,
que há de nascer no mar e morrer nas águas
Que há de nascer nas águas e morrer no mar

Brasileirinha, canarinho de mim.

sábado, 13 de outubro de 2007

BAILARINAS NO VAREJO

pintura de Degas

Bailarinas no varejo
Nivea Moraes Marques


Para meus queridos bailarinos Ciça e Claudinho
Para todas as bailarinas que dançam comigo e a minha prof. Isabel



Eu sempre quis ser bailarina
Desde cedo eu sabia fazer pliê, demi-pliê
Quase só usava preto e cor-de-rosa
Fita nos cabelos pés esgarçados
Acontece que o coração não entende
das escolhas que a gente faz na vida
Um dia ele começa a crescer
Cresce quase à vontade
O meu não entendeu o meu corpo
Ficou maior do que os meus pés
meus braços, do que os meus cabelos
Coração
(casa de máquina que move os homens)
não podia ser maior que o sonho,
numa bailarina que se preza tudo é proporção.
Aprendi, então, a desenhar seus nomes
E hoje coleciono
(para as filhas que ainda não tive)
o saldo das bailarinas que não fui.

MOEMA

A MORTE DE MOEMA
Frei José de Santa Rita Durão

"Bem puderas, cruel, ter sido esquivo,
Quando eu a fé rendia ao teu engano;
Nem me ofenderas a escutar-me altivo,
Que é favor dado a tempo, um desengano;
Porém deixando o coração cativo
Com fazer-te a meus rogos sempre humano,
Fugiste-me, traidor, e desta sorte
Para meu fino amor tão crua morte?"




pintura de Victor Meirelles



MOEMA
Nivea Moraes Marques



Entreguei meu corpo à morte. Meu coração, te entrego, ainda nessas condições.
Todo o mar é pequeno aos meus pés e nunca fui Senhora nos teus lábios.
Entregas o teu passo a que caminhos?
Sorri pras vilas e tias e conhecidos de que mundo?
Nunca me interessei pelas origens do teu povo, pela vida em tuas cidades, não conheço os teus rochedos, nem ao menos sei, se esse mar pequeno aos meus pés, conseguiu chegar aonde ordenastes.
Meu amor, Dragão do Mar, passeias entre deuses e ainda preferes (como eu) este lindo nome com o qual eu não te batizei: Caramuru.
Nessa língua que eu falo, todos os sons são ariscos e imponentes, denunciando em cada sílaba a doçura nossa.
Sei que ela também fala essa língua, mas ela nunca quis te dizer Caramuru, como eu ainda quero nessas condições.
Às vezes a ira afaga ainda mais esse amor em mim. Repito para as aves prontas para a rapinagem: Caramuru. Em silêncio, as aves fecham suas asas e começam a pentear os meus cabelos.
Meu nome é Moema e também é lindo o dizer: Moema.
Moema vive, ainda que nessas condições.
O mar é pequeno aos meus pés e por que insiste essa paisagem, protegendo meu corpo quase vivo entregue à morte?
Sei que o desespero dos meus músculos e a fúria toda empregada nessa última tentativa de arrancar amor daquele que dá ordens ao mar e diz serenamente: segue!, de nada adiantaria, como de fato, de nada adiantou. Mas meu corpo quase vivo precisa a cada morte te dizer: Caramuru... Moema... .
E nem tanta água flutuante é capaz de combater as visões de fogo que aos meus olhos chegam.
“A morte é certa, Moema”, poderiam me dizer. Mas eu já não ouço, nessas condições.
Quem poderia compreender que em minha voz Caramuru é de Moema. E que ainda nessas condições Moema é feliz ao dizer: Caramuru.
Aprendi outras palavras, é claro. Como as outras meninas que nasceram quando nasci.
Para elas, todas as palavras fazem sentido. Para elas, todos os dias são grandes demais para repetirem corriqueiramente essas mesmas palavras.
Para Moema, com o corpo entregue à morte, ainda viva, nessas condições, não importa mesmo o sentido que a palavra tem.
Fecho e abro meu alfabeto nesse mar pequeno aos meus pés, sem ter conhecido a ventura do corriqueiramente.
Todos os meus dias foram e serão insuficientes pra entender para quê. Mas continuo, ainda nessas condições, a dizer, sem comportar a força desse nome:
CARAMURU.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

SALVE RAINHA


Salve Rainha do Brasil
Nivea Moraes Marques

Dentro de seu corpo negro
traz um Brasil mestiço
Acalanta o coração de cada
brasileiro e olha cada um
como um seu pequeno Jesus

Manto fluvial azul-marinho
onde nadam meninos pelados
descalços
famintos
Estendida a mão dessa mãe
para aqueles que só imitando Jesus
podem cozer o pão solidário

Tiara de flores amarelas e rosas
é bela a cabeça de Nossa Senhora
Que sonha Jesus nos seus braços
Quando abraça nossa bela e terrível
Nação

Os peixinhos enfeitam seus pés
e a pegada que imprimem no chão
é da advogada que caminha o quanto for
preciso para que se confirme em Jesus
a salvação das gentes da Terra de Santa Cruz.



