ESTRELA DAS ÁGUAS BLOG DE LITERATURA INFANTIL

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

CUMPRIMENTOS DE MOISÉS

Faço minhas as saudações de despedidas de Moisés:
"O vento sopre leve em teus ombros
Que o sol brilhe cálido sobre a face,
As chuvas caíam serenas em teus campos
E até que eu de novo te veja
Deus te guarde na palma de sua mão."
Dentro da noite de natal Jesus nasceu
numa grutinha há dois mil e sete anos,
Será que quando Ele voltar encontrará fé na terra?
Para viver um feliz natal
basta um coração puro.
Ninguém morreria por mim
como Jesus morreu e eu sou
grata por sua vida.
Quero para todos que por aqui estiverem
que pelo menos um de seus grandes sonhos se realize em 2008 e
que também um dos grandes sonhos de quem está ao seu lado se realize
com a sua participação.
FELIZ NATAL !!!!!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

LIA

Ciranda sem fim pra Lia
Nivea Moraes Marques


Quando eu fito os pés nus de Lia, penso em como seria tão mais belo se ao invés de trocarmos palavras (às vezes ríspidas palavras) ela apenas dançasse comigo. Como seria tão mais acertado deixar que esses pés tão belos de Lia me comandassem os passos (e toda a vida) numa mansa e cadente ciranda.

Quando eu fito os pés calçados de Lia, tenho tantos outros pensamentos (como os têm com certeza as sapatilhas nos pés esbeltos de sua dona bailarina). Os pés calçados de Lia são mais atentos e espertos, traçam caminhos pelo ventre oco das ruas e me conduzem mesmo de olhos fechados.

Houve um tempo em que uma blindagem de afeto me transportava para o mesmo metro quadrado que Lia. Onde Lia, também eu. Nesse tempo todas as nossas tarefas se conjugavam como nossos pequenos corpos. Nos esbarrávamos levemente e trocávamos tantos e imensos dóceis sorrisos.

O rio de Lia passava dentro do meu e como paisagem de Pessoa, observávamos aqueles cursos como se não observássemos, um ao pé do outro. Se me ausentava ou se ausente Lia, não importava tanto, bastavam os rios entruncados.

Mas houve um tempo também em que o rio secou, e aos pés de Lia, chorei como se fosse eu mesmo o maior algoz dos nossos rios e risos. O rio secou como vaticínio de ONG´s ambientalistas videntes futuristas do terror compreendido em ações humanas bárbaras.

Nesse tempo quis inventar pra Lia uma canção que fizesse o trabalho de reconstituir todo o leito, toda a mata ciliar, toda a água daqueles dois benditos rios. Não se pode inventar música que tenha força motriz de reconstituição? Ainda não sei inventar música, portanto nem sei se há músicas desta espécie...

Mas Lia, eu sei que o afeto corrói desatinos, e que seus pés nus merecem dançar para sempre. Então sem fim, desejaria soletrar muitas lindas sílabas para uma margem onde em seu ventre oco ou profundo viessem morar nossos pés, os seus os mais lindos que vi... Os meus, cegos e orantes por mais uma contra-dança, certamente diriam:

“I fear for my eyes
(…)

To not contemplating, I prefer
Eternal blindness.

Not like blind men,
But like the feet of children,Which, when walking, too are blind".[1]

[1] I fear for my eyes – Thiago de Mello, traduzido por R. Kelly Washbourne

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

SOÇOBRAR

O menino e o barco
Nivea Moraes Marques


Para Erlon, irmão da Leidia


Avô fez um barquinho de madeira para o menino.
O mastro irredutível enganava a vontade do menino
Ele embarcava em seu sonho de neto
e pedia pro vento:
"_ Zarpar! Zarpar!"
O menino queria ser menor para sonhar
com mais força
e se lançar no mar.
Nesse mar que é sempre do mesmo tamanho
(não importam os olhos que nele soçobrem)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

EPISÓDIO DA LUA

Episódio da Lua[1]
Nivea Moraes Marques


Num movimento de saias
concertei minha busca: noturna

Os beijos de sua boca,
as mãos gotejando mirra...

Desvelava o mistério
da beleza masculina,

Quanto mais despontava
como aurora
como o sol terrível

Desfraldando esquadrões e bandeiras,
Beija-me com os beijos de sua boca![2]

Grave e forte,
pôs-me o selo do amor:
paisagem que não nego.

Beija-me com os beijos de tua boca:
porque melhor é o teu amor do que o vinho.
Suave é o aroma dos teus ungüentos,
Como ungüento derramado é o teu nome.[3]



[1] Composição de Villa Lobos
[2] Cântico dos Cânticos, Capítulo I - Versículo 2
[3] Cântico dos Cânticos, Capítulo I - Versículo 2-4

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

CHUVA

Oração
Nivea Moraes Marques


Quase rezava pelos olhos
mas os olhos não dizem
Amém.
os olhos falam como as
chuvas
Como as chuvas:
Seus trovões e suas águas.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

ALGODÃO DOCE

UM CORPO A OLHO NU
Nivea Moraes Marques


Visto meu corpo para ainda lembrar que tenho braços, pernas, mãos, tato, olhos, umbigo.

Houve um tempo em que ignorava tudo isso e as estrelas dormiam em paz sob os meus pés.

Hoje eu não sonho em ter um corpo, embora habite um.

Vivo me insinuando em cima das balanças, querendo a todo custo diminuí-lo, amputá-lo, esquecer-me de suas funções e intenções.

Lembro que a castidade dos solitários deve ser honesta, sem qualquer tentativa de burla.

Seria melhor se me enfeitasse mais, chamando a atenção para aquilo que me é externo. Externo a olho nu.

Mas como fosse uma beterraba, há açúcar dentro, escasso e roxo.

Não percebo mais como meu corpo me habita e nem sei por onde eu habito o meu corpo.

Só sei que de repente as asas dos meus pés criam lodo e mesmo quando danço não sinto meu corpo dançar.

A honestidade da minha castidade deixou mudo e surdo os contornos dos meus pés, das minhas mãos, só sinto um pequeno e brando prazer quando estico o meu corpo sobre a minha cama e sinto os lençóis soterrando-o, sepultando-o, é o sono apaziguador o soldado de toda a minha unidade.

Unidade conquistada no dia-a-dia, no delicado descaminho dos escombros em que me encontrava, tão devotada a tantos homens e hoje devotada ao meu Senhor. Não sinto falta de longas noites e de tantas desencontradas mãos. Entrego agora o meu destino às mãos de Deus e durmo tão pacificada, com uma constelação inteira de nuvens a me resguardar à direita à esquerda em cima em baixo na frente atrás e dentro de mim.

Meu corpo é feito de nuvens, como fosse um algodão doce.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

120 ANOS

"Amor, com a esperança já perdida
Teu soberano templo visitei;
Por sinal do naufrágio que passei,
Em lugar dos vestidos, pus a vida."
Camões


Amante
Nivea Moraes Marques


Como se mordesse toda doçura minha, em subcutânea morada
Plantada e cultivada como os bordados para o enxoval

Nunca de sua sede sai para passeios distantes
É quem diz do que sou sem palavras (apenas com leques)

Sujo o meu verbo ideal em tolices para namorados
Escondo a verdade que sei, nunca soube ser namorada

Ferro demais entre os ossos
Gênio demais sob os pelos
Rancores infundidos pelo sim e pelo não

Sou essa polida mulher que espera
Sem nunca compreender seu próprio estado ou governo

Espero ver-te um dia beijando a planta doce que aqui está
Há quase cento e vinte anos, só porque sabia que virias.

sábado, 8 de dezembro de 2007

JARDIM DAS BONECAS ÁRABES

Arabian Garden´s dolls
Nivea Moraes Marques


Arábico, arabesco, árabe. Moram bonecas árabes no meu jardim. Seus olhos pintados lembram paisagens egípcias nunca vistas. Pintam seus pés com tinta jaspe e cobrem-se de panos magenta e carmim. Dançam com pejo infantil umas danças que os jasmins podem reconhecer. Jardinando esses quadros, circundada por córregos espessos, mas rasos, sobram bananas, abacaxis e maçãs que a noiva oferece nas núpcias nababescas que logo se realizarão ente ela e o noivo.

Todas as meninas árabes estão em jejum e dormem sonhando com o mágico que maneja malabares e imita o engatinhar do jaguar. Há jaguares por todo o jardim e eles também dormem, encantados pela novena das meninas.

Depois do jejum, como nutriz que se revela e se entrega a sua santa tarefa, serão servidos flores comestíveis de aromas almiscarados, água fresca e óleos jaspe para os pés enfeitados se reavivarem. A dança requer todos esses cuidados e a alegria será vestida, com vestidos de crepe e de cetim nácar.

As luminárias acesas esconderão a lua e o sol, o delicado da luz se esquecerá que a vida lá fora é muito, muito maior que esse jardim.

As jarras conterão um líquido da macadâmia que não sendo álcool (e não tendo as suas contra-indicações) manterá os que dele beberem em estado de sonho, estado de sonho bom, então estaremos todos preparados para ouvir aquilo que se tem pra ouvir num momento como esse.

As pedras que enfeitam o chão também já não dormem mais e aceitam as pegadas que se vão imprimindo em suas costas, jandaia cantará seu belo canto, e as palavras em arabescos renovarão todas as promessas, majorando a extravagante maravilha de celebrar, celebrar-se, celebrações para a vida, que sempre é a nossa verdadeira companheira.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

LÁGRIMA

Rap da mansidão
Nivea Moraes Marques


Lágrimas
são
lágrimas
e eu tento
esquecer
o gosto
que elas
têm
Lágrimas
são sonos
mal dormidos
são pérolas
caídas
de
algum
trem
Chóro
um
chôro
mais
que
sentido
quando
ele diz
vem
mas
não
vem

Lágrimas
são rosas
mal paridas
de uma
mãe que
já morreu
mas ainda
fértil
Lágrimas
são
lágrimas
e mesmo
as despedidas
já não pedem
mais lágrimas

Lágrimas
são rosas
mal nascidas
que mesmo
atiradas
sobre
a face
não convêm
Lágrimas
são
lágrimas
e
eu desejo
resguardar
as minhas
lágrimas

Para
ter
mais
uma
vez
o gosto
de
te ver
cair
em
lágrimas
ao me
ver
chorar
também

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

DUDU

Do Mini-vocabulário infantil de Maria Clara:


Dudu
Nivea Moraes Marques



Amo Brigite e seu jeito de espreguiçar
Puxo seus bigodes e domo seus pelos
Com jeito de menina que descobre
que a vida tem jeito
Ajeito meus cabelos, pretos, lisos, brilhantes
E arrasto Brigite pelos cantos
Brigite, como um tapete de pelos,
Repele esse meu jeito brincante
E quando penso que nenhum mal mais
posso impingir a Brigite
Grito baixinho o seu nome
Nobre chamego
a que empresto a minha última artimanha
Eles dizem: Bri-gi-te! Bri-gi-te! Bri-gi-te!
E eu replicando: Duduû! Duduû! Duduû!
A bichana com nome de bichano aceita o
meu doce chamado
Corre pra meus pés
E eu, delícia das delícias,
aperto aqueles pelos todos e começa a tortura
tudo de novo: Duduû!!!

sábado, 1 de dezembro de 2007

PREPARAÇÃO PARA O NATAL

Advento
Nivea Moraes Marques


Na primeira vinda de Jesus
Ele nasceu num coxinho
Junto os animaizinhos
Sua mãezinha
Cobria Jesus com paninhos azuis
São José velava o soninho do menino
Os anjos cobriam aquele rostinho com
Suas penas invisíveis e Ele ria com a cosquinha

Na primeira vinda de Jesus
Ele ensinou tudo o que podia para nós
De sua cruz, ao morrer, jorrava sangue bento
E deixou, como herança, o espírito santo para nos instruir
Quanto ao mais
Sempre, cotidianamente, está a meu lado
Ressuscitado, prometeu voltar um dia
Eu aguardo com cânticos e preces,
Lutando pela mansidão e humildade
A segunda vinda de Jesus

Na segunda vinda de Jesus,
Como numa grande colheita,
Recolherá para Si todos aqueles que
Morreram na amizade do Senhor
E os que vivendo ainda, se conservaram
Fiéis aos seus planos de amor

Na segunda vinda de Jesus
Os Seus eleitos ganharão um corpo glorioso,
E subirão em nuvens em Seu santo colo.

Quero cantar o céu
Quero merecer o céu
Quero viver já o céu
Quero esperar também pelo céu

Não gosto de pensar no que há de ser o seu contrário
Nem quero olhar para trás e avistar os que não foram colhidos.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

MEU CÉU

Três Marias
Nivea Moraes Marques


Acordo às madrugadas
suspeitando do meu amor
ele não mora em minha boca
mas sempre se esconde no meu céu.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

PALAVRA

O poder da palavra
Nivea Moraes Marques



A palavra entra no meu corpo e habita espaços sem nome, provocando e calando dores (todas minhas velhas conhecidas).
Costura sob a minha pele um passeio em que ninguém caminha (só eu sei aonde a palavra me habita).
Quando a natureza construir em mim uma pequena vida, sei que ela só verá a luz se a palavra deitar pontes para esse nascimento.
Meu corpo se abre à palavra.
Se abre fisicamente à palavra. Não é um jogo erótico em que vulgaridades se amontoam para causar o efeito da excitação. Não. A palavra exata, branca, sem apoios no cenário, em instrumentos, só a austeridade da voz de quem a profere e a precisão das suas sílabas alterando fisicamente o estado de músculos, ossos, pele.
A palavra habita também os espaços nomeados do meu corpo. E como poderia dar a ela a senha do meu pulso? A entrada (por dentro) às paisagens do meu sono?
Nada pode a palavra sem que permitam meus olhos e ouvidos (suas soleiras). Sem que eu permita esse Império de mil Reis.
Mas quase nada pode a palavra quando vem e fica e não se reproduz. Uma palavra quer a outra.
É preciso ouvir. É preciso falar. Sempre mutuamente.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

PIRATARIA

Cara de abóbora
Nivea Moraes Marques


Quando prometeram os piratas
Invadir as terras da minha infância
Meu tio Mi tratou de construir para mim
Uma caveira esculpida numa moranga
Era quase noite
E para ficar mais viva a minha cabeça
Implantou velas acesas nos olhos na boca
No recheio oco da abóbora
Ela abria e fechava a boca
Mas não cantava canções de ninar
A caveira amarela
Invadiu os meus piratas
E a perna de pau e o olho de vidro
Ficaram temerosos
Quem pode com cabeça à luz de velas?
Os piratas invasores olhavam pelas frestas
E coravam
Puxavam seus próprios cabelos...
Na mesma tardinha
Invadiram foi a quitanda
Agora à procura de um outro tesouro.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

CINTURÃO AGRESTE

Descentralizada
Nivea Moraes Marques


Abre um pedaço da tua cara e esvazia vapor, sal e aroma
Abre um pedaço da tua carne e expõe meu cinturão agreste
Fecha pra sempre dentro um meu sorriso esgarçado
Não toque uma valsa vienense...!,
Encosta toca fere derruba
mais essa minha murada.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

MENSALINHO CORAÇÃO

Mensalinho Coração
Nivea Moraes Marques



“Coração é o quintal da pessoa”
(Milton Nascimento e Fernando Brant)


Para que inventar um coração
se o nosso país ainda não conheceu
a abundância em tão grande território?

Meu peito é um pequeno sítio
mas Deus insiste em querer
seja ele templo urdido de barro
trabalho e eco

Meu peito é um pequeno sítio
portada de abismos gastos e recorrentes

Meu peito é um pequeno sítio
e meu país ainda que tão grande
território
quer a sua desapropriação

Meu país quer o meu peito
e dele aquilo que invento

Há segredos secretos dentro do
meu peito
que vão me ensinando a ser homem

Meu país não sabe se registros há
das descobertas
apenas procura pelo corte que lhe falta
presença amiúde no meu peito
que abre e fecha cicatrizes
(ora com sangue, ora com perfumes)

sábado, 24 de novembro de 2007

YMAGUARÉ

Ymaguaré
Nivea Moraes Marques


Existe uma lenda na floresta de que há um deus para cada coisa que vive.

Existe uma lenda na floresta de que o rio vive, de que a flor é bela, e de que a água pertence à mãe d’água.

A água doce tem Iara e a água salgada tem Janaína.

Essas mães têm sempre os cabelos compridos e ambas gostam muito de espelho.


Ymaguaré é o nome do filho dessas águas que se encontram bem no ponto onde o doce é sal e o sal é doce.

O peixe do mar encontra o boto do rio, e eles dançam felizes de se encontrar.

Mas essa mistura de mães, a doce índia e a salgada africana, veio a dar em uma terceira mãe e numa terceira lenda:
Só existe um deus que se chama Deus e só existe uma mãe que se chama Maria.

E que dentro desse Deus e dessa mãe Maria caberiam todos os outros e outras que possivelmente existam.
Às vezes mais, às vezes menos que Deus e Maria.

Ymaguaré criou, por assim dizer, uma nação Portuguesa para a qual depositou-se o sagrado degredo de conjugar e destruir todas as lendas.

Ymaguaré, povo sábio que marca o encontro, pede pra elas, as mães dos povos e dessa nação inundista, venham ajudar criaturas claras a terem e serem mães, pois o que importa na verdade é a acolhida que uma boa mãe tem pra dar e conquistar em cada um filho seu, o seu santo lugar de Mãe.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

LA POLONESA

La polonesa


Nivea Moraes Marques















Minha mãe teve uma cachorrinha


chamada Camponesa


Seu corpo era uma bolinha


Seu olhar de leve altivo


A camponesa seguia de perto


o passo dos donos


e nunca soube dizer adeus


No céu dos cachorros ela


abana seu rabo pra mim


e eu guardo


trancada no meu peito


a lembrança de um dia ter querido


ser criança


como a minha mãe foi

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

CONSTELAÇÃO

Constelação
Nivea Moraes Marques


Minha boca não sabe as rezas
e as promessas
minhas mãos não sabem o que é penitência
e reconciliação
Eu confesso que tenho medo do escuro.
Já aprendi que cardume é o coletivo de peixes
mas ainda não sei de que são feitas as estrelas
que colei no teto do meu quarto...
Minha imitação é como um rebanho
(vão tangendo meus sonhos)
enfim durmo
e ensino ao escuro o que é constelação.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

DOCE SUOR

Esmola
Nivea Moraes Marques


Cabe em minha mão
toda a esmola que
recolho e a
que posso
ofertar
São gotas
de um doce suor:
o exudar das folhas
que secam feridas.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

TEMPERANÇA AMOROSA

Tango à maneira de Masoch
Anibal Beça


Mesmo que me negues
a umedecida boca
ainda sim te amo

Mesmo que me traias
na espiral do fumo
ainda sim te amo

Mesmo que me subjugues
às pálpebras da noite
ainda sim te amo

Mesmo que me açoites
com teu carinho de relva
ainda sim te amo

Mesmo que me afastes
e mansamente me rejeites
ainda sim te amo

Amo-te assim e ainda
desconcertado fico e te amo
entre a palavra e o gesto
(no previsível canto da solidão)
resta o ato em que completo:
porto oportuno do gozo
ferrão de vespa na pele da paixão.