No final do ano de 2001 consagrei a minha tarefa de escrever à Nossa Senhora da Aparecida; neste dia 12 deponho aos seus pés tudo o que tenho e o que sou, em agradecimento e espero que ela continue intercedendo por mim junto a seu filho único Jesus Cristo, para que Ele me abençôe cada vez mais nessa lida- de- cada- dia com as palavras.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

FLOR DE AMIDO

Flor de amido
Salgado Maranhão

Ao desvendar o saco de pipocas desfruto a sensação
de mastigar estrelas. Evoco as explosões em cadeia
sob a tampa da panela (a conversão do azeite em fogo
torna o - já despido - grão em algo que se debulha
em flor). Algo que de intuir-se fervilha a maxila. E
junta-se às ínfimas pepitas de sal a derme do amido.
Tal que os apelos da saliva e sua espessa volúpia
são meros subtextos do vôo do olho ao irresistível


Mingau de Maizena
Nivea Moraes Marques
Para minha bisa Maria
Cobre a língua
com o leite espesso de açúcar e amido
e suga pra dentro a via láctea
Imune às estrelas, pois mula sem cabeça
serra pelada
cadeia do vento
presa à pressa da gula, entorno
o conteúdo gostoso do prato
e: mingalada!
recomeço a minguar
como se fosse a lua
naqueles dias tristes
em que os gatos lhe comem
a língua

RETRATO DE LAURA

Retrato de Laura
Nivea Moraes Marques

Para Laura Arbex


Laura vive numa lua de leite
louça fria
lance do logus
luta e letra calçada de luva
Lastro de louca no lince da lupa

No lápis de Laura, luto da preguiça,
faz nascer lontras, litros, lustres
nesta lavoura lúdica, sua lânguida língua
é limite do laço: lume.

Laura só sonha em latim,
linfática lama
lodosa linhagem
lufa-lufa do som

Lupus - legi - lata
lundu de vira-lata
lombo lusíada
lote de lombrigueiro
lona do logro

Laura levada, lança de pontas, seta da língua
litoral das largas chuvas
leito do lanho no joelho
louvai lipidicamente
suas lágrimas de menina

terça-feira, 9 de outubro de 2007

AMOR VEGETAL

AMOR VEGETAL
Nivea Moraes Marques

Dentro dos vegetais há um coração laranja que diz quando é hora de partir e de chegar, quando é hora de amadurecer e crescer, quando é hora de se deixar colher.
Há vegetais que pressentem os sinais do tempo e serenamente informam quando há chuva ou quando é seca.
Os vegetais não gritam ou imploram, os vegetais habitam suas próprias delongas, suas próprias querelas, sua própria viuvez.
Quando alguém ama um amor vegetal, não é que se possa se considerar uma abóbora ou uma cenoura é que já passou por todos os percalços e ainda assim: ama.
Um amor vegetal é um amor que amadurece mudo, que quase nada gasta de ternura e tempero, tão distante se encontra de seu próprio objeto.
Um amor vegetal é secularmente vivido em cada tão pequeno gesto e ato que nunca pode ser roubado ou vendido.
Amo um amor vegetal tão esquecido de si que quase nem tem nome ou nem tampouco se prepara para longas presenças, longas distâncias.
Um amor vegetal não se presenteia, nem aos domingos; é calado, já disse.
Dentro do amor vegetal só as tardes são permitidas, ele que já foi um amor qualquer dentro de um animal, hoje quer hortaliças e flores, pertence a esse reino e nunca se furtará ao fato de que enquanto o sol e a chuva inundar o seu talo, florescerá, para sempre inesquecível.

AMOR VEGETAL
Affonso Romano de Sant´anna
Não creio que as árvores
fiquem em pé, em solidão, durante a noite.
Elas se amam. E entre as ramagens e raízes
se entreabrem em copas
em carícias extensivas.
Quando amanhece,
não é o cantar de pássaros que pousa em meus ouvidos,
mas o que restou na aurora
de seus agrestes gemidos.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

NOIVA MARROQUINA

Eu já fui a noiva marroquina, já fui o garagista meio louco, hoje tem dias em que sou o saci e outros em que sou os olhos mogrebinos.

Difícil mesmo é saber quem vai segurar esse buquê...

(Dedico essa primeira postagem a minha amiga Patrícia Amante que atualmente é noiva, só não sei se marroquina.)


Fênis Marroquina
Cecília Meirelles

O garagista, meio louco,
enchia o tanque do carro
falando na noiva ausente,
uma noiva imaginária
num lugar ensolarado
para os lados do Marrocos.

Muitas pulseiras e jarros de metal amarelo.
O garagista, meio louco,
todos os dias deixava
no tanque de gasolina
essa mulher deleitosa,
tâmara, coral, tambores,
que ia conosco fechada
pelos caminhos da França,
evaporando-se ao longo
da vasta quilometragem.

Jardins de palmeiras, canções noturnas, palavras mornas.

O garagista, meio louco,
de manhã recomeçava
a encher o tanque do carro,
a falar na noiva ausente,
seus cabelos e pulseiras,
seus jarros, coral, tambores,
tâmara, palmeiras, noites,
_ e ia conosco o fantasma
evaporando-se pelas
estradas louras da França...

Ia a fênis marroquina,
fênis morta e renascida:

buzina de alaúdes baços, lanternas de olhos mogrebinos.
Paris - 1953



A Volatilização da Noiva Marroquina
Nivea Moraes Marques
O amor é fumaça de óleo diesel:
Queima e transborda o tambor
Encera o chão da sua casa
e brinca de asfalto quente
com a sola do pé.
O amor prega sua certeira peça
atirando pedra nos telhados e
nos vizinhos
Se eu pudesse amar,
eu seria um saci
Se eu pudesse desamar,
eu seria um saci mais refinado:
A minha pinta era brilhante
E o suor mais catingudo
Eu compraria Bariloche
(sem os habitantes)
e seria bem mais compreendido...
Só que nunca, nunca mesmo
entenderia o rodar das bicicletas!
Paraty - 2002