Marujo
Nivea Moraes Marques

Dentro do teu barco,
seixo de muitas pontas,
não me reveles os segredos do mar,
do sol, das tempestades
Dentro do teu barco
pousa tuas mãos e teus calos
no meu colo silente
não simules sinfonias e golfinhos
finja-te alpendre de poucas tardes
economiza o sim
ritualiza o não

Dentro do teu barco
me navegues como se dedilhasses
bíblias em aramaico
Procura entender a minha língua
que é a mesma
língua materna de Jesus

Dentro do teu barco aprofunda
as nossas distâncias
aprofunda as nossas certezas
aprofunda as raízes que buscam
nos construir um lar
lar de pedra
encaixada uma sobre a outra
sem ventos
sem argamassa
sem desabamentos

Dentro do teu barco
sou Helena
sou jibóia
sou tua pequena porta-bandeira

Sou o teu atrevido fio do fim.


pintura de Gilliatt


segunda-feira, 19 de novembro de 2007

FANTASIA DE CRIANÇA


CORSO DE PINHEIRAL
Nivea Moraes Marques



Pelas estreitas ruas de chão batido de Pinheiral passavam em procissão os carros, carroças e carruagens.

À medida que as marchas dos carros iam ficando cada vez mais lentas, melhor a voz das mulheres e dos homens se decodificavam pelos alto-falantes e se ouvia sem cessar o “Abre-alas que eu quero passar”.

Júlia era uma menina pequena, cor-de-bombom de caramelo cariado, seus péizinhos estavam protegidos por pequenas e delicadas sapatilhas e a mãe havia preparado com cuidado os pompons e babados de sua fantasia de bailarina.

Davi era um menino menor ainda, do tipo branco amarelo-envelhecido (barroco), Usava sandálias de Romano e estava abraçado ao pescoço de seu pai.

Ambos olhavam o desfile, quando começaram a achar tão curioso o vestir de cada qual.

Júlia mirou cada pedaço da fantasia de Davi e Davi foi direto aos olhos de Júlia, como eram lindos e negros, tão negros a mel.

Júlia fingia não perceber o interesse de Davi e prestava uma atenção de rabo de olho nas mãozinhas e nos pequenos braços tão apertados ao pescoço do pai. O pai de Davi era um moço lindo, olhos cor-de-amêndoa. A mãe de Júlia era uma verdadeira princesa do Zaire, negra, negra, negra quase marrom.

Os carros não cessavam o passa-passa e a multidão aplaudia uma Senhora de melindrosa com as pernas à mostra. Outra hora, eram as variadas buzinas as vedetes do passeio. E outras ainda eram os palhaços e suas golas e laçarotes enormes. (Graças a Deus já havia palhaços naquele tempo!)

Naquele tempo mamãe disse-lhe assim: “Júlia vá oferecer um pouco das pipocas que acabo de te trazer, veja como o pequeno Romano olha pra cá, deve gostar também de pipocas!”

Com muito receio de machucar aquele encontro de almas infantis, Júlia foi ao encontro dele e disse: “Você quer?”, Davi levemente corado falou: “Papai eu posso aceitar?”, no que seu pai respondeu: “Nada se deve negar a uma bailarina” e sorriu comovido pela cena singular que acabara de presenciar.

Davi, mesmo quase da altura de Júlia, esticou os bracinhos e entregou-lhe umas pipocas na boca, num gesto inesperado, ao que Júlia nem teve como recusar tão meiga oferta, mastigou com bastante força as pipoquinhas que iam fazendo estalinhos nos risos nervosos dos dois. Depois, então ela fez o mesmo com Davi e Davi repetiu o gesto e ela fez a mesma coisa novamente. Desse jeito, os dois curtiram o carnaval de 22 e aquele quase primeiro desfile de carros em alas e alas.

Carnavais como esse nunca mesmo, embora Júlia nunca mais tirasse a sua fantasia de bailarina e Davi nunca mais se esquecesse de como conquistar em sendo conquistado.

Talvez na Praça Onze as histórias fossem as mesmas, mas aquela cor cariada, aqueles olhos quase a mel, aquelas sandálias improvisadas por mãe e as palavras do pai só mesmo em Pinheiral, pontualmente às 19 horas de uma segunda-feira gorda de carnaval.




foto de Augusto Malta

domingo, 18 de novembro de 2007

SAUDADE





















pintura de Gilliatt

Maresia...
Nivea Moraes Marques


a saudade descreve um arco sem barco
sem traço sem nada,
tanta lágrima que pula tanta vida que simula
tanto que tanta, nem sei mais...
queria porque queria
era dizer nem mais nem menos
uma palavra a tal palavra aquela palavra...
só que não tenho só que não sei só que não possuo dicionário...
nem bula nem remédio nem pajelança pra salvar Werther desenganado.









sábado, 17 de novembro de 2007

CHINESINHA MODERNA

Chinesinha moderna
Nivea Moraes Marques



Não cabem todo o negro e amêndoa
Dentro dos olhos da chinezinha
Quando ela chora, respingam feito fossem nanquim.

Chocolate, chega a chamuscar o chão
Chama incandescente e intensa
Chafariz dentro dos olhos da chinezinha

Cantata, cânfora, casca de cortiça
Chispa choro chuvinha
Chegança, teatro de novos temas

E a chinesinha chora e ri
Desenha outros contornos pra seus próprios olhos
(sonhando em línguas estranhas)
contém chororô e choramingos,
a tinta pode acabar...

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

SUPORTAR O SOL

O corpo não basta
Nivea Moraes Marques


O corpo não basta pra me levar aonde não quero ir mais
O corpo não basta pra causar o cansaço que o sono não refaz
O corpo não basta
e não se desfaz na ponta da faca
de quem não tem coragem pra matar o corpo que basta

Reflito em espelhos o corpo que me dá asas,
ele não é mau,
ele é apenas só, o corpo que me basta

Se me atravessasse a quadra
Se me derrubasse a porta
Se me pendurasse em janelas
eu poderia dizer que tenho o corpo que pesa
que tenho o corpo que pende
que tenho o corpo que abisma

Mas o corpo não basta pra levantar
esteiras
pra preparar estradas
pra suportar o sol

Mas o corpo não serve pra navegar
esquadras
pra castigar os medos
pra suplantar o sal

O corpo que basta não carrega pedras
nem serve de água à sede

O corpo que basta definha em redes
O corpo que basta não se defende
da tarde
não compreende as falas
nem pede beijo ou se cala

O corpo que basta reprisa,
em voz rouca, “Todos os nomes”
de um personagem sem nome
O corpo que basta não insinua
ele é apenas, só o corpo que me basta.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

RUBAIYAT

Rubaiyat
Nivea Moraes Marques


Melífluas bailarinas requebram para Rubaiyat em seus quadris desenraizados. (mas ele não olha pra elas.)

As cabras dão a Rubaiyat o seu primeiro leite. (mas ele nem experimenta).

O encantador de cobra toca sua flauta encantada para ver sorrir Rubaiyat. (mas ele dorme na presença do mágico).

Rubaiyat quando criança era muito inquieto e voraz por todas essas e muitas outras novidades. Mas um dia se pegou a perguntar o para quê de cada coisa e com muito insatisfatórias respostas, perdeu o visgo da vida.

Dentro de suas coloridas cortinas, deitado numa cama gigante, sonha sonhos encantados e descansa a sua sina filosófica.

Os pais de Rubaiyat morreram há muito tempo, mas deixaram amas para o acalentar em sua tristeza. Rubaiyat é grato, mas não as detêm um instante que fosse para prantear os seus colos solares.

Rubaiyat sofre sozinho e também não toca em qualquer tabaco ou ingere qualquer álcool, como que seguindo secreta religião, sofre de sóbria lucidez.

Menos nos sonhos, os sonhos de Rubaiyat envenenam seu tempo alerta, porque no sonho além da liberdade de não querer resposta, Rubaiyat confeita bolos e os rifa em concorridos leilões.

Tanta tarefa para as mãos distrai a inteligência. Cumpre seus rituais de doces, coberturas e confeitos e descobre tantas e tão boas respostas nos sorrisos dos que arrematam seus doces (apenas antevendo a gula da sedução das massas nascidas de suas mãos).

O problema mesmo reside na hora em que esses sonhos despertam e Rubaiyat acorda para o seu reino e só tem perguntas e gente para satisfazer um seu desejo do novo que ele na verdade nem tem.

A virgem do lago azul manda beijos pra Rubaiyat, mas ele não corresponde.

O engolidor de facas espeta o próprio estômago e não morre, tão trespassado na frente de Rubaiyat, mas ele definitivamente não se incomoda com extravagâncias de cutelaria.

No entanto, em período vespertino, o mico da juba de ouro se enrolou no cangote de Rubaiyat, ele faz que sim, ele faz que não. O mico encara Rubaiyat de frente e nesse mesmo momento Rubaiyat faz baixar um decreto: “Aberta a temporada de caça ao mico da juba de ouro”.

É que Rubaiyat aceita o desafio, mas num único desafeto.

domingo, 11 de novembro de 2007

FOSSE EU O TEU PAÍS

Fosse eu o teu país...
Nivea Moraes Marques

Nem imensa nem vasta
Sou o caminho perfeito de um frasco de perfume evaporando
Pura e verde e abandonando fronteiras
Nem frondosa nem ourivesaria
Nem só feita de céus azuis de abril
Mas estrelada, noite quente, manto de todos os teus estados
Fosse eu o teu país...
Milharina em tigela fumegante,
Sem colher, direto nos lábios: queimando, deixando exposta a carne viva da tua garganta
Não ousarias pousar na terra roxa ribeirinha
Teus pés nus, esses sim... atolados até!
Fosse eu o teu país...
Reabastecido estarias na dobrinha de minhas contradições.
Rasgando o meu sotaque português,
Te apertando em minha negra taça,
Nascerias de novo: herói sem nenhum caráter.
E se eu não te conduzisse a parte alguma?
Fosse eu o teu país...
Sempre estaríamos num futuro próspero,
Paixão que multiplica nossos corpos suados em estádios lotados
(Ninguém enxergaria nosso abraço mais colado, quando do grito de gol)
Fosse eu o teu país...
Pagaria as dívidas todas e assumiria compromissos e fingiria ser capaz da independência
Devotamente, acenderia velas... só porque é lindo o jantar em mesa assim iluminada!
Rezaria em romarias, aprenderia os cordéis, as vaquejadas, o boi-bumbá, fôlego no berrante e me acabaria, colombina em quarta-feira de cinzas sambando, ainda em pleno carnaval...
Fosse eu o teu país...
Era de luta que eu precisava...
Era de luta todo dia espada em punho, São Jorge em minhas sete luas...
Espada túrgida flor aberta, Espada embainhada coxa com coxa...
A nossa guerra era a mais tola era a mais torpe era a mais suicida...
Desativar a bomba suja a bomba rota a bomba solta...
Fosse eu o teu país...
Eu sabia era de amar amor de meretriz amor que cola amor que gruda e apavora
Quando longe, sentado choras... saudade... Dias em que as aves não gorjeiam...
Fosse eu o teu país...
Nunca mais ia querer morar em outro lugar...

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

DE CAVAQUINHOS SAEM VIOLAS

De Cavaquinhos Saem Violas[1]
Nivea Moraes Marques



Cavaquinhos conduzem violas,
retomam carnavais
e transformam: milênio em querubins
viúvas em cães
poderosos em crianças
recém-nascidas
caridade em tristeza
solidão em mulheres paridas

Cavaquinho soa à viola,
ainda somos capazes de ouvir.

A noite, debaixo da cama,
ri das pessoas:
acendemos velas à mesa.

Deuses do amor,
como guardas-noturnos,
passeiam à janela
pensando no mundo.

Duas garrafas de vinho
aos que fazem serenata
e está pronto:
De cavaquinhos saem violas!


[1] Inspirado em texto de Ana Miranda: “Novo Milênio”

Desenho de Gilliatt

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

ASTRO-NAUTA

Princesinha
Nivea Moraes Marques






Lucas pisou naquele solo, como costumeiramente fazia no solo que já conhecia, embora ali nunca estivesse estado antes.

Lucas pisou naquele solo e olhando para cima pensou que sempre reconheceria aqueles tons de azul, embora nunca os tivesse avistado antes.

Eram limpas as águas, ora revoltas ora em calmaria, embora ele nem se habilitasse em se misturar àquelas espumas que se formavam à beirinha.

Lucas vestia roupa de gente que ali habita desde sempre e quase as velhinhas lhe pediam que indicasse a direção de suas próprias casas, mas para sua sorte era quase mesmo, em razão de um semblante sempre contemplativo e ausente de qualquer direção do que é concreto, quanto mais do que é casa.

Lucas paria a cada momento um turbilhão de sensações inexploradas e inexplicáveis, lutando contra si para não se costurar agora mesmo aos carrocéis de tinta preta e blocos de concreto que desenhavam vida elegante àquele bairro que carinhosamente respondia por “Princesinha”.

Nos meus sonhos eu encontraria sim uma princesa, mas pra sempre estaria dela apartado, porque nem plebeu eu posso ser, travestido que sou em pierrô, estelionatário, fugitivo, ladrão, cretino, poeta...

Nunca tirei nada de ninguém, mas permiti que a vida fosse me entregando (não sem uma boa dose de malícia) seus tesouros.

Hoje prego os meus pés nesse imenso azul e preto transatlântico e sugo cada gota de sal e bruma e som e habitat.

Gostaria imensamente de plantar meus pés aqui, mas preguiça não combina com todos os atributos de um pierrô, estelionatário, fugitivo, ladrão, cretino, poeta... Só não avisto o Cristo, mas até as tuas pedras me dão vontades de viver sambando numa nota só, para estar rotineiramente aos teus pés, ouvindo essa tua música natural, olhando belezas que nem te conheciam antes que fosses inventada.

Recolhido num quarto de hotel, colo à noite meus olhos no branco do travesseiro e já não sou mais pierrô, estelionatário, fugitivo, ladrão, cretino, poeta... basta já somente recriar teu nome: ‘Princesinha’, para ser apenas teu astro-nauta.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A PRESSA DOS PEIXES

Desenho de Francis Marques

A Pressa dos Peixes
Nivea Moraes Marques

A pressa dos peixes
se acaba na boca.

A carne branca
desfaz a fome (com a farinha)
os dedos não ousam tocá-la
e a pressa dos peixes
logo se cala
logo é orvalho na língua da fome.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

GIRASSÓIS NOTURNOS

Noturno
Nivea Moraes Marques


Para Izabella Marinho Brant e José Lino de Oliveira


Gira em meus dedos
essa cor que se chama noite.
Noite fatigada
Anciã de olhos azuis
escurecidos

Pérola negra
Girassóis retintos
Planta-me no ventre
a permuta com o sol....

Noite
(espaço entre
o pôr-do-sol e o amanhecer)
planta-me no ventre
a permuta com o sol.

Gestada em barriga humana
Nascida noutra noite, negra pagã
(Nasci noutra noite, negra, pagã)
Nega, neguinha,
negra, negona,nigérrima
Fala de novo pra mimque a noite é apenas escuridão e paz.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

O ANZOL DA PALAVRA

O anzol da palavra (“Cadê o toucinho que tava aqui?”)
Nivea Moraes Marques


A água bebeu o boi
O boi subiu na cerca
A cerca espantou o dia
O dia despencou da escada
A escada suspeitou da esperança
A esperança julgou o tempo
O tempo pediu licença-prêmio
Licença-prêmio não é penico!
O penico mora debaixo da cama
A cama cola nas costas do preguiçoso
Preguiçoso é o colarinho do palhaço
O palhaço nunca vai cuspir marimbondo
Marimbondo roi a paciência do mundo
O mundo não tem fita métrica
A fita métrica não sabe tabuada de três
A tabuada de três é sinônimo de estrada
A estrada corre sentada
Sentada é a pose do Buda
O Buda inventou a barriga
A barriga atrai formiga
A formiga vai de sombrinha pra escola
A escola tem um trato com as férias
As férias constróem castelos de vento
O vento reclama da poeira
A poeira entope as lágrimas
As lágrimas corroem esterco
O esterco lambuza a rosa
A rosa é senhoria do espinho
O espinho não gosta de sangue
O sangue coagula tristeza
A tristeza aduba mangueira
A mangueira serve de balanço
O balanço fabrica o galo
O galo chupa gelo
O gelo gosta do roxo
O roxo não está na bandeira
A bandeira pede mastro
O mastro é parente dos piratas
Os piratas dão de presente a lua
A lua não brinca de pula-carniça
Pula-carniça é antiguidade
A antiguidade sabe das coisas
As coisas se guardam em baús
Os baús inventam ruídos
Os ruídos caçam fantasmas
Os fantasmas falam demais
Demais é verbo sem flexão
A flexão comunga com a diferença
A diferença é igual a existir
Existir fabrica passarinhos
Os passarinhos rabiscam as telhas
As telhas têm medo de altura
A altura foge de edifícios
Os edifícios nunca viram um caranguejo
O caranguejo dança ciranda
A ciranda é comadre de São João
São João prefere o inverno
O inverno caducou na primavera
A primavera arrasta grinalda
A grinalda é o coletivo de noiva
A noiva tem gosto de glacê
O glacê não comemora aniversário
O aniversário é sempre atual
Atual pede carona pro hoje
Hoje perdeu o relógio
O relógio não serve pra nada
Nada está sempre com fome
A fome foge da igualdade
A igualdade tem muitos irmãos
Os irmãos sobem a montanha
A montanha acredita em Deus
Deus não discute com a pressa
A pressa engole a língua
A língua quer ser cantora
A cantora belisca o coração
O coração gosta de ilusão
A ilusão não usa óculos
Os óculos têm fronteira
A fronteira reparte os cabelos no meio
Meio fica entre o começo e o fim
O fim se mete em tudo
Tudo não tem limites
Limites: utilidade das mães
As mães tecem o mar
O mar salgou a água
A água o boi bebeu.

domingo, 4 de novembro de 2007

3X Chagall

O Poeta
Nivea Moraes Marques

O poeta tem a cara verde e se veste de azul
O poeta bebe café e não sabe que gosto tem
O poeta tem pé de moleque e mãos de avestruz
O poeta inventa o sono da palavra.


A Queda do Anjo
Nivea Moraes Marques

Um anjo rubro despencou do céu
Caiu de cabeça pra baixo
A gente, que nunca reconheceu anjo,
preferiu o assombro.
Os Amantes nos lilases
Nivea Moraes Marques

Os enamorados nunca se abraçam
no espaço vão.
Uma mecha de flores acalanta
os motivos da felicidade.

sábado, 3 de novembro de 2007

MEU FILHO

ME ABRAÇA E ME DÁ UM BEIJO
FAZ UM FILHO COMIGO
Nivea Moraes Marques



escultura de Rodin

No abraço inicio a construção de meu filho. Todos os abraços, em todas as pessoas.

Há abraços em que coração com coração se pegam num pulso cadente e igual, é quando todo o meu corpo se abre, evapora-se o cansaço, meu filho pula dentro de mim e me pede: “mãe, nasce!”

Há abraços, que mesmo não sendo protocolares, parece o encontro de duas montanhas. Choca, brutamente, monte com monte e fim. Meu corpo retorna intacto, meu filho dorme dentro de mim.

Não dispenso abraço de jeito nenhum. Até as ursadas me desafiam o contato. Meu filho é que pede: “mãe, eu quero nascer!”

O início da construção é assim, como que uma empreitada coletiva, para o bem de toda coletividade, porque mesmo sem a certeza do para quê, a ordem da natureza é a perpetuação.

Parece atividade promíscua a procriação. Mas ao contrário. Inumeráveis abraços delineiam os seus olhinhos, a sua boquinha, seus finos cabelos, sua pele inocente... é preciso contato humano para essa criação.

No beijo a profundidade se verticaliza. Também se trata de um nome incontável, experiência coletiva e alastrada que vai desde os dois beijinhos ao beijo de língua.

Beijo é dispensável. Ao contrário do abraço, que é indiscriminado. É difícil o beijo do traidor. É difícil beijo que se encaixe. É um pouco mais difícil encontrar aquele a quem se deve beijar. Beijo é sinal de intimidade.

Apesar de criterioso, beijo é imprescindível. Meu filho cresce dentro de mim e defini-se o seu sexo.

Isso é uma aprendizagem. Meu filho é gerado dentro de mim desde que nasci. Ele ganha dimensão e significado a cada dia, em cada encontro, em cada abraço, em cada beijo. Em todas as pessoas. Mas seu nascimento físico, tão mais importante para ele do que para mim, só vai acontecer se esse abraço e esse beijo, tão experimentado na humanidade coletiva, se especificar um pouco mais.

Especificar, espécie, especial.

E o trabalho coletivo se resume a duas pessoas de sexos distintos, biblicamente, cientificamente. Ainda não há outra possibilidade para se gerar um filho.
Propositadamente, chega-se à parte mais estreita do funil. A experiência feita de mil pedaços se desfaz em unidade e há que se suportar a bordoada, um por dentro do outro.

“Me abraça, me dá um beijo,
faz um filho comigo.”
(Rappa)

Desejo que reduz a minha e a tua criação a um nada nunca antes navegado. A uma terra por descobrir para sempre não descoberta. É um desejo que merece um próximo passo. No abraço inicio a construção de meu filho, no beijo a profundidade se verticaliza, a razão concorda com todos os meus sentidos. Especificamente, nesse instante, só haverá uma única pessoa na terra capaz de pisar o meu passo. Eu quero dançar a dança do fogo. (Meu filho dentro de mim só espera um mandado de Deus.)

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

ARCANJO AJOELHADO



Arcanjo ajoelhado
Nivea Moraes Marques


Com cânticos de aleluia, socorrem-me os anjos
nesse mundo magoado

Haveria violência maior
mas ninguém a quer conhecer
ninguém quer

O combate, se há combate a dar
Tem que ser o das janelas abertas, o do sol que sangra um dia bobo
O tule cor de rosa da sainha das pequenas bailarinas

Quão delicada é essa voz
e essas vestes,
Arcanjo ajoelhado em prece

Enclina essa santa cabeça e pede, aleluia
Ainda é em paz que os homens esperam viver

E esperança maior não se vê em terras tão demolidas,
em pátios secos e infrutíferos.
Esse arcanjo ajoelhado e em prece
É o homem que já tendo nascido, não quer nunca voltar a morrer

Arcanjo ajoelha em prece e pede
a Deus Nosso Senhor
Ensinança pro homem, que precisa gostar da sua humanidade
e encontrar-se, nos caminhos, com o silêncio que é a paz.






quinta-feira, 1 de novembro de 2007

SERRANA

Serrana
Nivea Moraes Marques



"Tornar-te-ás só quem tu sempre foste"
Ricardo Reis - pseudônimo de Fernando Pessoa



Na terra afirma teus pés

para novas jornadas

e sai caminhando pelo mundo

afora

à procura de alguém

Dentro do corpo da pedra

mora o teu segredo

não quer destrui-la

para apropriar-se,

no entanto, floresce

(parecido com seu próprio nome)

o interior do corpo

da pedra

(quem sabe o coração)

trinca

escapando seus milagres e

perfumes.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

MINEIRO DO CAOS


Sale the moon
Nivea Moraes Marques





Para Waly Salomão



Uma arcada de criança
Magnífica e magnetizada
Pelos arabescos de tua
Língua petalada em
Sílabas sem
H
(todos os sons te percebem)
Numa aposta de mel
Recebe o santo
(que desponta
o rabo do chicote)
Excitado nessa festa de dentes,
Tua boca escarrada:
Brasil, Brasil – Meu pandeiro.

Quando árcade criança, eu tramo o teu silêncio
numa arca de ciranda:

Não tenho saudades de nada
Vizinha do sobreposto
Reciclo todos os rostos
E brilho em abandono
Rastro cheio de mundo
faceira em pontas de pé
só me lembro de longe
que você tinha dois olhos
e um coração de rapadura.

Maciço
Seixo
Contralto
Remelexo
Sombra sem sono
Não é um substantivo

Sem nome, a espécie
é dada como anômala
imortal
indecifrável.
amplamente redemoída
em félix,
mineira
do caos,
Sub-urdido.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

CARPINTARIA DE CARNE

Geratriz
Nivea Moraes Marques

Carpintaria de carne
nenhuma curva
se vê
há um discreto gosto de sangue
e o mistério da forma.

Inauguro novos métodos,
mas como é escasso o verão...!
O pássaro que plasmo em meu ventre
não é feito de prata
nem é revestido de plumas

Como um anzol,
fisga-me:
sou a isca
desconheço a amplidão.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

ANTÍLOPE

Antílope
Nivea Moraes Marques







Pequeno ambiente de musgo e caule
que corre pequeno
pelas terras de África

Encontrará por mim Dirceu?

Encontrará por mim o meu amor?...

Tens nesse corpo um abrigo para o frio
(afasta o calor do chão que é seu piso)

Arrosta o medo com a força oca de chifres
(nunca vi suas formas, mas quero crer frágil artefato
de voraz apetite)

Pequeno ambiente, gostaria de fazê-lo pequeno objeto
Broche para meu enfeite.

domingo, 28 de outubro de 2007

ENDOMINGADA

ENDOMINGADA
Nivea Moraes Marques

Quanta alegria quando ouvi: “Nós vamos
à casa do Senhor!”
(Saudação a Jerusalém, Salmo 121 (122))


Eis que nossos pés chegam às Tuas portas, tantas vezes sem vontade de percorrer o único, mesmo caminho semanal que para aí me leva. O mundo me oferta suas paisagens aos domingos. Embora engomadas de horror e de tédio, quase me têm cativa. Imã da inércia.Ventre do nada.

Se me entrego a essa boca estreita e viciante, desertifico o meu coração. Escavadora que é do que já é tão escasso em nós. Desprovida, sorrio o sorriso do comercial, revela-se então tudo o que é estéril dentro de mim.

Eis que nossos pés chegam às Tuas portas, hoje é difícil saber qual a roupa de domingo. As pessoas mudaram muito as suas rotinas, a liturgia das horas se confunde, se complica, a disciplina do fazer se abre à uma liberdade sem tradição. (Ainda que meu corpo não envergue as cores que são Tuas, coberto que está pelas roupas de sempre, como é acolhedor o Teu abraço. É mais para nosso conforto esse cuidado, é preciso preparar o corpo para que a alma receba. Nosso corpo é a veste inseparável da nossa alma nesse mundo.)

As tribos do Senhor tatuam em seus olhos a pureza, renovando costumes, se adaptando à vida que se move com as molas do mundo, que a todos pertence. Deus nos pôs nesse mundo para o convívio com todos e as experiências se tocam para a constante transformação, eu necessito transformar-me todos os dias. Converter-me no que não sou para ser o que Deus quer que eu seja, contudo, não posso me perder nesse caminho. Domingo é dia de missa. Toco o meu irmão com tudo o que sou, e é meu corpo que toca o seu corpo, mas é minha alma que recebe o seu pão.

Eis que nossos pés chegam às Tuas portas, para a alegria que experimento ao receber o Teu pão. A dor pode ser mesmo insuportável, mas a gente suporta essa dor e não é porque a gente suporta essa dor que ela vai deixar de ser insuportável. A todos os ouvidos que a Ele se dispõem será dito: “Reine a paz sobre ti!” E a paz do Senhor é tão delicada dentro de nós, que ela vai construindo pontes, revelando então tudo o que é fecundo dentro de mim.

Por isso, mesmo sem vontade de percorrer o único, mesmo caminho semanal que para aí me leva, gestada que estou no ventre do nada. Mundão que me péla pela pele, que me faz livre ser cativa da inércia, comendo com dentes podres uma liberdade sem tradição. Toca a Tua mão em mim, me transformando, me convertendo. Pai da delicadeza, não me impõe a Sua santa presença, reaviva apenas a tatuagem impressa nos meus olhos. Sou eu que quero a Tua paz.

Eis que meus pés chegam às Tuas portas, endomingada.

sábado, 27 de outubro de 2007

ADVOCACIA X POESIA

ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO
Nivea Moraes Marques



Tenho medo do trabalho prazeroso.

O dia tem todas as horas e em seus rituais é preciso entender o sossego, o descanso, a ausência de tarefas para a reconciliação do sono, do amor, da criatividade e dos dias novos que precisam nascer.

Meu trabalho me incomoda um tanto e agradeço por não suporta-lo à exaustão. Traço limites rígidos para os seus domínios e não arredo pé da teimosia de abandoná-lo nesse limite, como se deixasse do outro lado da rua um filho que não vou alimentar nunca mais.

Me concentro na tarefa de observar o meu rosto, de observar as pessoas em suas tarefas, de construir meus porões, de pintar amarelinhas no chão do meu quarto.

Cultivo bonecas e as batizo com bolo, padre e convidados. Nomeio os meus seres com a devida formalidade e no dia seguinte ninguém nota o tamanho do ônibus espacial que tomei.

Astronauta de espaços interiores, cada astro é cadente e não importa o quanto necessite de sua luz, nada é mais precioso que a minha necessidade de policromia, de vários detalhes, de mudança de temperatura.

Não é bom que o trabalho seja tão prazeroso quanto o prazer de se dedicar ao que mesmo não sendo essencial, é imprescindível.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

ANJO-ÍNDIO-LEÃO


Anjo-índio-leão
Nivea Moraes Marques

Para meu segundo sobrinho e afilhado Pedro



“Eu queria dar ao menino
umas asinhas de arame e algodão.
Mas ele diz que não pode ser anjo,
Pois todos já sabem que ele é índio e leão.”
Cecília Meireles


Esse indiozinho falta pouco faz um ano
Ele ri de mansinho e
Com as mãozinhas abrindo e fechando
Ora diz tchau, ora diz vem!

É leãozinho da tia
E quase nem sabe chorar
Ruge um pouquinho na hora da fome
E come tudinho
Pra ter força de homem

Meu anjinho se fez rocha
E ampara meus sonhos
Com suas asas no ar

Pedro, Pedrinho
Tem dois dentinhos

Pedro, Pedrinho
é tão gordinho

Indiozinho, leãozinho, anjinho
Cresce bem devagarinho
e deixa pelo avesso a costura de suas fantasias
Quando Pedro nasceu,
graças a Deus eu já estava curada da depressão,
e ele é como uma aliança de Deus comigo para a felicidade.
Ele é o arco-íris depois do dilúvio.
Pedro é uma jóia rara e a tia também te ama muito Pedroca!!!!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

DOZE MODELOS DE MENINAS

Doze modelos de meninas
Nivea Moraes Marques

Pequeniníssimas guloseimas
Cobertas de açúcar
Coloridas

Juntas, reunidas
para a baderna, a bagunça, a barafunda

Gomos da mesma fruta,
Oscilam á toa
Merengue do bel-prazer

Malote de belezocas
Brincam o carnaval
Transpirando benjoim.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

MULHER NUA

MULHER NUA
Nivea Moraes Marques


“a branca de neve não usa colgate
e não grita de felicidade como dentro das maçãs.”
Lobão




Maculado de azul, o tecido que cobria seu corpo. Também cobriu o corpo de seu filho e por isso se tornou sagrado.

Ela disse sim à maternidade porque essa era a sua função pessoal.

Ela disse sim à maternidade e gritou de felicidade dentro da maçã. Dentro da maçã, há polpa e serpente, descendentes e descendentes. Essa mulher pariu sem dor.

O milagre da vida transtornado em divindade, seu filho precisava da sua humilde humanidade mais do que qualquer outra criança precisa aprender a humanidade de seus pais.

Ele ia apertando, com pontos bem firmes, várias pedrinhas coloridas naquele pano azul e impreciso, cujas formas ocultadas pela castidade, revelariam a certeza de seus pés peregrinos: Misericóridia, pedrinha amarela; Esperança, pedrinha azul-piscina; Caridade, pedrinha verde; Prudência, pedrinha cor-de-rosa; Fortaleza, pedrinha branca; Modéstia, pedrinha magenta; Piedade, pedrinha laranja; Sabedoria, pedrinha vermelha; Paciência, pedrinha topázio; Culto, pedrinha lilás; Benignidade, pedrinha preta.

Os filhos são mesmo um enfeite para suas mães. E pelas mãos desse filho único recebeu em seu colo para sempre as multidões.

Titular de tantos nomes, todos recolhidos aos pés do corpo morto de seu único filho. Obediente à consumação dos fatos, ciosa da sua força-mãe, absoluta até para aquele que tudo criou, tornou-se depois disso advogada e filha do seu próprio filho.

Alçada ao céu, mais brilhante que o sol. Aparecida na terra, de seus olhos, às vezes vertem lágrimas de sangue, de suas mãos, às vezes vertem azeites curativos.

Seu canto Magnificat despe o seu corpo de mulher. Visível, é igual ao de todas as outras mulheres do planeta. Nascida dentro da maçã. Embora macio rochedo e inseparável, seu manto sagrado, maculado de azul, revelaria então a certeza de suas formas: mulher, como eu sou mulher. Mas, bem-aventurada entre todas as mulheres, porque o sim que viera de seus lábios, apenas porque viera dela, engrandeceu a alma do Senhor.



segunda-feira, 22 de outubro de 2007

COLOMBINA & PIERRÔ

Sexta-feira da paixão
Nivea Moraes Marques



"Que a terra pra chegar à primavera
mudou três vezes de estação."
Beto Guedes e Ronaldo Bastos

















pintura de Rosina Becker do Valle



Colombina antes do carnaval chegar


Para que um pássaro maior
pudesse se atirar sobre o meu colo
era preciso, então, que eu me calasse?
Rezasse muda os desígnios que eram
pra ser meus...

Acontece num sorriso distraído,
meu decote desaba em cascata multicor
meu peito exala uma delicada chuva de confetes
Descosturam-se de minhas extremidades
vários passarinhos de papel

Não caminho pelas ruas
Não moro numa casa
Meus acenos, sem lenço e pranto e despedida,
é como um sol precipitado: natimorto.

Ignoro o que me faz ter dentes
Ignoro a hemorragia que desmilingüe
meu coração

Sob a pele,
as estrelas da noite queimam
Calam-se
(habituadas à escuridão)















Pierrô apaixonado

Os peixes, submersos, ignoravam nossa vigília

Como passarinhos de papel
Suas mãos modelavam o meu canto

O mar, num trabalho exaustivo e permanente,
Riscava todo o meu corpo de espuma e sal

Minhas tuas mãos amassavam a areia
Traduziam os gritos
Que meu folêgo afogado em tua boca
silenciava

domingo, 21 de outubro de 2007

ARRECIFES, TANGO E BUQUÊ

pintura de Guignard




Vôo Noturno

Eduardo Alves da Costa


Fecho os olhos, respiro, ganho

altura e sinto a maresia

no reverso do rosto.

Há estrelas pressentidas,

mas não posso vê-las porque

mergulho, para dentro.


Reencontrar os amigos de infância:


Arrecifes

Nivea Moraes Marques


Dentro do silêncio dos seus rostos,
samambaias
cactos
e estrelas.

Só quero estar entre vocês

presa entre ombros tão bem desenhados

parede de titãs

asas de sabiás

Nunca poderia decifrar nossos velhos hábitos

Monges conquistados pelo dia

e se me perguntarem por seus segredos noturnos

Não digo uma palavra

Só relembro que os carnavais em bananal jamais serão os mesmos.

Mergulho para dentro

nessas horas passadas juntos

e me pergunto há quanto tempo eu não sabia o que é ter um amigo.



A dança dos noivos:


Em tango

As pernas trançam os passos
Os pés desenham os riscos no chão
O corpo ereto dá à ginga o compasso
A face expressa os muitos amores carmins
A flor no cabelo engomado é detalhe e desfecho

A sanfona, em tango, traduz o sotaque das cardiopatias.





Dia 20/10/07 foi o casamento da noiva (marroquina sim!) Patrícia, ela e Francisco desenharam num tango bem dançado o seu futuro de amor. Conquistados pelo clima, quase fui eu quem pegou o buquê (onde andará o meu portenho?), mas o tiraram das minhas mãos, uma outra noiva arrepiada que teme ser abandonada no altar, será minha sorte indo pelos ares? Mas o mais importante não foi isso, foi comer e beber ao lado dos meus velhos e velhacos (Gê) amigos.
Távola redonda de tantos sonhos e pensamentos vãos compartilhados. Como é bom estar ao pé deles. Como é bom despir-me aos seus olhos e sermos crianças de novo. Aos olhos de Jesus nós somos sempre crianças. De mãos dadas apenas dançávamos louvando a alegria, enquanto os milagres aconteciam, principalmente o da multiplicação do Proseco.

Foi muito bom, beijos Lê e Leandro, Camila e Jader, Iza e Renato, Jordana e Carlos, Gê, Simone. Amo muito todos vocês.

(Breve no Blog as fotos)

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

GALAR






O galo e o catavento
Mauro Mota



Pousa no topo da haste como peça
branca do cata-vento, na cumeeira
da casa. O cata-vento gira, e o galo
mudo, esculpido em folha, só, no aéreo
poleiro, também gira, gira, gira.
Ventos catados pelo cata-vento
tentam levá-lo. O galo, todavia,
não vai. (Come as rações da ventania.)
Permanece trepado no mirante.
Estica, às vezes, o pescoço de aço
para onde? Cego e preso, pelo espaço
continua trepado no mirante o que procura? Espreita a madrugada
em que lhe possam rebentar o canto
e o vôo metalúrgico das asas.







Galar
Nivea Moraes Marques




Imóvel galo
deixou-me como herança
meu bisavô português

Negro, em detalhes vermelhos
cuida que a língua só não baste
para afiar meus bigodes

A louça fria de que é feito
engole, a cada manhã,
seu canto inaugural

Meu galo não dorme...

Mesmo calado, insone,
imóvel
(as patas unidas, imperceptíveis
numa base arredondada, igualmente negra)
meu galo, quase um doce típico,
todos esses dias
amanhece galar
perpetuando em mim
a minha própria espécie.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

A PERMUTA DOS SANTOS

Em ceres anoitece.
Nos píncaros ainda
Faz luz.
Sinto-me tão grande
Nesta hora solene
E vã
Que, assim como há deuses
Dos campos, das flores
Das searas
Agora eu quisera
Que um deus existisse
De mim.
Ricardo Reis - Fernando Pessoa
------------------------------------------------------------------
A permuta dos santos
Nivea Moraes Marques

Agora eu quisera que um Deus existisse em mim. E que tudo em mim refletisse as suas lições, que cada braço e cada perna se movesse em razão dessa única força motriz.
Agora eu quisera que um Deus existisse em mim, não para me tornar como Ele um Deus, não para acolher a sua face em mim. Quisera que um Deus existisse em mim apenas para confundir minha humanidade, que decrescente, não se confundiria tanto.
Se Deus quisesse existir em mim, agradeceria por minha face, por meus olhos, pela minha voz. Mais que um mensageiro, aceitaria seus cacoetes para me assemelhar em seus comandos a tudo quanto Ele quisesse e eu então quereria também.
Se Deus florescesse em mim, nunca os meus sorrisos seriam indignos, nem minha voz se exaltaria em vão. Teria tudo de meu, mas só existiria porque Ele existe em mim.
Quando Deus se comovesse, deixaria Ele chorar as minhas lágrimas, e assim eu sentiria o sabor (salgado) de sua misericórdia.
Gostaria que um Deus consentisse em mim a tarefa de levar adiante o Seu nome, a tarefa da santidade em tarefas muito mais que essa mesma: humana.
Se Deus revestisse as minhas mãos e tatuasse o meu coração noite e dia, ser Santo seria uma simples adesão de vontade. Mas Deus adormece, Deus envelhece, Deus adoece e precisa ainda mais e mais da minha voluntariedade, dos meus braços, das minhas pernas, das minhas mãos.
E se eu fosse forte o suficiente, experimentaria por dias a virtude desses santos que obtiveram êxitos em suas tarefas, transformando o que é corpo em unção.
E se eu fosse forte o suficiente, entre a miséria e a coragem, optaria pelas duas e santificaria os meus traços, na beleza santa de tantos santos e santas desconhecidos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O BARCO DE DAVI

pintura de Márcio Camargo





O barco de Davi
Nivea Moraes Marques


Das velas, despregadas
estrelas,
seu barco é Davi.
Davi canta e dança
para o Senhor
seus belos papéis
as horas descansam
preso apenas pelas
setas das estrelas tantas
e se vedava os olhos do Senhor
para com morte
cultivar um amor
que não podia ser
seu
despregado de estrelas
limpava seu rosto
num arrependimento
profundo
cobria a cabeça
com cinzas
e um dia voltaria
a dançar
seus passos em nuvens
glorificavam os espaços
enquanto corriam boatos
de que Davi não era mais o
mesmo.
Seu barco pendurado
de estrelas por
despregar
seguia seu rumo
imprevisto
tantas águas que suas
lágrimas sentidas
confirmavam
Davi é o barco de Davi.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

MANHÃ, QUANDO INVERNO















pintura de Monet

Moldura
Nivea Moraes Marques

Faze uma daquelas
de que eu era feita

Faze e acaba.

Mistura de um só barro
varanda de todos os meses
eucaliptos redondos
velas derretidas...
E os umbrais sempre a nossa volta

Umbrais estabelecidos e partidos
pelo tempo que já conquistei.








Lume
Nivea Moraes Marques




Faísca eu não me basto.

Rendo-me,
madeira
fogo
e
reta
pra me curvar em teus espaços
lentamente.






Manhã, quando inverno
Nivea Moraes Marques




Busca-me o braço
como se eu estivesse sempre ausente
Segura-me os pés
como se eu sentisse um caminho
(de verdade)
Restringe furor, perturbações
e aquele cansaço repetitivo
Expele em faringes abertas
uma gota
uma gotícula
uma prenda
nossos lugares,
Cadeiras espartanas
na saleta que é espinha.
As notas se soltam
e suntuosas, reprisam
ou repristinam
as nossas manhãs.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

AQUÁRIO DA NOITE


Aquário da noite
Nivea Moraes Marques



No aquário da noite os peixes dormem. Dormem de olhos abertos e enquanto o sonho passa seus filmes sem nexo eles registram a paisagem. Imutável às horas. A água e o ar não importam nada nessa noite em que os peixes no aquário dormem.
Dormir não passa perto da morte, aduba a vida. Dessas paisagens imutáveis e desses sonhos vãos nada que é de são é acrescentado. O que tem consistência é o descanso, o pensamento tranqüilo, quase nulo, os sentimentos restaurados a um lugar em que eles não podem nada. No sonho o coração habita grande as madrugadas, mas o seu conteúdo é um privilégio para bocas desdentadas.
Quando é o meu sono o habitante noturno do meu corpo, não me importo com o dia (nada aconselhável para o sono), mas me importo com a ausência da lua. Há que haver um ponto de luz, luminosamente pendurado, para o caso do acordar de repente. Acordar é enxergar, é ter certezas, é estar seguro.
A penumbra assusta mais porque esconde do que porque revela o perfil daquilo que não existe.
Eu gostaria de existir no sono, mas poucas pessoas sabem a cor dos dentes de Deus. Poucas pessoas se entregam a Ele enquanto dormem. Temem o não regresso e por isso O desconhecem mais e mais.
Dentro do aquário da noite não procuro refúgios para proteção contra o predador notívago, sei que nada pode destruir meu solo noturno. Terremoto? Arma de fogo? Dardos envenenados? Ausências involuntárias, inverídicas, palpáveis?
Nada disso abala meu solo noturno. Basta que feche meus olhos, não cante nem conte carneiros, basta que feche meus olhos, como meu mundo, fechados. A calma do corpo estendido, a mente delicada então.
Espero o sono todas as noites costurando minhas extremidades no aquário, sei que nada tira de mim o meu solo noturno, nem esse feixe de flechas, das tuas, que ainda nem experimentei.

DIA DO MESTRE

Tenho e sempre tive muito respeito e amor pelos meus professores. Muitos deles se tornaram grandes amigos como a Bia Pacheco, o José Lino de Oliveira e o Luís de Jesus Pacheco. Eu sempre procurei aprender mais do que eles pensavam me ensinar, aprendia um pouco o seu jeito de ser, o que entendiam além das ciências que ensinavam, o que refletiam suas almas. Agradeço por sua dedicação ao ensino e pela oportunidade que tive em conhecê-los.
Todos os meus professores mudaram a minha vida e o bem que me entregaram ninguém jamais poderá tomar.
Ensinar hoje é um desafio, porque eu não sei aonde as pessoas estão procurando seus tesouros.
Nas mãos dos nossos Mestres residem lindas bênçãos para nós, mas temos que segurá-las firme e com carinho para receber essas graças.
Para todos os meus professores, para todos os professores do mundo eu desejo paz e sempre melhores condições para o exercício de seu ministério.
Parabéns pelo dia do mestre!!!

domingo, 14 de outubro de 2007

CANARINHO DE MIM


Quando eu estive muito e muito triste, a ponto de desaparecer de tão triste, Maria Clara nasceu e com certeza muito do que eu sou e que se transformou em palavras foi pela vida, vida vida mesmo que existe dentro dessa pequena menina-bailarina. A tia te ama MC.




Brasil Meu Canarinho
Nivea Moraes Marques



Para Maria Clara



Quando eu calava, as tuas estrelas emudeciam.
Quando eu calava as tuas estrelas eu emudecia.
As estrelas costuravam-se à minha boca
E a voz se refletia nos olhos e nos braços de cada estrela
Nunca te falei esse infinito de coisas belas:
Apenas nadava investigando o amor,
que há de nascer no mar e morrer nas águas
Que há de nascer nas águas e morrer no mar

Brasileirinha, canarinho de mim.

sábado, 13 de outubro de 2007

BAILARINAS NO VAREJO

pintura de Degas

Bailarinas no varejo
Nivea Moraes Marques


Para meus queridos bailarinos Ciça e Claudinho
Para todas as bailarinas que dançam comigo e a minha prof. Isabel



Eu sempre quis ser bailarina
Desde cedo eu sabia fazer pliê, demi-pliê
Quase só usava preto e cor-de-rosa
Fita nos cabelos pés esgarçados
Acontece que o coração não entende
das escolhas que a gente faz na vida
Um dia ele começa a crescer
Cresce quase à vontade
O meu não entendeu o meu corpo
Ficou maior do que os meus pés
meus braços, do que os meus cabelos
Coração
(casa de máquina que move os homens)
não podia ser maior que o sonho,
numa bailarina que se preza tudo é proporção.
Aprendi, então, a desenhar seus nomes
E hoje coleciono
(para as filhas que ainda não tive)
o saldo das bailarinas que não fui.

MOEMA

A MORTE DE MOEMA
Frei José de Santa Rita Durão

"Bem puderas, cruel, ter sido esquivo,
Quando eu a fé rendia ao teu engano;
Nem me ofenderas a escutar-me altivo,
Que é favor dado a tempo, um desengano;
Porém deixando o coração cativo
Com fazer-te a meus rogos sempre humano,
Fugiste-me, traidor, e desta sorte
Para meu fino amor tão crua morte?"




pintura de Victor Meirelles



MOEMA
Nivea Moraes Marques



Entreguei meu corpo à morte. Meu coração, te entrego, ainda nessas condições.
Todo o mar é pequeno aos meus pés e nunca fui Senhora nos teus lábios.
Entregas o teu passo a que caminhos?
Sorri pras vilas e tias e conhecidos de que mundo?
Nunca me interessei pelas origens do teu povo, pela vida em tuas cidades, não conheço os teus rochedos, nem ao menos sei, se esse mar pequeno aos meus pés, conseguiu chegar aonde ordenastes.
Meu amor, Dragão do Mar, passeias entre deuses e ainda preferes (como eu) este lindo nome com o qual eu não te batizei: Caramuru.
Nessa língua que eu falo, todos os sons são ariscos e imponentes, denunciando em cada sílaba a doçura nossa.
Sei que ela também fala essa língua, mas ela nunca quis te dizer Caramuru, como eu ainda quero nessas condições.
Às vezes a ira afaga ainda mais esse amor em mim. Repito para as aves prontas para a rapinagem: Caramuru. Em silêncio, as aves fecham suas asas e começam a pentear os meus cabelos.
Meu nome é Moema e também é lindo o dizer: Moema.
Moema vive, ainda que nessas condições.
O mar é pequeno aos meus pés e por que insiste essa paisagem, protegendo meu corpo quase vivo entregue à morte?
Sei que o desespero dos meus músculos e a fúria toda empregada nessa última tentativa de arrancar amor daquele que dá ordens ao mar e diz serenamente: segue!, de nada adiantaria, como de fato, de nada adiantou. Mas meu corpo quase vivo precisa a cada morte te dizer: Caramuru... Moema... .
E nem tanta água flutuante é capaz de combater as visões de fogo que aos meus olhos chegam.
“A morte é certa, Moema”, poderiam me dizer. Mas eu já não ouço, nessas condições.
Quem poderia compreender que em minha voz Caramuru é de Moema. E que ainda nessas condições Moema é feliz ao dizer: Caramuru.
Aprendi outras palavras, é claro. Como as outras meninas que nasceram quando nasci.
Para elas, todas as palavras fazem sentido. Para elas, todos os dias são grandes demais para repetirem corriqueiramente essas mesmas palavras.
Para Moema, com o corpo entregue à morte, ainda viva, nessas condições, não importa mesmo o sentido que a palavra tem.
Fecho e abro meu alfabeto nesse mar pequeno aos meus pés, sem ter conhecido a ventura do corriqueiramente.
Todos os meus dias foram e serão insuficientes pra entender para quê. Mas continuo, ainda nessas condições, a dizer, sem comportar a força desse nome:
CARAMURU.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

SALVE RAINHA


Salve Rainha do Brasil
Nivea Moraes Marques

Dentro de seu corpo negro
traz um Brasil mestiço
Acalanta o coração de cada
brasileiro e olha cada um
como um seu pequeno Jesus

Manto fluvial azul-marinho
onde nadam meninos pelados
descalços
famintos
Estendida a mão dessa mãe
para aqueles que só imitando Jesus
podem cozer o pão solidário

Tiara de flores amarelas e rosas
é bela a cabeça de Nossa Senhora
Que sonha Jesus nos seus braços
Quando abraça nossa bela e terrível
Nação

Os peixinhos enfeitam seus pés
e a pegada que imprimem no chão
é da advogada que caminha o quanto for
preciso para que se confirme em Jesus
a salvação das gentes da Terra de Santa Cruz.



No final do ano de 2001 consagrei a minha tarefa de escrever à Nossa Senhora da Aparecida; neste dia 12 deponho aos seus pés tudo o que tenho e o que sou, em agradecimento e espero que ela continue intercedendo por mim junto a seu filho único Jesus Cristo, para que Ele me abençôe cada vez mais nessa lida- de- cada- dia com as palavras.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

FLOR DE AMIDO

Flor de amido
Salgado Maranhão

Ao desvendar o saco de pipocas desfruto a sensação
de mastigar estrelas. Evoco as explosões em cadeia
sob a tampa da panela (a conversão do azeite em fogo
torna o - já despido - grão em algo que se debulha
em flor). Algo que de intuir-se fervilha a maxila. E
junta-se às ínfimas pepitas de sal a derme do amido.
Tal que os apelos da saliva e sua espessa volúpia
são meros subtextos do vôo do olho ao irresistível


Mingau de Maizena
Nivea Moraes Marques
Para minha bisa Maria
Cobre a língua
com o leite espesso de açúcar e amido
e suga pra dentro a via láctea
Imune às estrelas, pois mula sem cabeça
serra pelada
cadeia do vento
presa à pressa da gula, entorno
o conteúdo gostoso do prato
e: mingalada!
recomeço a minguar
como se fosse a lua
naqueles dias tristes
em que os gatos lhe comem
a língua

RETRATO DE LAURA

Retrato de Laura
Nivea Moraes Marques

Para Laura Arbex


Laura vive numa lua de leite
louça fria
lance do logus
luta e letra calçada de luva
Lastro de louca no lince da lupa

No lápis de Laura, luto da preguiça,
faz nascer lontras, litros, lustres
nesta lavoura lúdica, sua lânguida língua
é limite do laço: lume.

Laura só sonha em latim,
linfática lama
lodosa linhagem
lufa-lufa do som

Lupus - legi - lata
lundu de vira-lata
lombo lusíada
lote de lombrigueiro
lona do logro

Laura levada, lança de pontas, seta da língua
litoral das largas chuvas
leito do lanho no joelho
louvai lipidicamente
suas lágrimas de menina

terça-feira, 9 de outubro de 2007

AMOR VEGETAL

AMOR VEGETAL
Nivea Moraes Marques

Dentro dos vegetais há um coração laranja que diz quando é hora de partir e de chegar, quando é hora de amadurecer e crescer, quando é hora de se deixar colher.
Há vegetais que pressentem os sinais do tempo e serenamente informam quando há chuva ou quando é seca.
Os vegetais não gritam ou imploram, os vegetais habitam suas próprias delongas, suas próprias querelas, sua própria viuvez.
Quando alguém ama um amor vegetal, não é que se possa se considerar uma abóbora ou uma cenoura é que já passou por todos os percalços e ainda assim: ama.
Um amor vegetal é um amor que amadurece mudo, que quase nada gasta de ternura e tempero, tão distante se encontra de seu próprio objeto.
Um amor vegetal é secularmente vivido em cada tão pequeno gesto e ato que nunca pode ser roubado ou vendido.
Amo um amor vegetal tão esquecido de si que quase nem tem nome ou nem tampouco se prepara para longas presenças, longas distâncias.
Um amor vegetal não se presenteia, nem aos domingos; é calado, já disse.
Dentro do amor vegetal só as tardes são permitidas, ele que já foi um amor qualquer dentro de um animal, hoje quer hortaliças e flores, pertence a esse reino e nunca se furtará ao fato de que enquanto o sol e a chuva inundar o seu talo, florescerá, para sempre inesquecível.

AMOR VEGETAL
Affonso Romano de Sant´anna
Não creio que as árvores
fiquem em pé, em solidão, durante a noite.
Elas se amam. E entre as ramagens e raízes
se entreabrem em copas
em carícias extensivas.
Quando amanhece,
não é o cantar de pássaros que pousa em meus ouvidos,
mas o que restou na aurora
de seus agrestes gemidos.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

NOIVA MARROQUINA

Eu já fui a noiva marroquina, já fui o garagista meio louco, hoje tem dias em que sou o saci e outros em que sou os olhos mogrebinos.

Difícil mesmo é saber quem vai segurar esse buquê...

(Dedico essa primeira postagem a minha amiga Patrícia Amante que atualmente é noiva, só não sei se marroquina.)


Fênis Marroquina
Cecília Meirelles

O garagista, meio louco,
enchia o tanque do carro
falando na noiva ausente,
uma noiva imaginária
num lugar ensolarado
para os lados do Marrocos.

Muitas pulseiras e jarros de metal amarelo.
O garagista, meio louco,
todos os dias deixava
no tanque de gasolina
essa mulher deleitosa,
tâmara, coral, tambores,
que ia conosco fechada
pelos caminhos da França,
evaporando-se ao longo
da vasta quilometragem.

Jardins de palmeiras, canções noturnas, palavras mornas.

O garagista, meio louco,
de manhã recomeçava
a encher o tanque do carro,
a falar na noiva ausente,
seus cabelos e pulseiras,
seus jarros, coral, tambores,
tâmara, palmeiras, noites,
_ e ia conosco o fantasma
evaporando-se pelas
estradas louras da França...

Ia a fênis marroquina,
fênis morta e renascida:

buzina de alaúdes baços, lanternas de olhos mogrebinos.
Paris - 1953



A Volatilização da Noiva Marroquina
Nivea Moraes Marques
O amor é fumaça de óleo diesel:
Queima e transborda o tambor
Encera o chão da sua casa
e brinca de asfalto quente
com a sola do pé.
O amor prega sua certeira peça
atirando pedra nos telhados e
nos vizinhos
Se eu pudesse amar,
eu seria um saci
Se eu pudesse desamar,
eu seria um saci mais refinado:
A minha pinta era brilhante
E o suor mais catingudo
Eu compraria Bariloche
(sem os habitantes)
e seria bem mais compreendido...
Só que nunca, nunca mesmo
entenderia o rodar das bicicletas!
Paraty - 2002